janeiro 23, 2003

>QUEM COM ROCK FERE, COM BREGA SERÁ FERIDO

De como a geração blasé dos 80 entregou o ouro aos bandidos

O período 1982-2002, os últimos vinte anos, correspondem precisamente à Ascensão, Queda e Ressurreição do pop brasileiro. Na comparação de livros de ótica quase antagônica, como Noites Tropicais (Nelson Motta, Objetiva) e Dias de Luta (Ricardo Alexandre, DBA), pelo menos uma coisa fica estabelecida.

É que, apesar da Jovem Guarda e de um ou outro momento iluminado (Mutantes), até a década de 80 o roqueiro brasileiro tinha “cara de bandido”, como cantou Rita Lee. Mas para explicar a explosão realmente popular da uêive brazuca (Blitz, Paralamas, RPM, Titãs etc.), é preciso retroceder um pouco.

Ninguém até então tinha conseguido responder a questão essencial colocada pela Tropicália na década anterior: QUEM COME QUEM. Fica entendido que Tropicália significa, além dos baianos oficiais (Caê, Gil, Gal), os paulistas de todos os calibres (dos roqueiros Mutantes ao erudito pero bem-humorado maestro Rogério Duprat), gênios cariocas avulsos (Jards Macalé) e até baianos não-alinhados (Tom Zé).

E o “quem come quem”, claro, diz respeito ao que prevaleceria na queda de braço entre as tortuosas “raízes” nacionais e as fórmulas diretas do pop mundial. Com uma ajudazinha da ditadura militar (censura e perseguições em vários níveis), algumas brilhantes tentativas de juntar alhos com caralhos, como as de Raul Seixas e dos Novos Baianos, não desencantaram a cena.

Numa espécie de golpe de estado (estético) desencadeado em 76, na turnê Doces Bárbaros, os baianos “oficiais” estabeleceram o mito de que era João Gilberto no céu e eles mesmos na terra, e pronto, as pontes estavam queimadas.

Tropicália usurpada, MPB devastada
“Nós estamos aqui para revolucionar a música popular brasileira (...): para pintar de negro a asa branca, atrasar o trem das onze, pisar sobre as flores de Geraldo Vandré e fazer da Amélia uma mulher qualquer”. O furibundo manifesto escrito por Clemente, dos Inocentes, foi publicado precisamente em 1982.

E descreve a atitude de saudável desprezo pelos dogmas emepebísticos que orientaria todo o rock-pop posterior, fosse ele fofo (Kid Abelha, Absyntho) ou sarrista (Ultraje, Miquinhos), ortodoxo (Barão, Ira!) ou “desconstrutivo” (Mercenárias, Smack, Voluntários, Chance).

É dessa cena pós-punk paulistana que quero falar, porque dela fiz parte, primeiro com o No 2 (ao lado de Celso “Minho K” Pucci), e depois com o Akira S & as Garotas Que Erraram.

E porque nela se revezavam diversos músicos-jornalistas, portanto com duplo poder de fogo (Thomas Pappon do Fellini/ Smack/ Voluntários, Minho K dos 3 Hombres, José Augusto “Scot” Lemos do Chance, Fernando Naporano do Maria Angélica Não Mora Mais Aqui, eu mesmo). Agora, à distância, acho que erramos na dose.

Primeiro, quanto ao alvo. Chutar a emepebê em si em meados dos anos 80 era chutar cachorro morto. Certos urubus que se alimentavam da carcaça, esses sim é que estavam bem vivos. Se bem que uma ou outra banda até filtrasse alguma simpatia pelo samba, do Fellini e do Chance até o bizarro Vzyadoq Moe (e no Rio, os brilhantes Black Future e Picassos Falsos inclusive tematizaram o assunto).

Mas de alguma maneira maluca nós neglicenciamos, não vou dizer as “responsabilidades” porque soaria idiota, mas as “possibilidades” que passaram pela nossa frente. Nos nossos porões, ficções de Berlim, Londres ou NY, não nos passava pela cabeça que estávamos aumentando, pela omissão, um fosso perigoso. Não tínhamos nada a ver com aquilo – “aquilo” entendido como o Brasil.

