segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

>SOBRE ESTUPRO, E ESTUPRO

Porque BBB e estupro combinam e, no entanto, as coisas não podem ficar por isso mesmo

Estou confuso aqui. As pessoas estão falando em “estupro” no Big Brother Brasil. Minha primeira reação foi “mas os participantes não são pré-estuprados?”. É um chiste; significa que se você topa ir viver pra frente das câmeras durante meses, encenando um jogo sexual entre patricinhas e idiotas de “boa aparência”, isso não parece estar submetido às regras e leis usuais – já é um tipo de estupro midiático, oras.

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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

>PORQUE EU AMO MICHEL TELÓ

EU NÃO OUVI NENHUMA MÚSICA DO CARA. NEM ESSA QUE TODO MUNDO OUVIU MILHÕES DE VEZES

...tipo o tecladista triste do Los Hermanos, que ficou com afliceta. Juro. Se ouvi, não notei. Mas eu amo o Michel Teló. Porquê? Exatamente por causa das reações que ele está causando. Eu lembro bem que achei extremamente engraçado quando, após anos e anos de sofrimento sonoro (sertanejo, axé, pagode), as pessoas se enfureceram contra... o FUNK CARIOCA. Logo o funk carioca, que tem uma origem nobre (via miami bass, via electro novaiorquino, via Kraftwerk, até chegar no Stocksausen que ajudou a moldar o krautrock na Alemanha do final dos anos 60).

Na época, eu saí em defesa do funk, que eu chamei de “punk dos pardos”, e do conceito de “ruim de ruim” (em oposição ao “ruim de bom” dos breganejos e seus ternos Armani). O que veio depois, com outras “apropriações tecnológicas pardas” como o tecnobrega, só reforçou minhas convicções. É precisamente essa a função da cultura pop: descobrir como mesclar os ingredientes disponíveis, e não “fingir” uma culinária gringa sem ter os ingredientes (como nosso pseudo-pop-rock-sem-culhões vexaminoso a la Capital Inicial fazia).

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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

>O FANTÁSTICO TIROTEIO NO PÉ

COMO O DEBATE ENTRE O FORA DO EIXO E PERNAMBUCO MAIS ESCONDE DO QUE REVELA - E O QUE ELES TÊM, NA VERDADE, A TROCAR

O timing de Pablo Capilé não podia ser mais esquisito. Saindo de um congresso Fora do Eixo deliciosamente inteligente e afetivo (leia mais considerações AQUI), Capilé mandou no dia seguinte, pela Pós-TV, uma canelada na música do estado de Pernambuco que gerou uma polêmica totalmente avessa ao modo construtivo e propositivo da semana... Ou não. Agindo um pouco como o detetive noir que cutuca antes de entender, e não se furta ao quebra-pau, fez emergir um monstro de antipatias e meias-verdades. A grita na rede atingiu um nível opressivo, mais tenso ainda do que o de outros debates acalorados (como aquele que foi puxado por João Parahyba no ano passado), que constrangeu as pessoas que não se engajaram diretamente nela.

O que estaria em causa? Por um lado, há uma política do Fora do Eixo no qual um movimento desses faz sentido. Com a saída do grupo dos 13 da Abrafin, sai também dessa associação e da ala combativa do movimento uma espécie de “PMDB fisiológico”, o que permite que o nível político da discussão, das composições e da intervenção suba. Mas a pedra no sapato, o ponto mais fora da curva foi a presença, no grupo majoritariamente playboy dos 13, de um festival que tem real importância artística: o Rec Beat. Juntando-se o Rec Beat ao Abril Pro Rock, ao Porto Musical que já havia saído antes, e ao Coquetel Molotov que nunca foi da Abrafin, além dos recorrentes problemas do coletivo local Lumo com gente da cena, Pernambuco de um lado e o Fora do Eixo e a Abrafin de outro chegaram à ruptura total. Ainda havia na associação o festival instrumental Mimo, de Olinda, que saiu após o início da polêmica.

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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

>SEXO, AMOR & FORA-DO-EIXO

UM BALANÇO SINCERO DE CINCO ANOS DE RELACIONAMENTO

No início de 2007, no festival Supernovas, no CCBB/ SP, eu usei na divulgação a expressão “bandas fora do eixo”. O festival escalou os grupos Vanguart (de Cuiabá, que por pouco não foi substituído pelo Macaco Bong, por problema de datas), Madame Saatan (Belém), Los Porongas (Rio Branco), Montage (Fortaleza), Supercordas (Parati) e Ronei Jorge & os Ladrões de Bicicleta (Salvador). Apadrinhados pelo Zé do Caixão, que fez duas aparições em carne e osso e gravou vinhetas de saudação aos artistas e uma edição de trechos de seus filmes, que foi sonorizada ao vivo pelas bandas, todos elas apareceram em encontros com os “grandes” da história do rock brasileiro: remanescentes dos Secos & Molhados, Novos Baianos, Legião Urbana, Sepultura, Pato Fu e, do underground de São Paulo, Fellini. Tirante o finado Raul Seixas, e Mutantes (que estavam em plena reorganização para a volta, senão certamente um dos irmãos Dias Baptista estaria lá), o conceito era claro: o cetro estava sendo passado, da verticalidade histórica do rock nacional, para a horizontalidade geográfica da nova geração.

