>DIÁLOGO COM O CRISTÃO
O CRISTÃO: Você certamente é um cara inteligente, mas está caindo no mesmo erro do demônio: não reverenciar o que está acima de ti. Quem fode tudo que ama, ama demais tudo que fode. Jesus te ama e acredita demais no teu potencial. Desculpe a intromissão, não fiz isso pra ninguém saber como sou bonzinho, até porque estou me regenerando... muita paz!
EU: Ué, eu reverencio o que está acima de mim. Mas certamente o que está acima de mim (e também abaixo e dos lados, por sinal) não é um deus branco barbado que perde tempo inventando regras idiotas de comportamento, e que tem garotos de recado masoquistas. Meu deus/deusa dança, e quando ele/ela dança eu sequer o/a respeito, porque eu sequer existo nessa presença; eu simplesmente me reintegro ao absoluto e não sou mais nada a não ser tudo. E o demônio é apenas um ponto escuro; eu realmente não me importaria com ele, a menos que eu quisesse me escravizar a ele - em nome de deus. O resto é gozação.
Thanx pelo inteligente. Lamento você ser burro.
O CRISTÃO: Mesmo que eu desista de você, Jesus não desistirá nunca. Lembre dos dois ladrões, um de cada lado da cruz, representando nosso direito de escolher. Deus nos deixa escolher o que quisermos, mas meninos de recado como eu sabem que você também conta. Não acho que eu seja o mais masoquista de nós dois não, embora não esteja dizendo isso pra te provocar, sou apenas sincero, sem artifícios. O sadismo, indiretamente, também é masoquismo. Eu concordo que sou burro, por isso preciso de Deus me guiando... Não te chamei de inteligente no sentido de que é um homem esclarecido, sábio, foi apenas reconhecendo que tem condições de vir a entender a verdade.
EU: Deixa de ser pretensioso, o garoto de recados masoquista é Jesus, não é você
;)
>A XOXOTA É SUBVERSIVA
Entrevista minha, feita pela querida Andera, para o site Moddols
Alex, vamos começar de trás para frente. Como surgiu seu interesse em fazer a matéria sobre as garotas que fazem parte de sites como o Moddolls? E a sua idéia da reação destas garotas nesse momento?
Mais de 20 anos atrás, exatamente quando a primeira banda brasileira só de garotas surgiu no pós-punk, as Mercenárias, eu me perguntei por que elas tinham adotado esse nome, que tem por trás uma idéia tão militar, tão patriarcal, tão masculina... Claro que é uma apropriação irônica, mas pra mim elas teriam obviamente que se chamar algo tipo “as bucetas”, que nem as Slits na Inglaterra. Pra esfregar na cara do patriarcado (ops) exatamente esse poder, uma sexualidade desinibida, entende (risos)... De lá pra cá, nos anos 80 e 90, observei que o movimento das garotas tinha herdado certos princípios tolos do feminismo militante, a tal coisa do anti-sexismo, que é como você ter a bomba H ao seu alcance e não aproveitar pra arrasar o inimigo... Pô, a questão-chave do patriarcado é a questão do poder, do controle, da potência – e é exatamente o sexo, a natureza em expansão, que detona a noção que o homem tem de autocontrole, de limite. Nada como uma xoxota pra tirar um patriarca responsável do sério, provocar um curtocircuíto.
(...)Continue lendo ">A XOXOTA É SUBVERSIVA">MR. MILES NO RINGUE DO ROCK
Como o costureiro e o cabeleireiro de Hendrix mudaram a história do jazz
Sexo, drogas & rock’n’roll. Hoje soa como o mais banal dos clichês, mas o estrago que essas três palavrinhas fizeram na moral e nos bons costumes ao longo dos anos 60 não foi pequeno. Sexo, drogas, rock’n’roll – e também o cabeleireiro e o costureiro de Jimi Hendrix, como veremos.
Nem o jazz de Miles Davis escapou à transformação. Miles, aliás, pulou de cabeça nela. Em 1967, aos 40 anos de idade, ele já tinha transformado o jazz duas ou três vezes – mas o jazz ainda era jazz. Nesse ano, John Coltrane, ao lado de quem Miles inventou o jazz moderno na década de 50, morreu de repente com cirrose hepática, e de repente uma era estava acabada. A revolução estava no ar.
