dezembro 28, 2002

>QUEM TEM MEDO DA MPB?

1969-2002, ou 33 anos entre a magia & o truque

É fácil, pra quem nasceu de meados da década de 60 pra cá, achar a tal da “música popular brasileira” uma merda. Afinal de contas, o status quo que o pop brasileiro se esmerou em destruir ao longo da década de 80 se parecia mesmo com uma elite (?!) pretensiosa, preguiçosa, enfadonha e ciosa apenas dos seus próprios (e injustificados) privilégios.

A geração Legião-Titãs-Lobão (para citar os mais aguerridos de então) teve com a geração Caetano-Gil (para citar os manipuladores de sempre) quase a mesma relação que os punks tiveram com o rock de arena e a disco gringos. Por falar em punk, é do Clemente (Inocentes) o manifesto que melhor sintetiza a época.

Dizia ele, em 1982: “Nossos astros de MPB estão cada vez mais velos e cansados, e os novos astros que surgem apenas repetem tudo o que já foi feito (...). Mesmo assim, eles ainda conseguem fazer o povo chorar. Não sei como, cantando a miséria do jeito que eles a vêem, do alto (...). Eles também choram de alegria, quando contam a grana que ganham. Nós, os punks (...), não damos a ninguém uma idéia de falsa liberdade”.

E concluía: “Procuramos algo que a MPB já não tem mais e que ficou perdido nos antigos festivais da Record (grifo meu) e que nunca poderá ser revivido por nenhuma produção da Rede Globo de Televisão. Nós estamos aqui para revolucionar a música popular brasileira, para dizer a verdade sem disfarces (e não tornar bela a imunda realidade): para pintar de negro a asa branca, atrasar o trem das onze, pisar sobre as flores do Geraldo Vandré e fazer da Amélia uma mulher qualquer”.

Algumas observações: a) é curioso notar que ele falava em revolucionar a música brasileira (e não ignorá-la), embutindo referências provocativas a Luiz Gonzaga, Adoniran Barbosa, Geraldo Vandré e Ataulfo Alves; b) Clemente reconhecia misteriosas qualidades na MPB que ficaram perdidas em algum momento entre o final da década de 60 e o começo da de 70 (quando o poderio platinado da Globo enterrou o jeitão mais “doméstico” da Record, Tupi, Excelsior e Bandeirantes). Vindas de um punk, essas considerações devem ser tomadas a sério.

Abres-se o fosso
Como sabemos a posteriori, os punks não revolucionaram a MPB. Seus epígonos da uêive tiveram uma fase boa, mas igual e rapidamente se acomodaram. (Umas poucas bandas dessa época se ocuparam em reivindicar algum tipo de tradição – e não de simplesmente “zerarem” a história. Dá para citar o tecnosamba do Fellini; os Picassos Falsos e o Black Future, nos admiráveis e respectivos álbuns Supercarioca e Eu Sou o Rio, ambos 88; e circunstancialmente o DeFalla homenageando Tim Maia, o Camisa de Vênus fazendo o mesmo com Raul Seixas e Walter Franco.)

Os “poetas pop” com alguma consistência (Renato Russo, Cazuza) bateram as botas. O popularesco romântico-pornô (breganejo, axé, pagode) afinal dominou as mídias. E os roqueiros brasileiros – como os eletrônicos, outro subproduto dos anos 80 – acabaram constituindo clubinhos herméticos e defensivos, de onde a língua portuguesa desapareceu, substituída pelo inglês, ou por linguagem verbal nenhuma.

À exceção do brilho fugaz do manguebeat de Chico Science, o pop brasileiro dos anos 90 foi de uma bobeira atroz (me desculpem os eventuais fãs de Skank, Pato Fu, Raimundos, Jota Quest e quetais), como a MPB do fim dos anos 70 já tinha sido. A única “noventista” que parecia ter algum sangue nas veias, Cássia Eller, era na verdade um anacronismo, uma criatura dos anos 80 em permanência, e foi se juntar aos seus iguais no além. (Os emepebistas mais propriamente ditos, tipo Chico César e Zeca Baleiro, ficam para daqui a pouco.)

A pior notícia é que a Grande Fase da música brasileira quase desapareceu da memória nacional – aquela fase que até o punk Clemente sabia que tinha existido, e que pode ser descrita como um enorme caldeirão borbulhante onde elementos do samba, da black music e do rock psicodélico (com um ou outro temperinho adicional) interagiram em uma opulenta feijoada pós-tropicalista.

