maio 24, 2003

>EU AMO O MARIDO DA CLARAH AVERBUCK

Não, isto não é uma saída inesperada do armário. Aliás, nem sei se a Clarah chama o cara, o Marcelo, de marido. Mas o fato é que ver os dois juntos outro dia enterneceu e esquentou um coração ressequido: o meu.

Seria óbvio demais escrever um troço chamado “Eu amo a Clarah Averbuck” - só um pouco mais óbvio do que “Eu odeio a Clarah Averbuck”, que vem a ser a outra possibilidade de se relacionar com ela.

O que é que a gaúcha tem? Bom, ela escreveu um livro autobiográfico precoce, A Máquina De Pinball, que me deixou exatamente com essa dúvida - amar ou odiar - durante uns dois terços da leitura. Quando dei o braço a torcer (para o livro abusado, porque da autora abusada eu gostei instintivamente), senti que eu estava me abrindo não para uma história qualquer, nem sequer para um estilo ou para uma “proposta literária”, mas para o futuro.

O dela. O meu. O do Brasil, se é que isso existe. O da humanidade.

Porque a Clarah, além de expoente da geração blogueira e avatar de calcinha dos deuses-vagantes Fante e Bukowski, representa para as letras brasileiras mais ou menos o que a Madonna representou para a música pop mundial. Ou a Marianne Faithfull ou a Courtney Love pro rock e tal.

Um coquetel revelador em que a coragem moral de quem diz pesa tanto quanto o que diz e como diz. É a contrafação do celebrity system - pra cada Dhomini que desponta do/ para o nada, alguém que queira provar seu valor não pode “apenas” escrever bem, declamar bem, tocar pandeirola bem ou coisa parecida. Isso é o pré-primário.

Uma ex-amante minha, metida a escritora (e a bruxa também, mas isso já é outra história), costumava me dizer que não precisava se acabar toda como a Clarah para escrever um livro, ou um blog. Sobre o meu copo babado de gim-tônica, eu solenemente discordo. Porque este é o fim-do-mundo como nós o conhecíamos - e eu acho bom.

PODE ENFIAR A SUA INTELIGÊNCIA FORMAL NO RABO, SUA VACA COMODISTA, é o que eu gostaria de dizer pra essa moça, a ex-amante. Alguém que tenha, sim, Inteligência, Beleza, Cultura, Saúde, Brilho, faz bem é em CAIR NA SARJETA - nem que seja pra sair de lá com alguma experiência.

Porque não tem a menor graça deixar a sarjeta pros fracos, pros burros, despreparados. Temos que tocar essa gente toda é pros bancos, pra bolsa, pras corporações, pros shopping centers, pros três poderes, pras agências de publicidade, pras redações dos grandes jornais, pros escritórios de advocacia, pra esses guichês supostamente “limpinhos” que são o lugar deles.

Saúde e aquelas outras coisas todas são que nem dinheiro, são pra torrar, pra circular, e não pra acumular... Estou ficando meio confuso, né?

Hã, literatura não é umas letrinhas espertas no papel. Literatura (ou música, ou teatro, whatever) é quem a faz, com os pedaços que arranca de si. E a Clarah viveu seus primeiros vinte e poucos anos de vida turbulenta, infernizando, entre outras criaturas próximas, um assim-chamado marido, que ela não hesitava, por exemplo, em cornear despudoradamente.

A se acreditar em Nelson Rodrigues (e Eu Acredito Em Nelson Rodrigues), o problema é que tem homem que nasce pra corno, não é a mulher que trai. O infeliz lá não era capaz de capturar a imaginação dela. Evidentemente não é esse o marido da Clarah que eu amo (nem ela, por sinal).

Na verdade, creio que quem se aproxima dela sem exigências, pode acabar descobrindo que a Clarah é parecida com a literatura dela. Uma certa pegada brutal, no exterior, serve na verdade pra proteger os delicados princípios e sentimentos que ela guarda dentro de si. De novo é o reverso do celebrity system; o personagem cínico como possibilidade de salvação espiritual, e não como obsessor.

Acontece que uma Clarah gravidésima me contou, uma noite destas, que está apaixonada. E grudenta. E fiel, da maneira mais inesperada. Eu sei do que ela está falando. Uma vez namorei uma carioca, eu aqui e a carioca lá; nos víamos de duas em duas ou três em três semanas, e evidentemente seria muito idealismo esperar que ninguém desse uma escapada de vez em quando.

Pois num certo fim-de-tarde ela chegou a São Paulo, fomos ao Frevinho, e havia algo de não-confessado entre nós, um clima estranho que não conseguíamos romper. Demorou alguns choppeses para que descontraíssemos, e acabássemos admitindo, um para o outro, que estávamos sendo fiéis...

