Numa madrugada destas encontrei um chapa, o Stéfano, e fiquei aporrinhando o cara com uma questão: se ele não concordava comigo que a morte do Minho K pontuava o fim de uma era. O Stéfano não entendeu bem, e a pergunta insistente foi dormir comigo.
No dia seguinte, uma notícia inesperada: Joe Strummer, o vocalista e guitarrista do Clash, estava morto. Pra quem não sabe, o Minho K, ou Celso Pucci, jornalista (Bizz) e guitarrista (Verminose, Voluntários da Pátria, No. 2, 3 Hombres), era grande fã do Clash.
Mais do que isso. Alto, magro, sempre de botas e chapéu de caubói urbano, Minho K parecia uma espécie de filial brazuca de Strummer, com seu humor irônico, sua visão ao mesmo tempo política e apaixonada do mundo, e do rock.
Nos anos 80, sob a influência direta do pós-punk mais politizado (Stranglers, Gang of Four, U2, e o Clash acima de tudo), militamos – esse é o termo – em uma cena que sacudiu o underground paulistano. Mas, ao contrário da cena inglesa, não encontramos nosso lugar ao sol, ou à chuva. Poucos registros ficaram.
Quem fez parte daquilo, ou acompanhou de perto aquele período intenso sabe, no entanto, que também aqui as coisas aconteceram, e aconteceram de fato. Nossas letras (em português) expressavam o mesmo inconformismo esclarecido, movidas a guitarradas vigorosas.
São Paulo ouviu a chamada londrina, mas a resposta entusiástica se perdeu entre as modorrentas reverberações tropicais. Por acaso ou não, muita gente da cena paulistana, como que magnetizada pelo velho continente, foi curtir do outro lado do oceano a ressaca da nossa tentativa paradoxal, tão intensa e tão ignorada.
Minho K foi dos que ficaram e, entre uma canção e outra, um artigo e outro, viu aquele momento explosivo se perder no tempo. No começo deste ano, em uma certa manhã de sábado de março, recebi um telefonema da mulher dele: “Corre pra cá, eu acho que o Minho K está morrendo”.
Cheguei ao edifício Copan no momento que os paramédicos saiam. “Foi óbito, vocês têm que procurar o médico dele na Santa Casa”. Era onde o Minho K estava se tratando de um câncer na boca, depois de ter baixado no mesmo PS incontáveis vezes por conta das suas crises de diabetes.
Entre a espera da família dele (que mora no interior), a visita à Santa Casa (cujos médicos, apesar do histórico do paciente, não podiam dar o atestado de óbito sem ver o corpo) e a duas delegacias, vimos as horas se passarem, e o corpo do Minho K começar a se enrijecer na cama onde tinha morrido.
Num certo momento decidimos levar o Minho K para a Santa Casa, e simplificar o processo. Botamos nele as calças apertadas, as botas, e olhamos para o chapéu indefectível – aquilo pareceu recuperar nossa capacidade de agir.
Após uma negociação surrealista com o zelador, descemos o Minho K até a garagem onde um carro nos esperava, numa sequência hilariantemente parecida com as do defunto no elevador no filme Sábado, de Ugo Giorgetti.
O elevador foi parando em vários andares, e, a cada vez que a porta se abria, nos preparávamos para o susto de quem desse de cara com três fulanos abraçando um cadáver em pé... Mas ninguém apareceu.
Sem outros sobressaltos, sentamos o Minho K no banco ao lado do motorista, e lá fomos nós, eu no banco traseiro, abraçando os ombros dele pra que ele não escorregasse... Não, não é verdade que fincamos um cigarro nos seus lábios lívidos.
Os atendentes da Santa Casa se surpreenderam, mas não reclamaram – afinal, um deles é que tinha aconselhado, horas antes: “Quando alguém morrer em casa, enfie o corpo no carro e diga que morreu a caminho do hospital”. O Minho K evidentemente não tinha morrido no caminho – a menos que estivéssemos vindo de muito longe. Mesmo assim, ninguém disse nada. Levaram o corpo pra dentro.
Na manhã seguinte, contei essa história no velório, ao pé do caixão, e fiz as pessoas rirem. Rirem muito, de virem lágrimas aos olhos... Ninguém nunca mais iria nos roubar o sentido da palavra “irreverência”, tão deturpada pelos babacas do rock playboy e engraçadinho.
Aquelas pessoas se despediram do Minho K da forma adequada, gargalhando com a história do defunto passeando de carro, e de outras, como a de outro chapéu de caubói que tinha aparecido no meio da rua, perto do cemitério. Como certamente ele mesmo teria gargalhado, com seu senso de humor irresistível sempre pronto para pular à frente das angústias, e dos problemas recorrentes.
Muitas dezenas de amigos foram ao enterro. E tenho certeza de que quase todos, ao chegarem em casa, colocaram um CD ou um vinil velho para tocar. Certamente alguém ouviu Joy Division; eu mesmo preferi um sardônico Leonard Cohen – ou será que foi um melancólico Nick Drake?
Mas algo me diz que foram maioria absoluta os exemplares de London Calling, Sandinista! e Combat Rock que rolaram naquela tarde ensolarada de domingo. O primeiro réveillon sem Minho K também é o primeiro réveillon sem Joe Strummer.
Stéfano, meu caro, certamente isto encerra uma época.
(publicado no site Fraude e no do Tognolli, reproduzido no telescOpica , no blog Discoteca Básica e na edição de janeiro da Dynamite)
Fiquei muito triste qdo soube que o Pucci tinha morrido. Comprei o o vinil dos 3 Hombres esse ano e achei sensacional.
Publicado por: Roberto às janeiro 3, 2005 10:28 AMtocante a sua homenagem a celso pucci. não sei se é correto dizer "homenagem" já que vocês eram tão amigos, mas se você quer saber, pelo menos na minha opinião, a morte de joe strummer encerra sim uma era.