De lá para cá, muita coisa aconteceu. A tal horizontalidade, a descentralização e a coletivização se confirmaram, como eu atestei circulando (como jornalista, palestrante e curador) por dezenas de festivais de cidades de todas as regiões, a história da música jovem brasileira continuou a escrever um novo capítulo (inclusive estético), e o próprio “eixo” (ou a parte saudável dele) se reorganizou e deu suas respostas artísticas e organizativas.

Mas eu sempre fiz questão de manter um certo embate com a direção do Circuito Fora do Eixo, a organização que emergiu dessa mobilização toda, reclamando que algumas questões (fundamente a discussão estética) não estavam sendo contempladas com o devido (no meu entender) carinho. Anteontem, sábado, dia 17 de dezembro de 2011, realizou-se a plenária de encerramento do 4º Congresso Fora do Eixo (o terceiro de que participei), e creio que está na hora de fazer um balanço sincero desses cinco anos de momentos felizes e discussões duras.

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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

>NEO TRUCULÊNCIA DEMOCRÁTICA SERIES 1 – POR UMA MEGALÓPOLE COM PEGADA – CONTRA A BAIXOGAVEANIZAÇÃO DE SÃO PAULO – PAU NOS INDIES MOLINHOS

UM TEXTO “CONTRA” LEON CAKOFF E REDSON

Vou fazer uma coisa esquisita. Vou discursar “contra” no velório. Não, eu não teria a ousadia de chochar Leon Cakoff, o capo da Mostra de Cinema de São Paulo, nem o punk pacifista Redson. Até porque não seria justo. Mas tem algo no clima geral de consternação com a recente morte deles que também não é justo – não é justo com a cidade de São Paulo. Eu aprendi com meus mestres – Burroughs, Oswald, Gainsbourg, Jards Macalé, Leary, K. Dick, Zé Celso, Polanski, Nelson Rodrigues, Hunter Thompson e tantos outros – que unanimidade e bom-mocismo nunca é legal nem desejável. Lendo a biografia de Buñuel, mais vibrei quando os surrealistas saem de casa para destruir o carrinho do vendedor de bíblias que está passando. Burroughs e Ginsberg nunca esconderam sua predileção pela caça aos efebos – que em São Paulo teve seu representante nos tempos da homossexualidade heróica e turbulenta da juventude de Roberto Piva. É esse mundo que eu habito, impaciente, complexo, explosivo. E São Paulo é assim, pro bem e pro mal.

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sábado, 28 de maio de 2011

>TERROR NO AEROPORTO PINTO MARTINS

Um aeroporto não é parte da cidade, é parte da viagem. Os aeroportos são todos tranqulizadoramente iguais, ou quase. Eu gosto muito do de Cuiabá; pelos banners parece que você está chegando perto do mato (na verdade está). Mas só há uma cidade que nos ofende já no aeroporto: Fortaleza. É só você sair do finger e penetrar no corredor de desembarque, e já há uns anúncios gigantes daqueles hediondos comediantes locais maquiados. E, se você tiver o azar de ir para os lugares errados, só piora.

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sexta-feira, 08 de abril de 2011

>PARABÉNS AOS HIPÓCRITAS PELOS ASSASSINATOS, ESSE É O PAÍS QUE VOCÊS QUEREM CONSTRUIR

O Brasil é um país feminino. Muito da sua propensão ao caos, à ineficiência formal, à falta de pragmatismo, da sua disposição quase infinita em girar em círculos, tem raízes num certo tribalismo maldigerido, que não deixa de conectar com funcionamentos e tolerâncias matriarcais. O lado bom disso é que o Brasil é um país em que a existência na matéria não é malvista, nem sectária: a exibição (e uso) do corpo humano, e particularmente do feminino, não é muito hostilizada (pelo contrário, é incentivada inclusive nas suas versões mais fúteis), e a idiossincrasia e independência de pensamento e de comportamento chega a ser mais do que tolerada (nós listamos entre nossos principais artistas e intelectuais celebradores da miscigenação tropical e até da indolência criativa, como Darcy Ribeiro, Zé Celso, Jorge Mautner, Glauber Rocha etc).

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domingo, 13 de março de 2011

>APONTAMENTOS EM PSICOGESTÃO: PRODUZINDO OS EX-EXUS PARTE 2

A tríade ativa no processo de produção e o fim da "era dos produtores"

É aí que começa a entrar a noção de "psicogestão" na produção. Há vários enfoques possíveis ao se produzir um artista, sendo três os principais. Um é a questão da leitura exterior, de fora para dentro. Poderíamos chamar, um pouco perigosamente, de adequação ao, ou encaixe no, assim chamado mercado. Na verdade eu não gosto nada do termo. Mas exatamente por ser um conceito potencialmente ofensivo a quem cresceu em uma época em que se valorizava a originalidade, a diferença, a individualidade radical, a capacidade de afrontar a percepção mediana (ou medíocre, se quiserem), vou colocá-lo à frente. Porque, ofensivo ou não... há mesmo um mercado, onde o artista oferece seu produto. Que, no limite, é ele mesmo. E aqui as coisas começam a ficar realmente perigosas.