(...)Continue lendo ">MR. MILES NO RINGUE DO ROCK">AS MOÇAS QUE SE DESNUDAM
Sites e fotologs mostram o surgimento de uma nova e desinibida tribo urbana no Brasil: as sexy grrrls. São adolescentes e moças com estilo e cheias de si, que combinam sensualismo, cultura pop e referências intelectuais para inventar uma forma auto-suficiente de pós-feminismo
"Existe esse machismo opressor porque as mulheres do mundo inteiro são burras. Nós poderíamos ter a maioria dos homens aos nossos pés num estalo de nossos dedos com esmalte, se não tivéssemos medo da nossa própria força. Acho que poderíamos usar pornografia como um veículo para mudar mentes, imagina? Já que podemos levar hordas de homens à masturbação insana, não é possível não podermos levá-los a considerar a equivalência entre os sexos (do blog Dionea)
(...)Continue lendo ">AS MOÇAS QUE SE DESNUDAM">MUITO SEXO SEM SEXO NENHUM
Algumas anotações casuais sobre amor, corpo e putaria
O sexo é provavelmente a atividade humana que atrai mais paradoxos e dubiedades. É uma das mais praticadas - e das menos compreendidas. Em geral quem se dispõe a afirmar coisas sobre o sexo é quem menos o pratica (pelo menos em tese...), ou o pratica com menos gozo, como os padres e sacerdotes cristãos em geral.
As gírias derivadas do sexo podem significar tanto experiências negativas (“foder alguém”) como francamente positivas (“isso é foda, fodido de bom”). É freqüente um relacionamento com um bom e forte aspecto sexual disparar logo mecanismos negativos - ciúme, necessidade de controle, culpa -, que são o oposto simétrico da descontração, da intimidade e da entrega que uma transa pode propiciar.
(...)Continue lendo ">MUITO SEXO SEM SEXO NENHUM">POLANSKI E OS TRILHOS PARA LUGAR NENHUM
A consagração do cineasta com O Pianista reafirma uma trajetória, e desafia uma convenção
Não é o velho e bom (ou seria o caso de dizer “o jovem e mau”?) Polanski. Nem anarquicamente cruel como nos tempos de Armadilha Do Destino (1966), nem mortalmente angustiante como em O Inquilino (1976), nem mesmo maduramente cínico como em Lua de Fel (1992). Mas O Pianista tem lá o seu segredo “sórdido”, para além de outros méritos cinematográficos evidentes. O filme honra aquilo que é mais importante para Polanski - o próprio estilo Polanski.
(...)Continue lendo ">POLANSKI E OS TRILHOS PARA LUGAR NENHUM">ORKUT: UM ENSINAMENTO NA (A)MORAL DE EXU
O caso Como Ou Não Como versus Tem Mas Acabou e a criação da elite psíquica da humanidade
Vou partir do pressuposto de que a maior parte dos que me lêem saberá do que eu estou falando, quando menciono a comunidade virtual Orkut (www.orkut.com). Eu mesmo já estava ouvindo falar dela algumas semanas antes de ser convidado por um integrante (é só por convite que se dá a admissão), e lá estou há umas duas ou três.
Então os leitores também saberão que o bom funcionamento dessa comunidade pressupõe um balanço natural entre individualismo (o jeito que a informação pessoal é dosada/ filtrada nas informações e nas fotos) e coletivismo (a interação nos grupos opcionais, criados e mantidos por afinidade de assunto ou de inclinação).
A liberdade quase total ao acessar a informação pessoal de alguém (guardados uns segredinhos íntimos), e de interagir com essa pessoa (através de convites, mensagens, teasers), é compensada com mecanismos por enquanto suficientes de coerção dos inconvenientes (bloqueios individuais, coletivos, e finalmente exclusão). Por enquanto funcionou.
