março 04, 2003

>KELLY KEY NÃO É O PROBLEMA, KELLY KEY É SOLUÇÃO

Pra quem não ficou sabendo ou não prestou atenção, houve uma malfadada carta de ONGs do setor da saúde pública, atacando a escolha da cantora Kelly Key como garota-propaganda da campanha de carnaval do Ministério da Saúde. O tom e o tema me lembraram um surto de intolerância cultural parecido, daquela vez contra o chamado “funk” carioca (pouco a ver com o funk propriamente dito), uns dois anos atrás.

Dizia o manifesto das ONGs, no seu trecho (pretensamente) mais contundente, que Kelly não respeita “uma visão política do mundo e suas relações de gênero”, e que defende “uma pseudoliberdade sexual, em que o homem é o oprimido e a mulher é a opressora”.

A reclamação não colou, como atestam os simpáticos outdoors com a moça, nas ruas, segurando uma camisinha e dizendo “mostre que você cresceu e agora sabe o que quer” (a campanha está na televisão e no rádio também, mas não assisti nem ouvi).

Ora, a crítica da carta era totalmente injustificável do ponto de vista das atribuições formais – como bem observou uma conhecida minha, esse é o Ministério da Saúde, ou o Ministério da Moral e Bons Costumes? E bastante estúpida do ponto de vista do marketing propriamente dito.

Afinal, Kelly Key é popular e tem credibilidade pra falar de sexo, bem mais do que a “virginal” (ela quem diz) Sandy. A histeria parece ocultar outras intenções. Não custa aqui lembrar que um outro texto atacando Kelly também circulou pela Internet, e ostentando a assinatura de mestre Millôr – o qual, seguramente, jamais escreveria algo tão canhestro, rancoroso e sem graça.

Este trecho, pelo vocabulário, parece mais uma espécie de Faustão estressado: “Acho que 99% do país já teve o desgosto de ouvir ‘Baba Baby’, hit da temporada, defendido com muita propriedade pela buzanfa cantante da Kelly Key. Quando essa bosta não está tocando no rádio do seu vizinho jeca, do shopping ou do táxi, tem alguma mala fazendo o desfavor de lembrar o refrão pra você. (...) Kelly é um perfeito protótipo de uma vagaba exemplar. Mas calma, isso não é ruim. Afinal, milhares e milhares de brasileiras queriam ser como ela, enquanto a mesma proporção de homens queriam ter ela (sic)”. Buzanfa, bosta, vagaba. Tosqueira é pinto.

Mais adiante, o aspirante a cronista irônico (se é que de ironia se trata) diz: “O que eu não entendo é que enquanto todas as agências internacionais de inteligência travam batalhas, movendo mundos e fundos contra a pedofilia, esse mal que assola a humanidade e ameaça o direito de escolha de nossas crianças, as pessoas cantam exatamente o contrário! Se prenderam o Planet Hemp por falar de maconha, por que não prendem essa mala? Afinal ela está incitando uma prática ilegal! (...) Onde está o Taliban nessas horas? (...) Tudo bem que achar uma garota que se mantenha virgem até atingir a maioridade é que nem achar um vendedor da Fórum macho. Quase impossível. Mas daí a condenar publicamente o sujeito que pôs a integridade acima do instinto animal... é tipo arrotar alto na mesa, coisas que você só faz entre amigos, em concursos e em fim de festas”... Grifos meus – and no comments.

Contra a lolita e a dominatrix
Afinal de contas, o que fez a Kelly pra aguçar desse modo o dente dos moralistas? É provável que não tenha sido posar pra Playboy – uma coisa certamente vulgar, mas pelo menos bem-paga neste tempo de vacas (perdão) magras. E que mesmo intelectuais (uh) como Bruna Lombardi já fizeram.

Kelly também não me parece nem muito pior nem muito melhor do que outras cantoras, essas prezadas da elite “pensante” – na verdade, Kelly me parece até um pouco menos picareta do que a Marisa Monte, por exemplo.

Bom, em relação ao “funk”, digamos que as críticas poderiam ser compreendidas como a mágoa de espíritos sensíveis diante da desinibição de gente como o MC Serginho. Esse, o mais descarado entre os poetas populares, é o autor das linhas primorosas “Abre as pernas, faz beicinho/ eu vou morder o seu grelinho/ (...) Abre a boca, não se espanta/ eu vou gozar na sua garganta”... Até penso que Serginho se redimiu da baixaria com a “Eguinha Pocotó” – já que não é o que se diz por aí, volto depois ao assunto.