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domingo, 27 de fevereiro de 2011

>APONTAMENTOS EM PSICOGESTÃO: PRODUZINDO OS EX-EXUS PARTE 1

Relatos e reflexões sobre as gravações do álbum dos Ex-Exus em Recife

Jomard Muniz de Britto levou alguns integrantes da banda recifence Comuna, que havia trabalhado num projeto com ele, aos bastidores de um show de Caetano Veloso. Quando comentou que eram "ex-experimentais", Caetano retrucou, brincando, "ex-exus". Estava batizada a próxima banda de três dos cinco communards. Foi esse nome que me chamou a atenção para o grupo - e que me levou a não perder a primeira oportunidade de assisti-los, na Feira da Música de Fortaleza de 2010.

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quarta-feira, 23 de setembro de 2009

>GOVERNADOR DO MATO GROSSO DO SUL RECONHECE QUE É HOMOSSEXUAL E PERVERSO, E “CANTA” MINISTRO

O governador manda a real, e todo mundo entende errado

O governador André Puccinelli (PMDB), do Mato Grosso do Sul, confessou em encontro com empresários de seu estado, nesta 3a. feira (22 de setembro), que nutre atração homossexual pelo Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc. Além disso, admitiu que gosta de sexo perverso, e que pode se descontrolar e mesmo ter comportamentos ilegais em público, dado o grau de sua excitação. O governador prometeu fazer sexo forçado com o ministro, quando este viajar ao seu estado. “Se ele viesse, eu ia correr atrás dele e estuprar em praça pública”, afirmou o governador. E explicou: “Ele é veado e fumador de maconha”. O governador só não esclareceu se sente atraído por todos os homens que ele crê serem homossexuais e consumidores de drogas, ou se é uma inclinação pessoal pelo ministro Minc. Houve na imprensa quem analisasse que as declarações do governador foram de cunho político, mas é difícil interpretá-las assim, dada a objetividade e a crueza sexual das suas palavras. Será uma estratégia cafajeste de conquista?

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domingo, 04 de junho de 2006

>DIÁLOGO COM O CRISTÃO

Uma coversa teosófica pelo Orkut

O CRISTÃO: Você certamente é um cara inteligente, mas está caindo no mesmo erro do demônio: não reverenciar o que está acima de ti. Quem fode tudo que ama, ama demais tudo que fode. Jesus te ama e acredita demais no teu potencial. Desculpe a intromissão, não fiz isso pra ninguém saber como sou bonzinho, até porque estou me regenerando... muita paz!

EU: Ué, eu reverencio o que está acima de mim. Mas certamente o que está acima de mim (e também abaixo e dos lados, por sinal) não é um deus branco barbado que perde tempo inventando regras idiotas de comportamento, e que tem garotos de recado masoquistas. Meu deus/deusa dança, e quando ele/ela dança eu sequer o/a respeito, porque eu sequer existo nessa presença; eu simplesmente me reintegro ao absoluto e não sou mais nada a não ser tudo. E o demônio é apenas um ponto escuro; eu realmente não me importaria com ele, a menos que eu quisesse me escravizar a ele - em nome de deus. O resto é gozação.
Thanx pelo inteligente. Lamento você ser burro.

O CRISTÃO: Mesmo que eu desista de você, Jesus não desistirá nunca. Lembre dos dois ladrões, um de cada lado da cruz, representando nosso direito de escolher. Deus nos deixa escolher o que quisermos, mas meninos de recado como eu sabem que você também conta. Não acho que eu seja o mais masoquista de nós dois não, embora não esteja dizendo isso pra te provocar, sou apenas sincero, sem artifícios. O sadismo, indiretamente, também é masoquismo. Eu concordo que sou burro, por isso preciso de Deus me guiando... Não te chamei de inteligente no sentido de que é um homem esclarecido, sábio, foi apenas reconhecendo que tem condições de vir a entender a verdade.

EU: Deixa de ser pretensioso, o garoto de recados masoquista é Jesus, não é você
;)

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sexta-feira, 14 de outubro de 2005

>A XOXOTA É SUBVERSIVA

Entrevista minha, feita pela querida Andera, para o site Moddols

Alex, vamos começar de trás para frente. Como surgiu seu interesse em fazer a matéria sobre as garotas que fazem parte de sites como o Moddolls? E a sua idéia da reação destas garotas nesse momento?

Mais de 20 anos atrás, exatamente quando a primeira banda brasileira só de garotas surgiu no pós-punk, as Mercenárias, eu me perguntei por que elas tinham adotado esse nome, que tem por trás uma idéia tão militar, tão patriarcal, tão masculina... Claro que é uma apropriação irônica, mas pra mim elas teriam obviamente que se chamar algo tipo “as bucetas”, que nem as Slits na Inglaterra. Pra esfregar na cara do patriarcado (ops) exatamente esse poder, uma sexualidade desinibida, entende (risos)... De lá pra cá, nos anos 80 e 90, observei que o movimento das garotas tinha herdado certos princípios tolos do feminismo militante, a tal coisa do anti-sexismo, que é como você ter a bomba H ao seu alcance e não aproveitar pra arrasar o inimigo... Pô, a questão-chave do patriarcado é a questão do poder, do controle, da potência – e é exatamente o sexo, a natureza em expansão, que detona a noção que o homem tem de autocontrole, de limite. Nada como uma xoxota pra tirar um patriarca responsável do sério, provocar um curtocircuíto.