Foi eclipsada por essas sucessivas fases incertas e contraditórias, pelo descaso das grandes gravadoras com seus catálogos bacanas, pelo imediatismo das rádios e televisões, e todas as mazelas e tosqueiras da cultura nacional das quais é até tedioso falar. Atingidos naquele ponto delicado que fica entre a criatividade, o ego e o bolso, mesmo os bons artistas sucumbiram à pasmaceira geral.

Nesse sentido, hoje fica mais fácil explicar para as crianças a trajetória de quem morreu injustiçado (Tim, Raul, Taiguara, Sérgio Sampaio), desapareceu inexplicavelmente (Hyldon, Cassiano, Gerson King Combo, Walter Franco, Macalé, Mautner) ou pirou (Arnaldo Baptista), do que tentar convencer alguém que Papai Noel existe, i.e., que Roberto Carlos, Ivan Lins e Caetano Veloso já foram caras legais e renovadores...

A lombra da imaginação
Mas foram. Num papo com o Luiz Calanca, da Baratos Afins, falávamos daqueles anos loucos (69-73) em que mesmo figuras pouco inspiradas compunham e tocavam coisas surpreendentes. Era como se eles fossem levados por uma lombra criativa, ou um flash back coletivo - aliás, lembrando Robert Fripp, “a música toca o músico”, e não o contrário... (Mencionei essa lombra fabulosa para o grande Fritz Escovão, do Trio Mocotó, e ele riu bastante, com a cara de quem estava pensando em alguém específico.)

De resto, 74-78 ainda renderam algum caldo, principalmente na vertente mais black/soul. E a nossa triste história da MPB terminaria por aqui mesmo – MPB entendida como um feeling de ajustar letra, melodia, harmonia, arranjo, interpretação... Aquela coisa maluca, às vezes tensa, às vezes melancólica, às vezes irônica, às vezes engraçada – mas sempre tão intensa. Um certo blend de sentimento com inteligência formal...

...Que está ao mesmo tempo na “Construção” do Chico Buarque, no “Sinal Fechado” do Paulinho da Viola, em “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua” do Sérgio Sampaio, em “O Telefone Tocou Novamente” do Jorge Ben, no “Expresso 2222” do Gil, em “Um Girassol do Cor dos Seus Cabelos” do Lô Borges, em “Me Deixe Mudo” do Walter Franco, na “Pérola Negra” do Luiz Melodia, na “Baby” da Gal, em “San Vicente” do Milton, no “Mustang Cor de Sangue” do Marcos Valle, no “Maracatu Atômico” do Jorge Mautner, e nos Mutantes, e nos Novos Baianos, na Maria Alcina, no Erasmo Carlos, em tantos outros.

Certamente não era uma técnica apenas, era um zeitgeist, um espírito da época. Ou então os esforços continuados de gente como Chico César, Zeca Baleiro, Marisa Monte (e seus bizarros escudeiros, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes), Lenine (o que chegou mais perto de conseguir) não esbarrariam numa espécie de “vazio de credibilidade”, que os descredencia diante de qualquer ouvinte não-iniciado no truque.

Talvez a questão seja que o pop/rock tende a substituir forma por conteúdo – a “atitude” se sobrepondo ao “fazer artístico”, para o bem e para o mal. Então, essa forma vazia, no entender da indústria cultural, pode igualmente ser preenchida por Roberto Carlos, em um (bom e renovador) momento (a Jovem Guarda), ou por Zezé di Camargo e Luciano, em outro (mau e conservador). E os “conteudistas” ficam à parte, do outro lado da fronteira do bom-gosto, num modelo reverso – e igualmente vazio.

Conversando com Max de Castro, ele me dizia (a propósito de elogiar seu parceiro na música “Linha do Tempo”) que um dia “vai cair a ficha e as pessoas vão perceber que Fred 04 é um grande compositor de MPB”. Taí, até que ponto a percepção do líder do mundo livre s/a como “roqueiro” (atitude) não tem sido prejudicial ao seu reconhecimento como “compositor” (arte)?

Ou, indo mais longe, quem é que ainda estaria interessado em arte?! Os fãs do Arnaldo Antunes? Chiça... Um mundo polarizado entre Zezé di Camargo e Arnaldo Antunes – desde o fim da guerra fria que não se via nada tão soturno.

