A reação do porteiro foi um pouco lenta – provavelmente apenas aqueles dois dedinhos usuais de má vontade. Repeti a frase.
– A Dona Júlia, você sabe qual é o apartamento dela?
Acrescentei tipo uma explicação pra satisfazer a “autoridade” dele, se bem que com um toque de displicência:
– Eu já vim aqui antes... mas esqueci o número do apê.
– Quem? – o cérebro do tiozinho uniformizado estava demorando pra dar ignição. Comecei a achar ele meio tonto, mesmo. Não parecia particularmente burro nem inteligente. Nem novo demais (pra explicar a distração) nem velho demais (pra estar gagá).
– A Dona Júlia, você sabe qual é o apartamento dela? – repeti pela terceira vez a mesma frase, exatamente com a mesma entonação. Eu também sei me fazer de louco.
– E então, seu RODOLFO? O senhor vai procurar o envelope ou NÃO VAI?
Essa era a velha esquálida que já estava do lado da mesa dele quando eu cheguei. Que também estava começando a ficar impaciente, pelos vistos. Ela falou num tom autoritário e desagradável, que combinava a cor de flores mortas do batom nos lábios finos, secos e apertados.
A fraca conexão que eu tinha estabelecido com a atenção do homem caiu de vez. Ele se virou pra ela subserviente, como se eu não existisse, e começou a remexer na gaveta visivelmente bagunçada da mesa à qual estava sentado.
– Não sei se já voltou para a administradora, dona Sílvia...
Respirei fundo e olhei em volta, para o saguãozinho do prédio. Não devia ter sido propriamente luxuoso, mas com certeza tinha conhecido dias melhores. Quando Santa Cecília, ali ao lado da Santa Casa, ainda era um bom bairro, pros idos dos anos 40 ou 50 ou 60, sei lá.
A velha, que tinha toda a pinta de síndica, também devia ter tido seus dias melhores. No mínimo ela já morava lá desde essa época, e foi apodrecendo junto com o edifício, junto com a cidade, junto com o Brasil. Mas aquele jeito mandão ela ia levar com ela para o túmulo.
Visivelmente aliviado, o porteiro (agora eu estava notando os cerzidinhos na camisa azul dele, invisíveis ao relance) conseguiu extrair do caos da gaveta um envelope pardo, médio, um pouco amassado.
– Tá aqui, achei, dona Sílvia...
– Ainda bem, seu Rodolfo, ainda bem... – a velha marchou para a escada de pedra gasta com rigidez. O porteiro juntou beatificamente as mãos, ajustou a bunda agora relaxada na cadeira e olhou pra mim, com um olhar simpático. Esperei ele retomar o assunto. Nada.
– A Dona Júlia, você sabe qual é o apartamento dela? – quarta vez.
Já estava perdendo a graça. A simpatia sumiu do olhar dele. “Chateação, só chateação”, ele pensou quase alto. Pareceu de novo fazer um esforço mental.
– A psicóloga?
Bruxa pode ser considerada psicóloga? Resolvi explorar outros ângulos mais óbvios.
– A morena que tem uma filha...
– A das tatuagens? – bingo.
– É, essa mesmo – a filha adolescente da Júlia, a Juliana, tem uma tatu no ombro, tinha que ser ela.
Ele perguntou meu nome, respondi, ele pegou o interfone, tudo meio lentamente, apertou um botão, esperou o som de atender, e disse para o fone:
– O Alex está subindo – e, para mim:
– 102, décimo-primeiro.
Sem notar a incongruência, calquei o botão do décimo-primeiro, e esperei o elevador verde-musgo se içar para um dos últimos andares, com uns estalos de artrite.
Saí, e fui para a porta de final dois, no fundo e à esquerda, como a minha memória mandava. A porta estava entreaberta e, olhando bem, estava sendo segura por dentro por alguém. Uma mulher, a julgar pelos dedos de longas unhas pintadas que eram a sua única parte visível.
E o dedo indicador, com a mais longa das unhas cor de vinho tinto, fazia um movimento de “venha” pra mim, enquanto os outros dedos apertavam a madeira. “Como a Júlia está vamp hoje”, pensei, rindo do efeito especial.
Passei pela porta, que se fechou às minhas costas, e me virei rindo para a Júlia. Não era a Júlia.
Primeiro imaginei que seria uma amiga dela; a Júlia devia estar dando uma consulta pra alguém. Mas, quando olhei para o fundo do corredor, só vi escuridão na sala normalmente ensolarada. A porta da sala também estava meio encoberta por uma cortina de veludo vermelho, que eu nunca tinha visto antes.
Olhei para a mulher de novo, e ela se espantou com a minha cara de espanto. Era uma falsa loira, com cabelos de palha, e a cara feia meio escalavrada, não condizente com o corpão que o vestido (também de veludo e numa cor tipo vinho, que nem a cortina) escondia.