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sábado, 21 de maio de 2005

>MR. MILES NO RINGUE DO ROCK

Como o costureiro e o cabeleireiro de Hendrix mudaram a história do jazz

Sexo, drogas & rock’n’roll. Hoje soa como o mais banal dos clichês, mas o estrago que essas três palavrinhas fizeram na moral e nos bons costumes ao longo dos anos 60 não foi pequeno. Sexo, drogas, rock’n’roll – e também o cabeleireiro e o costureiro de Jimi Hendrix, como veremos.

Nem o jazz de Miles Davis escapou à transformação. Miles, aliás, pulou de cabeça nela. Em 1967, aos 40 anos de idade, ele já tinha transformado o jazz duas ou três vezes – mas o jazz ainda era jazz. Nesse ano, John Coltrane, ao lado de quem Miles inventou o jazz moderno na década de 50, morreu de repente com cirrose hepática, e de repente uma era estava acabada. A revolução estava no ar.

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domingo, 01 de agosto de 2004

>AS MOÇAS QUE SE DESNUDAM

Sites e fotologs mostram o surgimento de uma nova e desinibida tribo urbana no Brasil: as sexy grrrls. São adolescentes e moças com estilo e cheias de si, que combinam sensualismo, cultura pop e referências intelectuais para inventar uma forma auto-suficiente de pós-feminismo

"Existe esse machismo opressor porque as mulheres do mundo inteiro são burras. Nós poderíamos ter a maioria dos homens aos nossos pés num estalo de nossos dedos com esmalte, se não tivéssemos medo da nossa própria força. Acho que poderíamos usar pornografia como um veículo para mudar mentes, imagina? Já que podemos levar hordas de homens à masturbação insana, não é possível não podermos levá-los a considerar a equivalência entre os sexos (do blog Dionea)

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sexta-feira, 30 de abril de 2004

>MUITO SEXO SEM SEXO NENHUM

Algumas anotações casuais sobre amor, corpo e putaria

O sexo é provavelmente a atividade humana que atrai mais paradoxos e dubiedades. É uma das mais praticadas - e das menos compreendidas. Em geral quem se dispõe a afirmar coisas sobre o sexo é quem menos o pratica (pelo menos em tese...), ou o pratica com menos gozo, como os padres e sacerdotes cristãos em geral.

As gírias derivadas do sexo podem significar tanto experiências negativas (“foder alguém”) como francamente positivas (“isso é foda, fodido de bom”). É freqüente um relacionamento com um bom e forte aspecto sexual disparar logo mecanismos negativos - ciúme, necessidade de controle, culpa -, que são o oposto simétrico da descontração, da intimidade e da entrega que uma transa pode propiciar.

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>POLANSKI E OS TRILHOS PARA LUGAR NENHUM

A consagração do cineasta com O Pianista reafirma uma trajetória, e desafia uma convenção

Não é o velho e bom (ou seria o caso de dizer “o jovem e mau”?) Polanski. Nem anarquicamente cruel como nos tempos de Armadilha Do Destino (1966), nem mortalmente angustiante como em O Inquilino (1976), nem mesmo maduramente cínico como em Lua de Fel (1992). Mas O Pianista tem lá o seu segredo “sórdido”, para além de outros méritos cinematográficos evidentes. O filme honra aquilo que é mais importante para Polanski - o próprio estilo Polanski.

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quarta-feira, 07 de abril de 2004

>ORKUT: UM ENSINAMENTO NA (A)MORAL DE EXU

O caso Como Ou Não Como versus Tem Mas Acabou e a criação da elite psíquica da humanidade

Vou partir do pressuposto de que a maior parte dos que me lêem saberá do que eu estou falando, quando menciono a comunidade virtual Orkut (www.orkut.com). Eu mesmo já estava ouvindo falar dela algumas semanas antes de ser convidado por um integrante (é só por convite que se dá a admissão), e lá estou há umas duas ou três.

Então os leitores também saberão que o bom funcionamento dessa comunidade pressupõe um balanço natural entre individualismo (o jeito que a informação pessoal é dosada/ filtrada nas informações e nas fotos) e coletivismo (a interação nos grupos opcionais, criados e mantidos por afinidade de assunto ou de inclinação).

A liberdade quase total ao acessar a informação pessoal de alguém (guardados uns segredinhos íntimos), e de interagir com essa pessoa (através de convites, mensagens, teasers), é compensada com mecanismos por enquanto suficientes de coerção dos inconvenientes (bloqueios individuais, coletivos, e finalmente exclusão). Por enquanto funcionou.

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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2004

>TECNOTOPIA RECUPERADA

Uma entrevista minha para o site do Itaú Cultural sobre o processo de tradução de Neuromancer, e mais algumas respostas sobre o mesmo assunto para os leitores do site Leia Livro, da Secretaria Estadual de Cultura

O que mais pode ser dito sobre um clássico que não só influenciou uma geração mas foi a principal influência do hoje entendemos por cibercultura? Muito já foi falado e escrito sobre Neuromancer (e aguardem as homenagens para 2004, quando se comemoram vinte anos da publicação original): o que resta a ser dito, no entanto, é uma boa notícia para os leitores brasileiros.

