(trecho do conto inédito)
Lucrécia e Natércia tinham sido Yelena e Sonia na montagem de Tio Vania, a peça do Tchekov. Tudo errado: Natércia, lindíssima mas meio cabeça-de-vento, tinha feito a idealista Sonia na peça, a personagem que era própria voz da consciência, mas feiosa, por definição do texto.
Lucrécia não era propriamente um jaburu, mas se destacava mais pela intensidade do que pela beleza física. E tinha sobrado com o papel da aristocrata sedutora e um tanto fútil, Yelena – a bela, sempre segundo o autor russo.
Acontece que o Bagrinho, um diretor de teatro inesperadamente heterossexual, andava comendo a maravilhosa Natércia, e achou porque achou que ela tinha que ser a personagem “ética” da peça, contra todo o bom senso.
Bagrinho prestou um desserviço para ambas, para si mesmo, e para o Tchekov, porque, a partir desse engano moralista e nepotista, nada funcionou como deveria.
A obra centenária de Tchekov tinha passado por um súbito surto de reavaliação na virada do milênio. Talvez porque a elite decadente continue fazendo basicamente as mesmas merdas, em que pesem o século, o continente e o hemisfério diferentes.
E então virou quase consenso que, da meia dúzia de Tios Vanias que pipocaram mais ou menos na mesma época entre São Paulo e Rio, a montagem dirigida pelo Bagrinho era a pior.
Pra complicar, Bagrinho, bêbado depois da última encenação de uma temporada curta, e eufórico com o fim do equívoco, tentou comer a Lucrécia no banheiro da cantina onde o elenco foi se despedir.
E isso quando todo mundo sabia que ela estava de caso firme com Boris, o tradutor – um bissexual que, na verdade, era de todos da equipe quem mais queria dar para o diretor.
Boris tinha levantado o olhar do spaguetti alla rabbiatta fumegante do Piolim para dar de cara com o batom borrado de Lucrécia, que subia a escada interna do restaurante meio sem-graça. Natércia, do outro lado da mesa, olhou para Boris, dele para Lucrécia, e para o Bagrinho de expressão fissurada que vinha babando atrás, e morreu de raiva.
As rivalidades foram aí detonadas, pelos pinos certos nos buracos errados, sendo “pino” o eufemismo escolhido por Boris para definir o famoso e enorme pau do diretor. Cujo apelido aliás era originalmente Bagrinho-de-um-olho-só, referindo-se à parte e não ao todo.
E elas – as rivalidades – ainda iam ficar ricocheteando um tempo. Mas nada tão inesperado como no Caso da Puta Que Não Havia.
Aconteceu que Lucrécia andava cismada com a composição de seu novo personagem. Uma prostituta supostamente complexa, ao modo da Geni de Nelson Rodrigues em Toda Nudez Será Castigada. Supostamente.
Na verdade era uma bobagem escrita por Beto Baco, o dramaturgo-revelação. Basicamente um desabafo misógino disfarçado de especulação metafísica sobre o simbolismo do coito anal. Mas, apesar das platitudes do entrecho, Lucrécia achava que esse seria um momento importante na sua carreira ascendente.
Ou Beto Baco não havia sido descrito uma vez como o “Zé Celso para o próximo século”, pela Folha? Pelo menos um monte de gente pelada correndo de um lado para o outro durante três ou quatro horas as peças dele tinham.
Borba, o cenógrafo cafajeste, era um conhecido freqüentador dos serviços das “primas”, e Lucrécia apelou para a expertise dele, quando o encontrou numa estréia.
– Borbinha, onde eu vou se eu quiser fazer um programa?
– Cê está falando do quê? Televisão?
– De putaria, Borba. Foder por dinheiro. Michê.
– Tás a perigo, doçura? Pagar pra quê?! Eu mesmo te como sem o menor problema...
– Não quero pagar, eu quero receber.
Borba olhou pra ela espantado. A grana deles andava curta depois da temporada flopada do Tio Vania, mas nem tanto assim...
– Laboratório, burro – ela explicou. – Pra ver como é que é.
– Porra, filha, eu insisto em eu mesmo te mostrar...
– Não com você, caralho. Eu quero ver como é dar para um estranho...
Borba olhou para ela, pensando nos vários fins de festa em que, contra toda a insistência pegajosa dele, Lucrécia teimava em acabar a noite nos braços de algum mané bonitinho e desconhecido, que surgia de repente do nada...
– ... por grana – ela completou, antes que ele dissesse algo desagradável. Borba pensou um pouquinho.
– Você quer parar numa esquina, rodar a bolsinha, e sair com um cara, e trepar, e receber, como laboratório? Você sabe que pra isso tem todo um know-how? Não é fácil assim...
– E o que é que uma puta faz que eu não sei fazer?! Foder na orelhinha? Me poupe...
Borba adotou um tom professoral, meio ridículo para o assunto.
– Tem um roteiro, menina. Uma “liturgia”, como diria o Sarney. Um cliente espera, por exemplo, que você comece chupando o pau dele – a menos que ele peça especificamente outra coisa. Tem a hora e o jeito de por a camisinha, com a boca, no começo da chupada. Tem que cobrar antes, e combinar se tem cuzinho na parada, ou não. Tem... Sei lá, tem o teu acerto prévio com o hotel, uns até dão uma porcentagem para a garota, sabia? Tem... Pomada. Você sabe se puta bota lubrificante antes de sair? Porque não dá para ficar entuchando o KY na frente do freguês... Aliás esse é um dos truques das putas, que gostam de deixar os caras pensando que elas tão molhadinhas por eles... Você vai dar um vexame, se não souber exatamente o que fazer na hora em que o teu “cliente” aparecer.
Lucrécia não tinha pensado nisso, mas devia ser verdade. Imaginou a si mesma na piada da menina que sai para fazer seu primeiro programa, e fica chorando e se lamentando com o pau do crioulo na mão – pinto grande em piada sempre tem um negão atrás. “Minha filha, isso aí é preto mas não é telefone”.
(publicado no blog Elas Por Elas)