(...)Continue lendo ">ORKUT: UM ENSINAMENTO NA (A)MORAL DE EXU">TECNOTOPIA RECUPERADA
Uma entrevista minha para o site do Itaú Cultural sobre o processo de tradução de Neuromancer, e mais algumas respostas sobre o mesmo assunto para os leitores do site Leia Livro, da Secretaria Estadual de Cultura
O que mais pode ser dito sobre um clássico que não só influenciou uma geração mas foi a principal influência do hoje entendemos por cibercultura? Muito já foi falado e escrito sobre Neuromancer (e aguardem as homenagens para 2004, quando se comemoram vinte anos da publicação original): o que resta a ser dito, no entanto, é uma boa notícia para os leitores brasileiros.
Se você não esteve perdido dentro de algum mundo virtual nas últimas semanas, sabe que a obra-prima de William Gibson acaba de ser republicada no Brasil. Esgotado há quase uma década, o livro era dificílimo de encontrar até mesmo em sebos. Agora, com uma capa decente e charmosa, que lembra a do terceiro livro de Gibson, Mona Lisa Overdrive, e nova tradução (com direito a elucidativas notas de rodapé), Neuromancer está aí de novo para o deleite dos ciberpunks de plantão, que nunca perderam a esperança. Confira a seguir a entrevista com Alex Antunes, responsável pelo upgrade na tradução. (Fábio Fernandes)
CIBERCULTURA: O que você fazia em 1984, no ano da publicação de "Neuromancer"? Você se considera um ciberpunk?
(...)Continue lendo ">TECNOTOPIA RECUPERADA">BRYAN FERRY: REVISTO & CORRIGIDO
O show e o álbum Frantic confirmam a volta à melhor forma do fundador do Roxy Music
Bryan Ferry, desde 72, foi, ao lado de Lou Reed (desde 67), David Bowie e Iggy Pop (desde 69), um dos caras que vislumbraram um caminho direto para o punk e o pós-punk, sem passar pelo pior dos anos 70. Visto daqui, parece mais fácil e óbvio do que deve ter sido – afinal, eles estavam projetando o futuro, e na contramão.
O antídoto de Ferry à pompa e à indulgência progressiva, mais ou menos como o de Bowie, era baseado na apropriação – até certo ponto humorística, no sentido inglês, art school e sardônico do termo – do glamour decadentista europeu, da cultura de cabaret, da releitura contemporânea da canção “torchy”, dilacerada.
(...)Continue lendo ">BRYAN FERRY: REVISTO & CORRIGIDO">O STRIPTEASE
Eu e minha mulher estamos nos separando. Quer dizer, estávamos: salvou-nos o striptease dela. Não foi pra mim. Foi pruns caras aí; mal sabem eles o bem que nos fizeram. Bom, de qualquer modo eles tiraram a casquinha deles.
Eu e ela tentamos viver juntos uns tempos, e não deu muito certo. Mas mudar depois de morar junto, e dizer “vamos continuar namorando”, também não é fácil. Ficam, sei lá, umas ofensas, umas cobranças de quem foi o culpado de não ter dado certo, uma dificuldade em simplesmente zerar e seguir em frente.
Agora ela descolou um emprego e uma casa longe, em um município vizinho. Com a correria do final de ano (o trampo dela é numa loja de shopping), começamos a nos ver tipo uma vez por semana, o dia em que ela deixa o filho com a ex-sogra e vem dormir aqui em casa.
No domingo combinamos uma balada, ir à domingueira roqueira da Lôca, famosa pela pegação (hetero inclusive) e pelo clima, hum, de putaria. Já tivemos uma briga saindo de lá, porque a presença majoritariamente gay a deixa maluquinha, e ser o bedel da franga alheia é uma atividade estressante.
(...)Continue lendo ">O STRIPTEASE">A VIDA POR UM MIO
Meu primeiro ídolo sexual foi a Jeannie, do seriado Jeannie É Um Gênio. Hoje eu me pergunto se havia alguma programação patriarcal precoce na minha preferência pela gênia paga-pau do Major Nelson.
Isso em detrimento, por exemplo, da relativamente mais independente Samantha de A Feiticeira. Que, pelo menos, não vivia dentro de um quartinho em forma de garrafa, e ainda tinha uma bruxa-mãe que punha as coisas em perspectiva.