Se você não esteve perdido dentro de algum mundo virtual nas últimas semanas, sabe que a obra-prima de William Gibson acaba de ser republicada no Brasil. Esgotado há quase uma década, o livro era dificílimo de encontrar até mesmo em sebos. Agora, com uma capa decente e charmosa, que lembra a do terceiro livro de Gibson, Mona Lisa Overdrive, e nova tradução (com direito a elucidativas notas de rodapé), Neuromancer está aí de novo para o deleite dos ciberpunks de plantão, que nunca perderam a esperança. Confira a seguir a entrevista com Alex Antunes, responsável pelo upgrade na tradução. (Fábio Fernandes)

CIBERCULTURA: O que você fazia em 1984, no ano da publicação de "Neuromancer"? Você se considera um ciberpunk?

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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2004

>BRYAN FERRY: REVISTO & CORRIGIDO

O show e o álbum Frantic confirmam a volta à melhor forma do fundador do Roxy Music

Bryan Ferry, desde 72, foi, ao lado de Lou Reed (desde 67), David Bowie e Iggy Pop (desde 69), um dos caras que vislumbraram um caminho direto para o punk e o pós-punk, sem passar pelo pior dos anos 70. Visto daqui, parece mais fácil e óbvio do que deve ter sido – afinal, eles estavam projetando o futuro, e na contramão.

O antídoto de Ferry à pompa e à indulgência progressiva, mais ou menos como o de Bowie, era baseado na apropriação – até certo ponto humorística, no sentido inglês, art school e sardônico do termo – do glamour decadentista europeu, da cultura de cabaret, da releitura contemporânea da canção “torchy”, dilacerada.

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domingo, 21 de dezembro de 2003

>O STRIPTEASE

Eu e minha mulher estamos nos separando. Quer dizer, estávamos: salvou-nos o striptease dela. Não foi pra mim. Foi pruns caras aí; mal sabem eles o bem que nos fizeram. Bom, de qualquer modo eles tiraram a casquinha deles.

Eu e ela tentamos viver juntos uns tempos, e não deu muito certo. Mas mudar depois de morar junto, e dizer “vamos continuar namorando”, também não é fácil. Ficam, sei lá, umas ofensas, umas cobranças de quem foi o culpado de não ter dado certo, uma dificuldade em simplesmente zerar e seguir em frente.

Agora ela descolou um emprego e uma casa longe, em um município vizinho. Com a correria do final de ano (o trampo dela é numa loja de shopping), começamos a nos ver tipo uma vez por semana, o dia em que ela deixa o filho com a ex-sogra e vem dormir aqui em casa.

No domingo combinamos uma balada, ir à domingueira roqueira da Lôca, famosa pela pegação (hetero inclusive) e pelo clima, hum, de putaria. Já tivemos uma briga saindo de lá, porque a presença majoritariamente gay a deixa maluquinha, e ser o bedel da franga alheia é uma atividade estressante.

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domingo, 10 de agosto de 2003

>A VIDA POR UM MIO

Meu primeiro ídolo sexual foi a Jeannie, do seriado Jeannie É Um Gênio. Hoje eu me pergunto se havia alguma programação patriarcal precoce na minha preferência pela gênia paga-pau do Major Nelson.

Isso em detrimento, por exemplo, da relativamente mais independente Samantha de A Feiticeira. Que, pelo menos, não vivia dentro de um quartinho em forma de garrafa, e ainda tinha uma bruxa-mãe que punha as coisas em perspectiva.

Mas talvez fosse apenas o charme marilynesco, a um tempo intensamente sexy e docemente ingênuo, da Barbara Eden/ Jeannie, maior do que o da Elizabeth Montegomery/ Samantha. O fato é que minha segunda faísca sexual televisiva, bom, essa é inquestionável na sua fe(mi)linidade. É a Mulher-Gato, do Batman, que eu conheci na pele de Julie Newmar.

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sábado, 26 de julho de 2003

>UM A UM

O Pinguim! É isso, você estava igualzinho ao Pinguim do Batman!

Admito que a imagem me atingiu. Eu tinha resolvido apresentar um festival de música que eu dirigi vestindo smoking, pra evocar a pompa cafona dos antigos festivais da MPB. Aluguei o bagulho, pensando em subverter usando-o com um tênis All Star.

Mas, na hora em que fui experimentar o smoking alugado em casa, por alguma razão coloquei a camisa e o casaco antes de tirar a bermuda. Era uma bermuda preta de bolsos grandes, estilo mano, e, quando me olhei no espelho, estava engraçado. Botei a faixa de seda na cintura, e ficou perfeito.

Bom, acabei apresentando as quatro noites de shows vestido assim, de smoking da cintura pra cima e bermuda e All Star (preto, como manda a etiqueta) da cintura pra baixo. O festival se chamava com:tradição, então me pareceu adequado.