Mas Kelly, poxa, em seus dois hits, Kelly não gravou nenhum palavrão, não fez nenhuma referência ginecológica, e nem sequer cita despropósitos nos quais o mais moralista dos seres humanos não tenha pensado ou incorrido. A saber, respectivamente, a atração por meninas novas (à qual o personagem masculino da música, por sinal, resiste), e o embate pelo poder no casal.

As letras. Primeiro, a provocativa “Baba Baby”: “Você nem me olhou/ disse que eu era muito nova pra você/ Mas agora eu cresci/ você quer me namorar (...)/ E pra não dizer que sou ruim/ vou deixar você me olhar/ Só olhar/ Baba, baby”...

A música ilustra como a luxúria e a sede de caos da Lolita em questão (diz ela que foi inspirada numa paixão que teve aos sete anos...) esbarrou na firmeza ética (a bem da verdade parece mais distração ou bobeada, pelo menos a partir do momento em que ela fez uns 13) do cidadão, um professor de educação física. Tudo perfeitamente moral.

Se ela quisesse “calibrar suas armas” ainda incipientes, que procurasse alguém da sua idade, parece afirmar o responsável professor, agora alvo da “vingança” da menina graças exatamente à sua rigidez de princípios. Vê-se que os especialistas das ONGs não leram a letra. Provavelmente só folhearam a Playboy, e não gostaram da saúde do que viram.

Agora, a letra da parafeminista “Cachorrinho”: “Se tem uma coisa que me deixa passada/ é gritar comigo sem eu ter feito nada/ (...) Você gosta de mandar/ Você só me faz sofrer/ Você só sabe gritar/ e grita sem saber/ Mas sem mim você não vive/ sem meus cuidados, amor/ Fala baixinho comigo, a sua dona chegou/ Vem aqui!/ Que agora eu tô mandando/ Vem meu cachorrinho, sua dona tá chamando”.

Nessa, a crítica moralista se justifica menos ainda – isso se o problema realmente é, como afirma a carta, o oportunismo aético de Kelly Key, que “usa o corpo” ou retórica parecida. Ao contrário, a letra, bastante realista, é claramente política ao relatar o autoritarismo vazio do parceiro (um chato barulhento) em “você gosta de mandar/ (...) e grita sem saber”.

O texto é talvez menos ortodoxo (ao revelar parece que um certo viés sadomasoquista), mas certamente é mais rigoroso, e até linha-dura: “Vem aqui! Que agora eu tô mandando”. Ou seja, propõe a substituição de um autoritarismo formal (patriarcal, machista) por um mais protetor e justificado (matriarcal), posto que “sem mim você não vive/ sem meus cuidados, amor”. Abordagem perfeitamente plausível.

O legado de Collor e a eguinha inocente
Outra manifestação rancorosa e falsamente progressista, ainda na net, foi a de um certo professor (não, este não é de educação física) contra o já citado MC Serginho. Típico exemplo do fator Retardo da Crítica, quando um questionamento justo surge injustamente e na hora indevida (a propósito disso veja o texto Amarelo Manga, abaixo).

Depois de chegar ao fundo do poço da inconveniência fonográfica com aquela outra letra, Serginho, em momento singelo, gravou a música “Eguinha Pocotó”, que fez para a filha. Antes de partirmos para a letra, vejamos a reclamação do tal jornalista (ele também é jornalista), veemente.

Ele diz: “Esse é o grande sucesso da música popular brasileira, que domingo ocupou horas preciosas do horário nobre do programa do Gugu, batendo recordes de audiência. (...) Enquanto o Serginho recitava a letra, um sujeito efeminado tinha convulsões, que depois descobri ser a tal dança da égüinha (sic) pocotó. O nome do sujeito? Lacraia. (...) Enquanto o índice da audiência subia, a atração era mantida no ar. E à noite, foi orgulhosamente reprisada por um Gugu exultante com a audiência histórica. Neste domingo, milhões de brasileiros assistiram, espero que envergonhados, ao triunfo da mediocridade. Á (sic) afirmação de que existe, sim, um processo para mediocrizar o Brasil”.

