Shakespeare e a contribuição brasileira à "arte" do mal-viver
O jornalista David Brooks anotou em 2000 o surgimento de uma nova tribo urbana nos EUA, a dos “bobos” (bohemian bourgeouis), no livro Bobos in Paradise (no Brasil, Bubos no Paraíso). Um mix hippie-yuppie inesperado, os “bobos” são produto da abastança ianque, combinando uma certa correção política com a presunção usual da casa.
Pois estava eu me perguntando qual seria a contribuição do Brasil nesta era mezzo-pizza, quando tropecei com a “saúva humana”, o “gabiru atômico”, o tipo nacional que não só é gerado pela pobreza (material e intelectual) como a ela se adapta, e dela se orgulha, e faz questão de atacar e dizimar os nossos já minguados caraminguás psíquicos.
Trata-se dos FO-FOS, os FODIDOS-FOLGADOS. Da mesma forma que os bobos de bobos não têm nada, os fofos são a síntese última da truculência tupiniquim: o ex-“brasileiro cordial” com os bofes de fora, o corno virado e um dedo ameaçador na nossa cara.
Sabe quando o ônibus em que você está pára bem no meio de uma rua estreita enquanto o motorista troca gritos amistosos com o colega que vem na outra mão, imobilizando o trânsito dos dois sentidos – o que acorda o cobrador, que entretanto dormia com os pés para cima num banco mais ou menos próximo da catraca travada; e você imaginando se podia acordá-lo ou não?
Ou quando você não consegue se concentrar no filme porque no saguão do cinema o porteiro dirige gracejos sexuais em altos brados à bilheteira? Ou quando na calçada de um único quarteirão três ou quatro vendedores de CDs piratas disputam para ver quem consegue tocar mais alto e mais distorcido os sucessos do forró-de-teclado ou do breganejo?
E aí você até se pergunta se a saudável destruição da indústria fonográfica pela pirataria não merece um pouco da sua paciência – mas a resposta é “não”. Os fofos estão sempre muitos decibéis acima do suportável, sempre vários pontos além da escala mais flexível de tolerância, seja você o socialista mais sincero ou o populista mais hipócrita.
O problema é que o fofos gostam do que são, gostam da vida que levam. Os fofos adoram parar o trânsito. Eles nos acham esquisitos: como é que alguém pode não se divertir com o programa do Ratinho? Porque é que alguém teria uma discussão mais complexa do que desta-vez-nós-ferramos-vocês, “nós” e “vocês” entendidos como dois times de futebol?
Porque é que alguém pagaria mais do que R$ 0,50 para comer e beber algo diferente da “esfirra” de fragmentos de inseto com pêlos de rato e o suco de cloro da lixonete? Meu Deus, como é que alguém pode não gostar da bunda da Scheila Carvalho?! Ou do pagode-de-corno do romântico Belo, ou do forrozinho sacana do Calcinha Preta?
Os fofos dirigem lotações ilegais arrojadamente, e às vezes matam todos os tiozinhos e tiazinhas que estão dentro delas porque são perseguidos por algum comando implicante. Os fofos atravancam as calçadas com centenas de barraquinhas de porcaria, e ficam “revoltados” com os fofos do rapa que vão lá apreender a muamba.
Os fofos pilotam motos em decomposição pelo “corredor”, um conceito exótico criado para justificar o estado de ultrapassagem constante, onde eles negociam as próprias pernas contra os retrovisores esnobes dos importados. Sempre tem uma ambulância vindo buscar um fofo esmagado.
O fofo seria um playboy, se não fosse um boy sem grana pra play.Os fofos gostam de camisetas falsas do Bad Boy (tem até umas em que o desenhista-copista se enganou, e transformou o esgar antipático da boca do personagem num cigarro!); e de buzinas que dizem “sai da frente” ou “cachorra” ou que dão relinchos.
Na verdade os fofos gostam de qualquer coisa que faça (muito) barulho, de escapamento aberto à musiquinha do gás (clandestino) ao pregão do açougue malcheiroso. Eu não entendia o porquê disso até um taxista me contar o caso de um conhecido dele que adaptou uma buzina de caminhão na Brasília velha, com um de extintor de incêndio cheio de ar para acioná-la.
A autonomia do dispositivo era de duas ou três buzinadas na descida da rua Augusta – e aí ele tinha que dar a volta no quarteirão e ir até o posto de gasolina para calibrar o extintor de novo, buzinar mais duas vezes, e assim por diante, num ciclo absurdo.
É que os fofos querem dizer algo alto-e-bom-som, mas simplesmente não tem nada a dizer. Shakespeare estava pensando nos fofos quando disse que a vida é “uma história contada por um idiota, cheio de som e fúria, e que não significa nada”.
Noutro dia chuvoso, um fofo se postou bem no topo de uma escada-rolante do metrô, e quase desequilibrava as pessoas que tentavam sair da escada, enfiando seus guarda-chuvas descartáveis no peito delas.
Eu disse: “você está no lugar errado”. Ele respondeu: “você preferia que eu estivesse assaltando?”, a resposta-padrão do fofo chantagista. Eu disse: “você não tem coragem, é só por isso você não assalta”.
O fofo é um escravo que aprendeu com o dono a ser abusado – mas sem aprender a ser senhor de nada, nem da sua própria vida.
Publicado por allxsexs às dezembro 5, 2002 01:06 PM