Tipo como disse o Eugênio, com seu sotaque caipira, quando viu as fotos da Roberta Close nua, antes da operação: “a parrrrrte de cima não óóórrrrrna com a parrrrrte de baixo”...

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sábado, 24 de maio de 2003

>EU AMO O MARIDO DA CLARAH AVERBUCK

Não, isto não é uma saída inesperada do armário. Aliás, nem sei se a Clarah chama o cara, o Marcelo, de marido. Mas o fato é que ver os dois juntos outro dia enterneceu e esquentou um coração ressequido: o meu.

Seria óbvio demais escrever um troço chamado “Eu amo a Clarah Averbuck” - só um pouco mais óbvio do que “Eu odeio a Clarah Averbuck”, que vem a ser a outra possibilidade de se relacionar com ela.

O que é que a gaúcha tem? Bom, ela escreveu um livro autobiográfico precoce, A Máquina De Pinball, que me deixou exatamente com essa dúvida - amar ou odiar - durante uns dois terços da leitura. Quando dei o braço a torcer (para o livro abusado, porque da autora abusada eu gostei instintivamente), senti que eu estava me abrindo não para uma história qualquer, nem sequer para um estilo ou para uma “proposta literária”, mas para o futuro.

O dela. O meu. O do Brasil, se é que isso existe. O da humanidade.

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sexta-feira, 23 de maio de 2003

>SENTADO À BEIRA DO ABISMO

A reação do porteiro foi um pouco lenta – provavelmente apenas aqueles dois dedinhos usuais de má vontade. Repeti a frase.

– A Dona Júlia, você sabe qual é o apartamento dela?

Acrescentei tipo uma explicação pra satisfazer a “autoridade” dele, se bem que com um toque de displicência:

– Eu já vim aqui antes... mas esqueci o número do apê.

– Quem? – o cérebro do tiozinho uniformizado estava demorando pra dar ignição. Comecei a achar ele meio tonto, mesmo. Não parecia particularmente burro nem inteligente. Nem novo demais (pra explicar a distração) nem velho demais (pra estar gagá).

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segunda-feira, 31 de março de 2003

>SEXO, DROGAS & ROCK’N’ROLL: UM OUTRO NOME PRA DEUS

O que a doidera do pop tem a ver com a luta arquetípica entre o caos e a ordem

“A música é um grande mistério. Em virtude de sua natureza sensual-espiritual e da surpreendente união que ela realiza entre a regra estrita e o sonho, a razão e a emoção, o dia e a noite, ela é sem dúvida o mais profundo, o mais fascinante e, aos olhos do filósofo, o mais inquietante dos fenômenos (...) A palavra ‘harmonia’ significa música, mas apenas secundariamente; originalmente, quer dizer matemática. Mas o mundo não é todo ele acordo e harmonia de esferas; ele possui tendências irracionais e demoníacas que os gregos não desprezavam, mas procuraram dominar e integrar em sua religião. Assim o culto de Eleusis adorava as forças obscuras do mundo inferior (...) Se o mundo é música, inversamente, a música é o reflexo do mundo, de um cosmos semeado de forças demoníacas. Música é número, a adoração do número, é álgebra ressonante. Mas a própria essência do número não conterá um elemento de mágica, um toque de feitiçaria? A música é uma teologia do número, uma arte austera e divina, mas uma arte em que todos os demônios estão interessados e que, entre todas as artes, é a mais suscetível ao demoníaco (...) E os sacerdotes e mestres da música são os iniciados, os preceptores desse ser duplo, a totalidade demoníaco-divina do mundo. É a esperança de uma humanidade que, ao invés de reprimir e portanto exasperar o irracional, aceita francamente, venera e portanto santifica essas forças demoníacas e coloca-as ao serviço da cultura”

O escritor alemão Thomas Mann, morto em 1955, não estava pensando no rock’n’roll quando escreveu este texto, chamado “A Missão Da Música No Mundo Moderno”. Mas ele serve bem pra descrever o mergulho no obscuro, nos tabus e no irracional que o rock (pelo menos quando está na sua melhor forma) propõe.

Desse ponto de vista, a tríade SEXO-DROGAS-ROCK’N’ROLL faz todo sentido. Desde as culturas milenares, as artes tântricas do sexo, os transes induzidos e a música rítmica dos rituais são caminhos conhecidos para o contato com o “outro lado”.

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segunda-feira, 10 de março de 2003

>UMA DISCOGRAFIA PARA ENTENDER A MPB

19 discos-chave na compreensão do gênero e de suas transformações
(por Bárbara Lopes e Alex Antunes)

De tempos em tempos, a imprensa publica alguma enquete sobre os melhores discos brasileiros de todos os tempos. Em geral marcadas pela subjetividade e a idiossincrasia dos votantes (e incluindo quase sempre algum álbum recente e não-referendado pelo distanciamento histórico), essas listas alternam alguns achados e alguns votos constrangedores.

O modelo aqui é diferente – são 19 discos (abaixo os números redondos!), expostos em ordem cronológica, buscando uma perspectiva histórica. E também há um recorte, ainda que amplo: traçar uma discografia de MPB.