Mas talvez fosse apenas o charme marilynesco, a um tempo intensamente sexy e docemente ingênuo, da Barbara Eden/ Jeannie, maior do que o da Elizabeth Montegomery/ Samantha. O fato é que minha segunda faísca sexual televisiva, bom, essa é inquestionável na sua fe(mi)linidade. É a Mulher-Gato, do Batman, que eu conheci na pele de Julie Newmar.
(...)Continue lendo ">A VIDA POR UM MIO">UM A UM
– O Pinguim! É isso, você estava igualzinho ao Pinguim do Batman!
Admito que a imagem me atingiu. Eu tinha resolvido apresentar um festival de música que eu dirigi vestindo smoking, pra evocar a pompa cafona dos antigos festivais da MPB. Aluguei o bagulho, pensando em subverter usando-o com um tênis All Star.
Mas, na hora em que fui experimentar o smoking alugado em casa, por alguma razão coloquei a camisa e o casaco antes de tirar a bermuda. Era uma bermuda preta de bolsos grandes, estilo mano, e, quando me olhei no espelho, estava engraçado. Botei a faixa de seda na cintura, e ficou perfeito.
Bom, acabei apresentando as quatro noites de shows vestido assim, de smoking da cintura pra cima e bermuda e All Star (preto, como manda a etiqueta) da cintura pra baixo. O festival se chamava com:tradição, então me pareceu adequado.
Tipo como disse o Eugênio, com seu sotaque caipira, quando viu as fotos da Roberta Close nua, antes da operação: “a parrrrrte de cima não óóórrrrrna com a parrrrrte de baixo”...
(...)Continue lendo ">UM A UM">EU AMO O MARIDO DA CLARAH AVERBUCK
Não, isto não é uma saída inesperada do armário. Aliás, nem sei se a Clarah chama o cara, o Marcelo, de marido. Mas o fato é que ver os dois juntos outro dia enterneceu e esquentou um coração ressequido: o meu.
Seria óbvio demais escrever um troço chamado “Eu amo a Clarah Averbuck” - só um pouco mais óbvio do que “Eu odeio a Clarah Averbuck”, que vem a ser a outra possibilidade de se relacionar com ela.
O que é que a gaúcha tem? Bom, ela escreveu um livro autobiográfico precoce, A Máquina De Pinball, que me deixou exatamente com essa dúvida - amar ou odiar - durante uns dois terços da leitura. Quando dei o braço a torcer (para o livro abusado, porque da autora abusada eu gostei instintivamente), senti que eu estava me abrindo não para uma história qualquer, nem sequer para um estilo ou para uma “proposta literária”, mas para o futuro.
O dela. O meu. O do Brasil, se é que isso existe. O da humanidade.
(...)Continue lendo ">EU AMO O MARIDO DA CLARAH AVERBUCK">SENTADO À BEIRA DO ABISMO
A reação do porteiro foi um pouco lenta – provavelmente apenas aqueles dois dedinhos usuais de má vontade. Repeti a frase.
– A Dona Júlia, você sabe qual é o apartamento dela?
Acrescentei tipo uma explicação pra satisfazer a “autoridade” dele, se bem que com um toque de displicência:
– Eu já vim aqui antes... mas esqueci o número do apê.
– Quem? – o cérebro do tiozinho uniformizado estava demorando pra dar ignição. Comecei a achar ele meio tonto, mesmo. Não parecia particularmente burro nem inteligente. Nem novo demais (pra explicar a distração) nem velho demais (pra estar gagá).