– Você já veio aqui antes?
Respondi com outra pergunta.
– Aqui não é o apartamento da Júlia?
– Da Gisele, aqui é o apartamento da Gisele – disse a Gisele.
– Desculpe, eu errei de porta – me virei pra sair, mas ela não se afastou.
– Como, errou? O porteiro falou que você estava subindo. Você não é o Oberdã? – o gozado é que o tom dela estava ficando irritado, como se eu estivesse fazendo alguma coisa inconveniente.
Inconveniente seria eu me chamar Oberdã. Encolhi os ombros.
– Não, eu não sou o Oberdã, e estou indo no apartamento da Júlia. Com licença...
Vendo a minha determinação em cair fora, a Gisele abriu a porta, já brava. E saiu ela mesma andando na direção do elevador.
– Vamos já apurar isso – disse ela, num jeito pedante e agressivo. Não como se eu tivesse cometido um engano bobo qualquer, mas como se eu estivesse tentando dar algum tipo de golpe.
“Porra, ela está puta com que?!”, pensei, mas disse outra coisa pra ela, que já estava segurando a porta do elevador:
– Ei, você vai deixar a porta do seu apartamento escancarada? Quer que eu encoste?
Ela fez que não com a cabeça, voltou, pisando duro com seus saltos altos, e nos cruzamos enquanto eu ia para o elevador. Entrei nele, segurando a porta aberta pra ela vir, olhei pra bunda dela e... plaf.
Ela tinha entrado meio correndo no apartamento, e batido a porta. Ouvi a chave virar na fechadura.
Fiz uma pausa mental. Com certeza eu estava com dificuldades de processar o que tinha acontecido no último minuto, minuto e meio. Apertei o botão do térreo.
Aproveitei a lentidão agônica do elevador pra ir pensando. Eu estava dividido entre duas sensações diferentes: a raiva da besta do porteiro, que tinha me feito pagar esse mico, e algo bem mais estranho.
Alguma coisa tinha ficado agarrada em mim lá naquele apartamento.
A penumbra densa da sala na qual eu não tinha entrado. Um certo cheiro (perfume? Incenso? Odor de gente? Tudo isso misturado? O próprio prédio já tinha um cheiro meio estranho). A irritação da Gisele em eu não ser quem ela estava esperando (porque obviamente ela estava esperando alguém), tudo isso estava me incomodando também.
Eu devia ter ficado?
O pensamento bateu forte. Quem era a Gisele? Puta? Macumbeira? Puta e macumbeira? O que teria acontecido se eu ficasse? A porta do elevador se abriu. Sai e dei de cara com o porteiro Rodolfo, sentado lá na mesinha dele com a mesma cara de pateta.
– O senhor me mandou para o apartamento errado. Eu vou na Júlia...
– 102, décimo-primeiro...
Eu ia xingar, mas dessa vez captei o erro. 102 é no décimo. Annnnnnh.
Voltei para o elevador sem dizer mais nada, como se a marcada fosse mesmo minha. Apertei o botão com resignação. A porta fechou, o troço rangeu e subiu outra vez.
Retomando. Se eu tivesse ficado... A feiura de rosto da Gisele (foi a raiva dela? Não, quando eu entrei ela não estava com raiva ainda, e já era bem feiosa. Dentes ruins!) é que tinha me impedido de pensar duas vezes.
Se ela fosse bonita, claro que eu teria aproveitado o engano pra ensaiar um papo. Teria? Talvez. E aquela situação dúbia era excitante.
O que é que tinha de proibido naquele apartamento, o que era aquele clima estranho? Aquele jeitão de... abismo? O que é que estava pegando? Afinal de contas, eu estava ali pra visitar uma bruxa, a Júlia.
Mas aquela Gisele era algo mais... denso do que a Júlia? Não; de pink wicca, aliás, a Júlia não tinha nada. Mais perigoso? Mais... ameaçador. Mais... excitante. O elevador chegou ao destino. Fui na direção da mesma porta do fundo, desta vez um andar abaixo. Olhei.
A chave do 102 estava na fechadura, do lado de fora.
De novo tinha algo errado.
Toquei a campainha. Ninguém atendeu. Toquei de novo. Ninguém. Afinal, a chave estava na porta. Deixei ela lá mesmo, e desci, rumo ao meu terceiro encontro com Rodolfo. Que porra... ?!
Dessa vez fui rude, assim que pisei na recepção.
– Caceta, o senhor já me mandou duas vezes pro andar errado. Dá pra dizer qual é o apartamento da Júlia, ou tá difícil?
O hominho me olhou com uma expressão ofendida, e balbuciou.
– Dona Júlia, né?, eu já disse... O senhor é que não... Dona Júlia? É. Ééé. É o 132.
Fuzilei o homem com o olhar e entrei no elevador outra vez. Aquilo não tinha mais fim. Na subida fui brincando com o nome do tal cara da Gisele, o Oberdã. Ober-dam. Über-damm.