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terça-feira, 04 de março de 2003

>KELLY KEY NÃO É O PROBLEMA, KELLY KEY É SOLUÇÃO

Pra quem não ficou sabendo ou não prestou atenção, houve uma malfadada carta de ONGs do setor da saúde pública, atacando a escolha da cantora Kelly Key como garota-propaganda da campanha de carnaval do Ministério da Saúde. O tom e o tema me lembraram um surto de intolerância cultural parecido, daquela vez contra o chamado “funk” carioca (pouco a ver com o funk propriamente dito), uns dois anos atrás.

Dizia o manifesto das ONGs, no seu trecho (pretensamente) mais contundente, que Kelly não respeita “uma visão política do mundo e suas relações de gênero”, e que defende “uma pseudoliberdade sexual, em que o homem é o oprimido e a mulher é a opressora”.

A reclamação não colou, como atestam os simpáticos outdoors com a moça, nas ruas, segurando uma camisinha e dizendo “mostre que você cresceu e agora sabe o que quer” (a campanha está na televisão e no rádio também, mas não assisti nem ouvi).

Ora, a crítica da carta era totalmente injustificável do ponto de vista das atribuições formais – como bem observou uma conhecida minha, esse é o Ministério da Saúde, ou o Ministério da Moral e Bons Costumes? E bastante estúpida do ponto de vista do marketing propriamente dito.

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sexta-feira, 31 de janeiro de 2003

>AMARELO MANGA: COR DA MISÉRIA E DA TRANSMUTAÇÃO

Finalmente um cinema nacional sem culpa

Aconteceu em setembro um inusitado seminário no Espaço Unibanco de Cinema (SP). O ponto de partida (um artigo da crítica Ivana Bentes) era explicar o sucesso de Cidade De Deus a partir de seus - supostos - defeitos. O título: Da Estética À Cosmética Da Fome.

Qualquer entusiasta generoso do cinema nacional estaria lá celebrando a bilheteria expressiva de um filme consistente e bem-realizado, antítese das Xuxas e congêneres que monopolizam a lista dos tops nacionais há décadas. Mas vários dos debatedores foram munidos de acusações como "glamurização do crime e da violência", "ritmo alienante" e "falseamento" ou "simplificação da história".

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quinta-feira, 23 de janeiro de 2003

>QUEM COM ROCK FERE, COM BREGA SERÁ FERIDO

De como a geração blasé dos 80 entregou o ouro aos bandidos

O período 1982-2002, os últimos vinte anos, correspondem precisamente à Ascensão, Queda e Ressurreição do pop brasileiro. Na comparação de livros de ótica quase antagônica, como Noites Tropicais (Nelson Motta, Objetiva) e Dias de Luta (Ricardo Alexandre, DBA), pelo menos uma coisa fica estabelecida.

É que, apesar da Jovem Guarda e de um ou outro momento iluminado (Mutantes), até a década de 80 o roqueiro brasileiro tinha “cara de bandido”, como cantou Rita Lee. Mas para explicar a explosão realmente popular da uêive brazuca (Blitz, Paralamas, RPM, Titãs etc.), é preciso retroceder um pouco.

Ninguém até então tinha conseguido responder a questão essencial colocada pela Tropicália na década anterior: QUEM COME QUEM. Fica entendido que Tropicália significa, além dos baianos oficiais (Caê, Gil, Gal), os paulistas de todos os calibres (dos roqueiros Mutantes ao erudito pero bem-humorado maestro Rogério Duprat), gênios cariocas avulsos (Jards Macalé) e até baianos não-alinhados (Tom Zé).

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sábado, 04 de janeiro de 2003

>A PUTA QUE NÃO HAVIA

(trecho do conto inédito)

Lucrécia e Natércia tinham sido Yelena e Sonia na montagem de Tio Vania, a peça do Tchekov. Tudo errado: Natércia, lindíssima mas meio cabeça-de-vento, tinha feito a idealista Sonia na peça, a personagem que era própria voz da consciência, mas feiosa, por definição do texto.

Lucrécia não era propriamente um jaburu, mas se destacava mais pela intensidade do que pela beleza física. E tinha sobrado com o papel da aristocrata sedutora e um tanto fútil, Yelena – a bela, sempre segundo o autor russo.

Acontece que o Bagrinho, um diretor de teatro inesperadamente heterossexual, andava comendo a maravilhosa Natércia, e achou porque achou que ela tinha que ser a personagem “ética” da peça, contra todo o bom senso.

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domingo, 29 de dezembro de 2002

>MEU AMIGO; JOE STRUMMER

Numa madrugada destas encontrei um chapa, o Stéfano, e fiquei aporrinhando o cara com uma questão: se ele não concordava comigo que a morte do Minho K pontuava o fim de uma era. O Stéfano não entendeu bem, e a pergunta insistente foi dormir comigo.

No dia seguinte, uma notícia inesperada: Joe Strummer, o vocalista e guitarrista do Clash, estava morto. Pra quem não sabe, o Minho K, ou Celso Pucci, jornalista (Bizz) e guitarrista (Verminose, Voluntários da Pátria, No. 2, 3 Hombres), era grande fã do Clash.

Mais do que isso. Alto, magro, sempre de botas e chapéu de caubói urbano, Minho K parecia uma espécie de filial brazuca de Strummer, com seu humor irônico, sua visão ao mesmo tempo política e apaixonada do mundo, e do rock.