(...)Continue lendo ">SENTADO À BEIRA DO ABISMO">SEXO, DROGAS & ROCK’N’ROLL: UM OUTRO NOME PRA DEUS
O que a doidera do pop tem a ver com a luta arquetípica entre o caos e a ordem
“A música é um grande mistério. Em virtude de sua natureza sensual-espiritual e da surpreendente união que ela realiza entre a regra estrita e o sonho, a razão e a emoção, o dia e a noite, ela é sem dúvida o mais profundo, o mais fascinante e, aos olhos do filósofo, o mais inquietante dos fenômenos (...) A palavra ‘harmonia’ significa música, mas apenas secundariamente; originalmente, quer dizer matemática. Mas o mundo não é todo ele acordo e harmonia de esferas; ele possui tendências irracionais e demoníacas que os gregos não desprezavam, mas procuraram dominar e integrar em sua religião. Assim o culto de Eleusis adorava as forças obscuras do mundo inferior (...) Se o mundo é música, inversamente, a música é o reflexo do mundo, de um cosmos semeado de forças demoníacas. Música é número, a adoração do número, é álgebra ressonante. Mas a própria essência do número não conterá um elemento de mágica, um toque de feitiçaria? A música é uma teologia do número, uma arte austera e divina, mas uma arte em que todos os demônios estão interessados e que, entre todas as artes, é a mais suscetível ao demoníaco (...) E os sacerdotes e mestres da música são os iniciados, os preceptores desse ser duplo, a totalidade demoníaco-divina do mundo. É a esperança de uma humanidade que, ao invés de reprimir e portanto exasperar o irracional, aceita francamente, venera e portanto santifica essas forças demoníacas e coloca-as ao serviço da cultura”
O escritor alemão Thomas Mann, morto em 1955, não estava pensando no rock’n’roll quando escreveu este texto, chamado “A Missão Da Música No Mundo Moderno”. Mas ele serve bem pra descrever o mergulho no obscuro, nos tabus e no irracional que o rock (pelo menos quando está na sua melhor forma) propõe.
Desse ponto de vista, a tríade SEXO-DROGAS-ROCK’N’ROLL faz todo sentido. Desde as culturas milenares, as artes tântricas do sexo, os transes induzidos e a música rítmica dos rituais são caminhos conhecidos para o contato com o “outro lado”.
(...)Continue lendo ">SEXO, DROGAS & ROCK’N’ROLL: UM OUTRO NOME PRA DEUS">UMA DISCOGRAFIA PARA ENTENDER A MPB
19 discos-chave na compreensão do gênero e de suas transformações
(por Bárbara Lopes e Alex Antunes)
De tempos em tempos, a imprensa publica alguma enquete sobre os melhores discos brasileiros de todos os tempos. Em geral marcadas pela subjetividade e a idiossincrasia dos votantes (e incluindo quase sempre algum álbum recente e não-referendado pelo distanciamento histórico), essas listas alternam alguns achados e alguns votos constrangedores.
O modelo aqui é diferente – são 19 discos (abaixo os números redondos!), expostos em ordem cronológica, buscando uma perspectiva histórica. E também há um recorte, ainda que amplo: traçar uma discografia de MPB.
(...)Continue lendo ">UMA DISCOGRAFIA PARA ENTENDER A MPB">KELLY KEY NÃO É O PROBLEMA, KELLY KEY É SOLUÇÃO
Pra quem não ficou sabendo ou não prestou atenção, houve uma malfadada carta de ONGs do setor da saúde pública, atacando a escolha da cantora Kelly Key como garota-propaganda da campanha de carnaval do Ministério da Saúde. O tom e o tema me lembraram um surto de intolerância cultural parecido, daquela vez contra o chamado “funk” carioca (pouco a ver com o funk propriamente dito), uns dois anos atrás.
Dizia o manifesto das ONGs, no seu trecho (pretensamente) mais contundente, que Kelly não respeita “uma visão política do mundo e suas relações de gênero”, e que defende “uma pseudoliberdade sexual, em que o homem é o oprimido e a mulher é a opressora”.
A reclamação não colou, como atestam os simpáticos outdoors com a moça, nas ruas, segurando uma camisinha e dizendo “mostre que você cresceu e agora sabe o que quer” (a campanha está na televisão e no rádio também, mas não assisti nem ouvi).
Ora, a crítica da carta era totalmente injustificável do ponto de vista das atribuições formais – como bem observou uma conhecida minha, esse é o Ministério da Saúde, ou o Ministério da Moral e Bons Costumes? E bastante estúpida do ponto de vista do marketing propriamente dito.
