dezembro 27, 2002

>A INDECISA

(trecho do romance inédito O Resolvador De Problemas)

A Indecisa meio que virou pra trás, com aquele olhar embaçado, do mal. E, da maneira mais inesperada (pelo menos pra mim que estava ali, de caralho altaneiro, pronto pra pular todinho dentro daquelas carnes), perguntou, singela:

– Mas você sabia que a gente ia transar?

O tom tinha sido solene. Quase dava pra ver os ferros de uma ratoeira mental gigante se armando, pra então estalar como um raio no céu azul e morder. Meu pau. O bicho ameaçou dar uma amolecidinha, apesar da bunda arrebitada à minha frente.

A mulher estava simplesmente arreganhada, deitada por cima do braço do sofazão bacana, com o rabo pra cima, a calcinha de oncinha escorregando pra baixo pelas coxas brancas e gordinhas, la sonrisa vertical babando pra mim. Notei os pentelhinhos aparados dos lados.

E aí, em vez do “mifodji” regulamentar, ela me vinha com essa?! Meu cérebro girou rápido, negociando com a corrente sanguínea uma prorrogação estratégica. Pra quê isso, meu santo Príapo?

– Como assim?

– Você achou que eu vinha aqui e a gente ia simplesmente transar, sem mais nem menos?

Corta pra duas ou três noites antes. Nos conhecemos em uma mesa de jantar do Sujinho, vulgo Das Putas, apresentados por um amigo comum. A simpatia foi instantânea, e o papo foi safado. Convidei ela pra almoçar (pra almoçá-la, digo) no sábado.

Ela veio, trucidamos um frango ali do lado, viemos tomar uma sambuca no meu apê (aquela parada de acender o drink com um grão de café dentro, coisa e tal, aliás não posso esquecer de produzir mais uns grãos frescos com o japonês da lanchonete aí embaixo. Faz mó efeito), rolou um agarro regulamentar, virei ela no jeito, passei o cartão de correntista e...

– É importante pra mim saber. Você achou que ia me comer?

Como “ia” comer? Pelamordedeus. Se não, o que é que eu ia fazer com toda essa encomenda de leite? Ia subir tudo pra mente, talhar no meu raciocínio. Será que ela me deixava pelo menos bater uma punhetinha com modelo vivo? Engatei um lance sincero.

– Achava, sei lá. A gente se deu bem, foi tudo tão espontâneo...

– É que é importante que você saiba que eu não sou assim... vulgar...

Assim vulgar como, filhinha? Esse cu pra cima não é o seu? Pensei isso mas disse outra coisa, mais diplomática.

– Eu acho que quando duas pessoas se encontram, se entendem, se atraem, e uma simplesmente fica com vontade de mergulhar na outra, isso tem, sei lá, poesia...
VAGABUNDA DO CACETE! É ÓBVIO QUE VOCÊ VEIO AQUI PRA EU TE FODER!

– ...digo, tem situações em que não existe uma regra, o que vale é a intuição né, é como se a gente já se conhecesse há tanto tempo... Você também não disse que sente isso em relação a mim?...
SENTA NESSE TROÇO E NÃO ME ATRASA O EXPEDIENTE, Ô HISTÉRICA!

– ...as pessoas hoje vivem como estranhas, é tão raro a gente se sentir assim, verdadeiro, inteiro com alguém... Essa é uma magia delicada, que a gente não deve deixar escapar...

Enquanto eu falava eu balançava de leve os quadris, roçando a benga na bundinha dela, tocando nas imediações da várzea (onde batem as bolas), uma espécie de pêndulo de hipnotizador. Ela pareceu relaxar. Apontei o resolvedor do problema, e...

– Então me bate.

– Hã? – meus ouvidos não queriam acreditar.

– ME BATE COM FORÇA, NA CARA.

Desencaixei o bagulho, e me arrastei até o aparelho de som, quase trincando os dentes. Bryan Ferry era o que eu precisava pra chorar logo de uma vez. “Slave To Love”.

– Sai, por favor. Eu não tou me sentindo bem – não é que eu estava chorando mesmo?! Eu até podia encher ela de porrada, mas não ia ser a preliminar de foda nenhuma.

Ela olhou pras duas lágrimas que brilharam nos meus olhos, absurdada, e pro meu pau tristão – que também largou uma pequena lágrima. Subiu a pele de oncinha, baixou a microssaia, pegou a bolsa e foi saindo mesmo, como se o esquisito fosse eu.

Pra que catzo é que o macaco foi aprender a falar?!
(publicado na Zero 4, dezembro, e republicado, corrigido e ampliado, no blog Elas Por Elas)

Publicado por allxsexs às dezembro 27, 2002 08:47 PM
Comentários