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sábado, 28 de dezembro de 2002

>QUEM TEM MEDO DA MPB?

1969-2002, ou 33 anos entre a magia & o truque

É fácil, pra quem nasceu de meados da década de 60 pra cá, achar a tal da “música popular brasileira” uma merda. Afinal de contas, o status quo que o pop brasileiro se esmerou em destruir ao longo da década de 80 se parecia mesmo com uma elite (?!) pretensiosa, preguiçosa, enfadonha e ciosa apenas dos seus próprios (e injustificados) privilégios.

A geração Legião-Titãs-Lobão (para citar os mais aguerridos de então) teve com a geração Caetano-Gil (para citar os manipuladores de sempre) quase a mesma relação que os punks tiveram com o rock de arena e a disco gringos. Por falar em punk, é do Clemente (Inocentes) o manifesto que melhor sintetiza a época.

Dizia ele, em 1982: “Nossos astros de MPB estão cada vez mais velos e cansados, e os novos astros que surgem apenas repetem tudo o que já foi feito (...). Mesmo assim, eles ainda conseguem fazer o povo chorar. Não sei como, cantando a miséria do jeito que eles a vêem, do alto (...). Eles também choram de alegria, quando contam a grana que ganham. Nós, os punks (...), não damos a ninguém uma idéia de falsa liberdade”.

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sexta-feira, 27 de dezembro de 2002

>A INDECISA

(trecho do romance inédito O Resolvador De Problemas)

A Indecisa meio que virou pra trás, com aquele olhar embaçado, do mal. E, da maneira mais inesperada (pelo menos pra mim que estava ali, de caralho altaneiro, pronto pra pular todinho dentro daquelas carnes), perguntou, singela:

– Mas você sabia que a gente ia transar?

O tom tinha sido solene. Quase dava pra ver os ferros de uma ratoeira mental gigante se armando, pra então estalar como um raio no céu azul e morder. Meu pau. O bicho ameaçou dar uma amolecidinha, apesar da bunda arrebitada à minha frente.

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quinta-feira, 05 de dezembro de 2002

>FOFOS NO INFERNO

Shakespeare e a contribuição brasileira à "arte" do mal-viver

O jornalista David Brooks anotou em 2000 o surgimento de uma nova tribo urbana nos EUA, a dos “bobos” (bohemian bourgeouis), no livro Bobos in Paradise (no Brasil, Bubos no Paraíso). Um mix hippie-yuppie inesperado, os “bobos” são produto da abastança ianque, combinando uma certa correção política com a presunção usual da casa.

Pois estava eu me perguntando qual seria a contribuição do Brasil nesta era mezzo-pizza, quando tropecei com a “saúva humana”, o “gabiru atômico”, o tipo nacional que não só é gerado pela pobreza (material e intelectual) como a ela se adapta, e dela se orgulha, e faz questão de atacar e dizimar os nossos já minguados caraminguás psíquicos.

Trata-se dos FO-FOS, os FODIDOS-FOLGADOS. Da mesma forma que os bobos de bobos não têm nada, os fofos são a síntese última da truculência tupiniquim: o ex-“brasileiro cordial” com os bofes de fora, o corno virado e um dedo ameaçador na nossa cara.

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quarta-feira, 04 de dezembro de 2002

>PLAY IT AGAIN, JULIAN

Underground, mainstream, traição e outros babados

“OK, até que a excitação foi legal; a sensação de que algo estava começando a acontecer foi bem gostosa. Mas agora já chega. Está na hora de olhar mais friamente pra isso tudo e ver, do ‘renascimento do rock’, o que vale mesmo a pena. E os moleques do The Vines fornecem uma boa desculpa pra que se faça esse momento de reflexão. Porque quando eles apareceram, há alguns meses, foi fácil demais pra imprensa bater o martelo: eles são uma mistura de Beatles (ou Oasis) e Nirvana (...) Se os Strokes já não traziam inovação em sua sonoridade, há cada vez menos novidade nos álbuns que têm saído desde então. É certo que o rock vive de reciclagem há décadas e que dentro dele não cabem muitas variações, mas será pedir demais querer um pouco de originalidade? Para o Vines, é sim pedir muito”
Juliana Zambelo no blog Pocketbook, postado em 28/09/02

“O Nirvana acabou em 1994, certo? Certo! A jovem banda australiana The Vines (...), badalado destaque desta inspirada renovação roqueira, é o novo Nirvana, certo? Errado! Se a alma de Kurt Cobain ainda vaga por acordes de guitarra, esses saem dos instrumentos da banda americana Queens of the Stone Age”
Lúcio Ribeiro na Folha Ilustrada, em 11/10/02

Dizem os sinais de fumaça que estamos à beira de um novo surto planetário de rock’n’roll, puxado pelos Strokes e seguido, bem, seguido por algumas dezenas de bandas “badaladas”, “imperdíveis”, “seminais” (?!), “instigantes”, e os adjetivos despropositados de costume.

Parto de duas frases, pinçadas um tanto aleatoriamente de um blog e do caderno cultural um grande jornal, para listar uma série de questões que elas suscitam:

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