(...)Continue lendo ">KELLY KEY NÃO É O PROBLEMA, KELLY KEY É SOLUÇÃO">AMARELO MANGA: COR DA MISÉRIA E DA TRANSMUTAÇÃO
Finalmente um cinema nacional sem culpa
Aconteceu em setembro um inusitado seminário no Espaço Unibanco de Cinema (SP). O ponto de partida (um artigo da crítica Ivana Bentes) era explicar o sucesso de Cidade De Deus a partir de seus - supostos - defeitos. O título: Da Estética À Cosmética Da Fome.
Qualquer entusiasta generoso do cinema nacional estaria lá celebrando a bilheteria expressiva de um filme consistente e bem-realizado, antítese das Xuxas e congêneres que monopolizam a lista dos tops nacionais há décadas. Mas vários dos debatedores foram munidos de acusações como "glamurização do crime e da violência", "ritmo alienante" e "falseamento" ou "simplificação da história".
(...)Continue lendo ">AMARELO MANGA: COR DA MISÉRIA E DA TRANSMUTAÇÃO">QUEM COM ROCK FERE, COM BREGA SERÁ FERIDO
De como a geração blasé dos 80 entregou o ouro aos bandidos
O período 1982-2002, os últimos vinte anos, correspondem precisamente à Ascensão, Queda e Ressurreição do pop brasileiro. Na comparação de livros de ótica quase antagônica, como Noites Tropicais (Nelson Motta, Objetiva) e Dias de Luta (Ricardo Alexandre, DBA), pelo menos uma coisa fica estabelecida.
É que, apesar da Jovem Guarda e de um ou outro momento iluminado (Mutantes), até a década de 80 o roqueiro brasileiro tinha “cara de bandido”, como cantou Rita Lee. Mas para explicar a explosão realmente popular da uêive brazuca (Blitz, Paralamas, RPM, Titãs etc.), é preciso retroceder um pouco.
Ninguém até então tinha conseguido responder a questão essencial colocada pela Tropicália na década anterior: QUEM COME QUEM. Fica entendido que Tropicália significa, além dos baianos oficiais (Caê, Gil, Gal), os paulistas de todos os calibres (dos roqueiros Mutantes ao erudito pero bem-humorado maestro Rogério Duprat), gênios cariocas avulsos (Jards Macalé) e até baianos não-alinhados (Tom Zé).
(...)Continue lendo ">QUEM COM ROCK FERE, COM BREGA SERÁ FERIDO">A PUTA QUE NÃO HAVIA
(trecho do conto inédito)
Lucrécia e Natércia tinham sido Yelena e Sonia na montagem de Tio Vania, a peça do Tchekov. Tudo errado: Natércia, lindíssima mas meio cabeça-de-vento, tinha feito a idealista Sonia na peça, a personagem que era própria voz da consciência, mas feiosa, por definição do texto.
Lucrécia não era propriamente um jaburu, mas se destacava mais pela intensidade do que pela beleza física. E tinha sobrado com o papel da aristocrata sedutora e um tanto fútil, Yelena – a bela, sempre segundo o autor russo.
Acontece que o Bagrinho, um diretor de teatro inesperadamente heterossexual, andava comendo a maravilhosa Natércia, e achou porque achou que ela tinha que ser a personagem “ética” da peça, contra todo o bom senso.
(...)Continue lendo ">A PUTA QUE NÃO HAVIA">MEU AMIGO; JOE STRUMMER
Numa madrugada destas encontrei um chapa, o Stéfano, e fiquei aporrinhando o cara com uma questão: se ele não concordava comigo que a morte do Minho K pontuava o fim de uma era. O Stéfano não entendeu bem, e a pergunta insistente foi dormir comigo.
No dia seguinte, uma notícia inesperada: Joe Strummer, o vocalista e guitarrista do Clash, estava morto. Pra quem não sabe, o Minho K, ou Celso Pucci, jornalista (Bizz) e guitarrista (Verminose, Voluntários da Pátria, No. 2, 3 Hombres), era grande fã do Clash.
Mais do que isso. Alto, magro, sempre de botas e chapéu de caubói urbano, Minho K parecia uma espécie de filial brazuca de Strummer, com seu humor irônico, sua visão ao mesmo tempo política e apaixonada do mundo, e do rock.
(...)Continue lendo ">MEU AMIGO; JOE STRUMMER"