A primeira falácia: se é que a TV brasileira (ou aliás qualquer TV) tem “horas preciosas”, certamente elas não estão nem nunca estiveram no programa do Gugu, nem no do concorrente Faustão, atrações trash por definição.

Nem me parece que Serginho e o “funk” estejam piorando qualitativamente a situação (catastrófica) que já está estabelecida há anos, desde que a programação foi dominada por subgêneros popularescos e paupérrimos como o axé, o pagode-de-corno e o breganejo. E nem vou nem comentar aqui o vetusto dedo acusador do escritor (ele é várias coisas) contra o “efeminado” Lacraia – só faltou berrar, ao estilo do Enéas, “uranista”!

Também não consigo entender como as tais platéias “envergonhadas” estariam alimentando, constrangidas e a contragosto, a “audiência histórica”. Um aviso ao cartunista (ele é vááárias coisas) reclamante: o Brasil já está perfeitamente mediocrizado, e isso não é de hoje nem de ontem. A menos que esse fulano estivesse vivendo na Bulgária desde a posse de Collor, não havia como não notar.

Então porque me incomodo tanto com essa manifestação do conferencista (não sei como esse cara ainda tem tempo de assistir televisão), se ela estaria essencialmente correta, ainda que tardia? Porque, na verdade, a manifestação não está essencialmente correta. Só podemos concordar no assunto: mais até do que a “mediocrização”, o que está em jogo é a própria barbárie e seus sintomas.

O achaque, ao ser complacente com o principal do processo (a “pobreza-rica” da era axé-pagode-sertanejo), se volta contra aspectos secundários (a “pobreza-pobre” e o “mau-gosto” do performer) e, ouso dizer, até contraditoriamente progressistas.

Falo (ops) do desassombro (saudável) de Serginho na abordagem da temática sexual (além do simples fato de ele saber que a mulher tem um "grelinho"!). Desassombro esse que, no caso da composição da eguinha, ainda por cima é menos que insinuado, só sendo enfatizado talvez na dança “convulsiva” do “efeminado” Lacraia (que eu ainda não tive a oportunidade de ver).

Para que não restem mais dúvidas, vamos à letra: “O jumento e o cavalinho/ eles nunca andam só (sic)/ Quando sai (sic) pra passear/ Levam a égua pocotó/ Pocotó pocotó pocotó/ Minha eguinha pocotó/ Vou mandando um beijinho/ pra filhinha e pra vovó/ Mas não posso esquecer/ da minha eguinha pocotó”.

A menos que o leitor tenha aquele senso de humor colegial que se sobressalta à mera menção da palavra “jumento”, simplesmente não há o que comentar. Como comparação poética e musical, eu diria até que essa música não é notavelmente pior, por exemplo, do que a aparentemente pueril “Pluct Plact Zum (O Carimbador Maluco)”, de Raul Seixas.

Que, segundo comentários, injetou nela – ele sim – uma considerável dose de malícia subversiva, ao se inspirar no medicamento tarja-preta Ploct-Plus 25, além de parafrasear um escrito anarquista de Proudhon. Mas isso já é outra história.

Racismo banguela e o pancadão de vanguarda
O caso de Serginho e Lacraia me lembrou ainda a perseguição jurídica e o constrangimento (bem-sucedidos) a que foi submetido, em 96, o palhaço Tiririca. Ele tinha cometido alguns versos infelizes e racistas, por evidente ignorância, numa letra que alguma ONG zelosa foi pinçar deliberadamente no meio do álbum (pois não era a da infame e mesmerizante “Florentina De Jesus”).

E isso no país da impunidade para Maluf e seu estupra-mas-não-mata, para Garotinho e sua desinfecção na cadeira da Benedita... Na verdade me parece que o “pardo” (ainda que branco, se é que vocês me entendem) Tiririca pagou caro por sua falta de dentes, e não por seu racismo “ostensivo”.

Só para situar, no mesmo ano de 96 saiu o primeiro e superproduzido volume de Amigos, reunindo os “sofisticados” Leandro & Leonardo, Chitãozinho & Xororó e Zezé Di Camargo & Luciano. No ano seguinte, em compensação, Claudinho & Buchecha já estouravam mesclando rap e “funk melody”, e eram a melhor coisa da programação radiofônica massificada, uma espécie de Lulu Santos da Baixada.