Salvos!
Essa dicotomia intragável, no entanto, tem se resolvido nas mentes (e corações) de uma geração que simplesmente a ignora. Começou com uns sinais tênues a partir de quatro ou cinco anos pra cá. Nas próprias tentativas do mundo livre e de Max de Castro; nos primeiros álbuns de Rebeca Matta – definido como trip-MPB-hop –, e do Otto – samba cum techno; no primeiro pacote do selo YB, com Andrea Marquee e Rica Amabis, mais sambista a primeira e mais eletrônico o segundo.

E de repente, de dois anos pra cá, a boa notícia: o bicho emepebístico pegou de novo. Em seus novos álbuns, em graus variados de mistura mas sempre altos de acerto, Wado (Alagoas), Stela Campos, Fernanda Porto e Patricia Marx (SP), Rebeca Matta e Moisés Santana (Bahia), Otto e DJ Dolores (Pernambuco), Totonho & os Cabra (Paraíba), Cidadão Instigado (Ceará), Stereo Maracanã e Maurício Negão (Rio) redescobrem a magia – ou foram redescobertos por ela.

Elza Soares e Trio Mocotó ressurgem do ostracismo em plena forma pop. Artistas de gêneros mais ou menos estanques, como o hip hop, o reggae e a eletrônica, dão mostras de também fazerem parte dessa movida. Respectivamente: as experiências MrapB do Instituto com Sabotage, Z’África Brasil e Happin’ Hood; a produção de Antonio Pinto para o incrível tiozinho-revelação Adão Dãxalebaradã; e projetos interessantes como o Bojo, o Mugomango e o Superágua.

Temos até exemplos negativos-reativos, de gente da “aristocracia” que não quer perder o pescoço: Marisa Monte inventando o tal de tribalismo com Brown e Antunes; Caetano indo buscar Mautner na geladeira para um álbum sintomaticamente chamado Não Peço Desculpa, em que Mautner É a desculpa... (ao contrário de Tom Zé, Mautner aceitou o desterro a que a nomenklatura tropicalista o enviou, enquanto flertava com o axé ou coisa parecida).

Só quem está quieto desta vez é o Gilberto Gil, que em outros momentos de efervescência tinha saído rápida e oportunisticamente gritando “sou o punk da periferia”, ou “montar meu web site”... Aliás, não deve ser à toa que dois baianos, que não são o Gil e o Caetano (são Rebeca Matta e Moisés Santana), aparecem nesta edição do B*Scene, respectivamente em matérias da Katia e da Babi. Se o assunto despertar interesse, na próxima edição publicamos uma discografia de ontem e de hoje, comentada.

*Nem tão quieto assim: poucas semanas depois da publicação deste texto, Gil foi indicado Ministro da Cultura no governo Lula!
(publicado na edição de dezembro do B*Scene, parcialmente reproduzido no Trabalho Sujo)

Publicado por allxsexs às dezembro 28, 2002 12:17 PM
Comentários

É, meu xará Alex, a Música Popular Brasileira passa por uma crise tão violenta que sua situação hoje é humilhante. Caetano Veloso, outrora o líder da MPB, se limita a ser um vassalo de Zezé Di Camargo & Luciano. Nando Reis se rendeu aos bregas. Outros se rendendo a Sidney Magal, Gretchen e até ao chamado "funk carioca". Sullivan & Massadas agora são "clássicos". Ficou mais complicado criticar Sandy & Júnior do que falar mal de Jesus Cristo. É O Tchan continua sendo tocado para crianças inocentes por pais mais ingênuos ainda. A "Egüinha Pocotó" saiu da retaguarda do repertório das piores rádios e entrou no Tim Festival pela porta da frente. A impressão que se tem é que o Brasil hoje vive uma promiscuidade cultural. E quem pensa que essa tradição brega/popularesca é como pensa o Paulo César Araújo, "inimiga" da ditadura, é bom deixar claro que se o brega fosse mesmo hostil à ditadura, ele teria sido banido pelas rádios. E as rádios mais atreladas à ditadura foram as que mais tocaram a hoje "inovadora" música brega. Sem falar que o "petista" Zezé Di Camargo só é o que ele é hoje por causa do seu padrinho Fernando Collor de Mello.

Publicado por: Alexandre Figueiredo às junho 5, 2005 02:28 PM