Em alemão era algo do tipo “acima do calçamento”, ou “acima da represa”, se a minha memória não estava falhando. Über-dame, acima das senhoras? Úbere danificado. Over damned.
É isso aí. Por cima dos malditos. Essa era uma boa ou uma má posição? O elevador parou com um pequeno tranco no décimo-terceiro. Saí e dei de cara com a Júlia, de mãos na cintura e um sorriso na cara.
– Onde você foi parar? Faz quinze minutos que eu tô aqui te esperando.
Dei um beijo nela e entramos. Lá dentro dei um beijinho na filha adolescente dela. Gatinha. Aquela era a sala ensolarada que eu conhecia. Fiz a Júlia sentar no sofá, fechar os olhos e botar a mão na minha testa, pra captar o clima do outro apartamento.
Ela fez o que eu pedi, enquanto eu contava toda a história.
– É, tem umas putas no prédio, acho.
– “Acha”, mãe? Fala sério – disse a Juliana.
Mas a Julia estava indignada era com o porteiro, o Rodolfo.
– Cara, esse cara é muito zureta. Bebum. Uma noite deixei a chave prá Juliana, que tinha perdido a dela, e quando voltei, às duas da madrugada, ela estava lá sentadinha na portaria, encolhidinha, me esperando, desde as dez! E a chave lá, na porra daquela gaveta dele. Você tinha que ver como eu xinguei o filho da puta...
Fui até a janela, e olhei pras persianas dois andares abaixo. Todas as janelas do apartamento da Gisele estavam fechadas. Gritos. Lá embaixo, na rua, um motociclista com a namorada na garupa tinha acabado de bater num ônibus, e ouvíamos os gritos da moça, no chão, com a perna retorcida.
Olhando bem deu pra distinguir o rapaz quieto, sentado na beira da calçada, com gente aflita em volta dele, talvez machucado, ou em choque. Os gritos da moça continuaram até a ambulância vermelha dos bombeiros chegar.
E a janela da Gisele não abriu. Sentamos. Conversamos. Tomamos café, com bolo de fubá. Engasguei e tive um puta ataque de tosse. A Juliana bateu nas minhas costas, rindo. Gostei dessa intimidade.
Mas a Gisele, e o cheiro do apartamento, da dimensão da Gisele, não saíam da minha cabeça. Tentei voltar ao assunto umas duas vezes mas a coisa voltava pro plano, er, natural: “tem puta no prédio”. Meu papo era mais sobrenatural. A Júlia definitivamente não tinha captado o que eu queria dizer.
Ela até achava chato ter putas no prédio – mas parecia não considerar a possibilidade de haver outras feiticeiras. Exceto a filha dela, claro, que já vinha dando sinais de considerável poder.
Me despedi das duas. Um dia eu ainda ia comer aquela menina. A filha, digo. Com a mãe eu já tinha tido um casinho, uns dez anos antes. De vez em quando ficava com a impressão de que ela ainda queria alguma coisa comigo. A mãe, digo.
Quando saí nem olhei pro Porteiro Rodolfo. Fiquei procurando os adesivos colados pelas prostitutas nos telefones públicos da calçada: “Nanda ninfeta sedutora 19 a. Iniciante 3o colegial lisinha. Seios durinhos venha me ecitar. (Ecitar! Essa era boa! Fraquinho o colegial dela). Fone tal”.
Ou uma diletante: “Vanderléia baianinha tarada. Louca pra rebolar no seu pau. Anal de 4 faço porque gosto. Deixo gozar na minha boquinha até a ultima gota. Sem camisinha”. E uma cifrada: “Ana Cl. sexo s/ lim. Oral americano, anal trapezista STX tudo + G. 2X orl. molhad. DP sem frescura, acess. imp.”
Ou até uma assombrosa: “Rose portuguesa peluda. Coroa afrodita. BB grande. Seios farto. Adoro ser Chupada”. Afrodita é que nem a Buba? Um gorila português animadão? Meda.
Mas nada do que eu estava procurando... Algo do tipo “Gisele. Sem idade. Sem saída. Dou tudo. Quero tudo. Dinheiro? Também. Corpo... e alma. Entre em mim; desapareça para sempre. Palitarei meus dentes podres com teus ossinhos”.
Bem que eu queria.
Eu?
Não, nunca.
Amanhã, talvez. A moto retorcida tinha ficado lá, caída sob a luz forte do sol, sem ninguém para tomar conta, só com uns trapinhos de jeans sujos de sangue que os paramédicos tinham rasgado das calças da moça acidentada.
Olhei pra cima, pra duas ou três janelas fechadas no décimo-primeiro andar. Acho que baixei a cabeça rápido demais, porque senti uma tontura momentânea.
(publicado no blog Elas Por Elas)