É o fim-do-mundo como o conhecíamos, e algumas das surpresas são legais.

Quando Clarah engravidou, Marcelo ficou puto e mandou ela embora. Ela disse que não era um truque - certamente esse não seria o tipo de truque dela. Ela disse que ia ter o bebê, nem que fosse sozinha. Ele pediu pra ela tomar ayahuasca com ele, pra ele tentar entender - e afinal ele entendeu.

Clarah a ex-turbulenta e Marcelo o ex-garotão agora se fazem declarações de amor em público. Clarah se revela tradicionalista o suficiente pra ordenar que o médico não diga o sexo do seu bebê, já determinado pelo exame de ultra-som. Clarah largou a vódega (uma cervejinha de vez em quando pode, né?) e os outros bagulhos.

Clarah está linda, saudável: ela não teme a podreira, porque ela a conhece. E feliz: ela não teme a infelicidade, porque ela a conhece. Ela só teme perder um pouquinho da inspiração, de tanta bobeira. Mas aí seria um universo-incompleto, uma contradição em termos. Porque uma Deusa pode ser isto E ser aquilo.

Porque nós precisamos definitivamente de mulheres que borrem e anarquizem e destrocem as velhas dicotomias patriarcais entre mulherão e mulherzinha, entre santa e puta, entre cabeça e corpo, entre mãe e filha da mãe, inteligência e pulsão, química e espírito.

Eu confesso: eu nunca comi a Clarah. Eu nem tentei (é o fim-do-mundo etc)...

E isso não me faz falta - apesar de eu ser um cara galinha. Porra, eu consigo achar BONITO eu nunca ter tentado comer a Clarah (nem estou afirmando que você iria me dar, baby!); vocês entendem a libertação que isso significa pra um homem? Caralho, Hank, seu farrapo alucinado, você entende o que isso significa?

Porque eu já não sou eu e minha mulher Mara já não é minha mulher Mara e o Marcelo marido já não é o Marcelo marido e a Clarah já não é a Clarah quando tanto amor explode. Contaminação positiva.

E se eu amo minha mulher eu me amo, e se eu me amo eu amo a Clarah, e se eu amo a Clarah, claro, eu amo o marido dela; (ei, chegamos ao título:) EU AMO O MARIDO DA CLARAH AVERBUCK - só porque é ele quem me dá esperanças na humanidade.

Alguém aí realizou um milagre (os hormônios, talvez).

Por isso naquela noite eu olhei pros dois tão bonitos e tão queridos, a Clarah e o Marcelo, e os abençoei, e saí da FunHouse chorando de alegria, e dormi pensando na minha mulher, na minha menina Mara querida.

Uma vez, uma voz me contou: “o segredo da felicidade é fazer o que todo mundo faz - mas pelas razões opostas”. Estou começando a me entender com isso.
(publicado no site Fraude)

Publicado por allxsexs às maio 24, 2003 11:23 AM
Comentários

Porra, cara, texto ducaralho, muitobom mesmo. e "o dedo do meio é a mensagem" é uma das coisas mais geniais que vi ultimamente.. hei de recomendar isto aqui.

Publicado por: Bruno às agosto 18, 2004 02:45 AM

Pois é, foi bruno quem me recomendou o texto, embora eu já tivesse lido no Fraude, há uns tempos atrás. Concordo com ele, é mesmo um texto genial. Tão genial quanto a literatura (e a própria) Clarah.

Publicado por: Gio às agosto 18, 2004 07:36 AM

Estranho alguém afirmar com tanta propriedade sobre os sentimentos e sensações de outra pessoa.
Mais que estranho: essa atitude é invasiva e até incômoda eu diria.

Publicado por: Mariana Metal às janeiro 8, 2005 02:54 PM

"Caralho, Hank, seu farrapo alucinado, você entende o que isso significa?"

e isso é muito buk.

Publicado por: Míris às maio 26, 2005 11:53 AM

Existe vida em São Paulo. Oremus. O texto é demais principalmente para quem é fã da Clara (fã?...)

Publicado por: mario às maio 27, 2005 06:19 PM

Ah, hj passeando na ouro fino comprei um livro dela.
Genial. Agora quero o seu. onde compro. Ou ganho????

hehe
(brincadeira)

Publicado por: Hele às fevereiro 21, 2006 12:17 AM

Sou sua fã vc sabe...de longa data e de outros carnavais.
beijos
CRIS

Publicado por: Cristina Ranzolin às julho 1, 2006 03:13 PM