Vai ser bom, não foi?
Desse fosso, passada a euforia das poucas bandas que tinham ao mesmo tempo uma certa qualidade (eu disse “tinham”) e uma atitude de mercado (tipo RPM, Legião e Titãs), surgiriam monstros como o breganejo, o pagode-de-corno e a axé music.

E esse fosso é a história dos anos 90, ponto. Sei que existiram o manguebeat (com o qual evidentemente eu me identifico, como eles mesmos se identificavam com a tal cena paulistana) e uns outros troços aí, os quais não vêm ao caso: o assunto é a descontinuidade. E o Sepultura e as guitar-bands-cantando-em-inglês simplesmente não ficam no mapa do Brasil.

Numa conversa outro dia com o Max de Castro, na qual eu estava elogiando uma música dele em parceria com o Fred 04, do mundo livre, chamada “Linha do Tempo”, o Max disse: um dia tem que cair a ficha para as pessoas de que o Fred é um Grande Compositor Brasileiro, como aqueles das antigas.

É aqui que eu queria chegar. Por alguma espécie de mágica, ou talvez de cicatrização, parece surgir toda uma geração que, desinibidamente, sabe compor em português e até com algum reflexo daquelas tais raízes. E isso SEM ignorar solenemente o que acontece no pop-rock internacional, como o Chico César ou coisa que o valha.

Falo de Wado e do Otto do segundo álbum (que passou batido mas não é truqueiro como o primeiro), falo de Rebeca Matta, Stela Campos e a Karine Alexandrino, falo do Instituto e seu cursinho para rappers integrados, de Totonho & os Cabras, do Cidadão Instigado, do Stereo Maracanã, do Casino. Do DJ Dolores e do Bonsucesso Samba Clube.

Do Fellini que volta de vez em quando. De gente que ressurge das eras remotas com novas gravações espertíssimas, como a Elza Soares e o Trio Mocotó. De uns projetos eletrônicos que estão mais ou menos nessa sintonia, como o Mugomango e o Superágua. Da surpreendente reviravolta da carreira da Patrícia Marx, e do drumba da Fernanda Porto.

Porra, falo até da Kelly Key, que não é propriamente uma Grande Compositora Brasileira, mas que talvez seja a nossa melhor chance de começar a banir essa atroz grosma radiofônica que puniu nossos ouvidos durante a pior parte desses vinte anos. Quem não tem cão...
(publicado na Zero, janeiro de 2003; este texto é anterior e foi a inspiração para o Quem Tem Medo Da MPB ? publicado abaixo, daí a repetição de alguns temas)

Publicado por allxsexs às janeiro 23, 2003 12:50 AM
Comentários

texto ultra-necessário em termos históricos, alex. deveria ser distribuído nas escolas pra molecada do ginásio em diante. heh.

postei o link da minha banda, espíritos zombeteiros. somos de londrina (se bem que eu moro em são paulo atualmente) e talvez não seja o que há de mais original em termos de referências ao rock brazuca, mas é em português e modéstia à parte acho que o vocalista tem um grande talento pra compor.
e, também, vem de um lugar fora do EIXO. londrina costuma produzir só bandas cantando em inglês e, até por isso, somos meio que estranhos no ninho por lá.
fiquei de trocar cds com você um dia (conversamos no lançamento de um livro na paulista, lembra?), mas meus cds acabaram e agora estamos com as músicas ali. dá uma olhada hora dessas.

abraço!

Publicado por: Mateus Potumati às agosto 31, 2004 02:56 PM

Caro Alex, primeiramente, deixe me lamber o saco,, achei muito bom o seu Blob.. parabéns
Agora, me diga,que diabos aconteceu com o bom e velho Rock Brasileiro... ja deu no saco esse lance de pop,, nada novo, o q é bom vem do passado,, tem espaço ainda na midia para Festivais como o da Record, onde foi revelado a Tropicalia, ou mesmo o Rock Brasileiro dos anos 80 q chegou ao seu auge.. é isso o q não entendo..
Puta Abraço

Publicado por: Wagner às abril 9, 2005 10:49 AM