Claudinho & Buchecha eram, portanto, Qualidade de Vida... Já tive outras oportunidade de ressaltar no “funk” carioca inesperados aspectos estéticos: sua linhagem nobre, da vanguarda européia via Kraftwerk via electro novaiorquino via miami bass até aqui.

E éticos: o reconhecimento de que o feminino tem aspectos afetivo-sexuais contraditórios – representados na “cachorra” liberada e na “tchutchuca” fiel –, porém não-excludentes no mesmo ambiente, superando assim a divisão patriarcal entre locais “familiares” e os outros. Faltou apenas entender que esses aspectos são não-excludentes na mesma mulher...

Também já brinquei ao dizer que as coristas do Faustão dançando ao som de um poperô extremamente rude e abstrato, por mais normal (?!) que isso possa parecer hoje, seria visto nos anos 70 como alguma bad trip de Ralf Hutter & Florian Schneider.

Claro que essas formas estéticas se diluem e recontextualizam ao longo do tempo, mudando de sentido e função. E é claro que o “funk” é mesmo o pus que escorre das feridas da doença mercantil da humanidade; da crise caótica, entrópica, acrítica e paroxística em que a cultura de massas se meteu.

Mas esse pus pode carregar já um anticorpo, um diferencial positivo em relação ao ponto mais negativo do processo. Que seria, eu insisto, a fase anterior (axé-pagode-sertanejo) da degeneração da cultura brasileira, e não esta que vivemos.

Esse elemento paradoxal é a inclusão na mídia dos artistas periféricos, com suas expressões próprias e não-pasteurizadas. É mais fácil enxergar isso em relação ao hip hop politizado. E este, paradoxalmente, faz uso de um discurso político compreensível (inaceitável, é claro, mas compreensível) pela classe dominante.

Então porque é que os elementos de agressão aberta e beirando o non-sense do “funk” à moral vigente não poderiam também ser compreendidos como inconformismo e sinal de uma nova vitalidade política (política, sim)?

É por isso que os ódios que o “funk” (e sua versão cor-de-rosa e felpuda, o electropop R$ 1,99 de Kelly Key) desperta me parecem ter mais a ver com suas qualidades do que com seus defeitos.

Voltando à carta das ONGs, a argumentação dela toda se baseia na desqualificação pessoal de Kelly Key. Pois essa moça, que engravidou adolescente, foi ainda antes da maioridade namorada do cantor Latino (uma criatura da estirpe circense de Tiririca, Serginho e Lacraia), e, para piorar, estreou na televisão apresentando na Globo o programa Samba Pagode & Cia.

Mesmo assim, superou com graça e sem sequelas visíveis esses graves problemas (namorar o Latino e apresentar um programa flopado de pagode com Netinho e Salgadinho evidentemente são Graves Problemas), virando uma cantora pop.

Kelly Key é uma demonstração de que alguma coisa está mudando para o povo de idéias simples, sim – e é para melhor. “Você cresceu e agora sabe o que quer”, exatamente como diz o slogan do ministério. Será essa a real ameaça?
(publicado no site Fraude)

Publicado por allxsexs às março 4, 2003 10:13 AM
Comentários

Engracado o ministerio da saude , quando era uma garota negra desconhecida dizendo que tinha dado para varios caras no carnaval e nao sabia de quem tinha pegado AIDS , e nao sabia o nome dos caras que tinha transado , tava tudo bem . Nao era imoral .
E o MC Serginho esta fazendo a mesma coisa que os rapers aqui nos Estados Unidos , todas as letras sao de sacanagem acabou o tempo de rap politizado . Tudo no mundo agora e sexo , as pessoas simplificaram , vai ver a Cicciolina tava certa guerra e falta se sexo .

Publicado por: Dada às abril 8, 2004 04:51 PM

vai para o inferno

Publicado por: fdfghdfshfjgiuyouuyo às fevereiro 12, 2006 03:52 PM

Vai te fude idiota
a KELLY alem de gostosa...boa...é otima cantora...e vc num pode fala um ai....pq é gordo e chato...
vai te fude

Publicado por: Vai toma no cu às julho 22, 2006 11:19 PM

A KELLY é uma gostozona eu queria tranzar com ela e ver a buceta e a bunda d perto

Publicado por: o meu nome às agosto 27, 2006 07:34 PM