Eu e minha mulher estamos nos separando. Quer dizer, estávamos: salvou-nos o striptease dela. Não foi pra mim. Foi pruns caras aí; mal sabem eles o bem que nos fizeram. Bom, de qualquer modo eles tiraram a casquinha deles.
Eu e ela tentamos viver juntos uns tempos, e não deu muito certo. Mas mudar depois de morar junto, e dizer “vamos continuar namorando”, também não é fácil. Ficam, sei lá, umas ofensas, umas cobranças de quem foi o culpado de não ter dado certo, uma dificuldade em simplesmente zerar e seguir em frente.
Agora ela descolou um emprego e uma casa longe, em um município vizinho. Com a correria do final de ano (o trampo dela é numa loja de shopping), começamos a nos ver tipo uma vez por semana, o dia em que ela deixa o filho com a ex-sogra e vem dormir aqui em casa.
No domingo combinamos uma balada, ir à domingueira roqueira da Lôca, famosa pela pegação (hetero inclusive) e pelo clima, hum, de putaria. Já tivemos uma briga saindo de lá, porque a presença majoritariamente gay a deixa maluquinha, e ser o bedel da franga alheia é uma atividade estressante.
Assim que chegamos na casa, depois de uns drinques fortes, ela subiu em um palquinho, e começou a dançar, atraindo já alguns olhares.
– Sobe aqui também – ela me disse, e eu subi pro lado dela, começando a dançar bem preguiçosamente, ao contrário dela, que estava animada. Aí começou a tocar uma dos Cocteau Twins. Música quase gótica, etérea, de bruxinha light.
– Ahhhhhhhhhhhhhhh – ela disse, para o universo em expansão.
Um moço, dos que tinham já dado umas olhadas pra ela, negro, alto, magro, com cara de classe média-bem-média, encostou no palquinho, de costas, como quem não quer nada (bom, talvez ele nem quisesse mesmo). Daí a alguns instantes ela começou a dar umas longas roçadas de perna nas costas dele...
– Ei, não vai fazer nada que eu não consiga administrar... – eu disse pra ela, sobre a música alta, meio receoso do potencial da encrenca. – Eu já bati boca hoje na rua, vê lá hein...
– É só teatro – ela sentenciou.
Tão tá. Deixei rolar. Pra falar a verdade, ela já tinha se aproximado de duas meninas antes, uma punk lindinha toda de blusinha de renda arrastão, e uma peituda com shape de cantora de soul, pilotando um decote preto escandaloso. E tomou uma esnobadinha delas, que ficaram se agarrando pra ela ver, e depois sumiram.
No nosso contrato, “chegar em mulher sempre pode”. Sempre pode, digo, pra ela... Já tentei uma cláusula recíproca, mas ainda não chegamos a um acordo porque eu acho que o arranjo simétrico seria “mulher pode” pra mim também, e ela acha que seria, pra mim!, “chegar em homem sempre pode”... Como não estou interessado na liberdade de apalpar um chouriço sempre que eu quiser, continuamos negociando esse ponto.
Mas eu fiquei aborrecido com a esnobadinha das meninas. Não tanto porque não ia sobrar algo daquela feminilidade toda pra mim – sempre uma possibilidade interessante –, mas porque eu gosto de ver a minha menina se sentir poderosa. Como ela, aliás, é.
Então liberei o negão. Quer dizer, me segurei um pouquinho, pra ver onde ia dar o tal “teatro”. E então descobri que eu estava tranqüilo. E que, apesar da sensualidade que ela aflorava, continuando a atrair alguns olhares, não parecíamos estar em rota de colisão, nem entre nós, nem com nada.
Ok. Eu não tinha errado no prognóstico. Sempre de costas para ela, o negão levantou umas mãozinhas para acompanhar a música (na verdade eram umas mãozorras), e ela começou a passar as mãos nas mãos dele. Mas ele parecia estar encarando aquilo como uma espécie de coreografia mesmo. Fechava os olhos, e parecia tudo, menos o lobo mau prestes a comer alguém.
O ingrediente seguinte foi um outro cara que também pulou para cima do palquinho, e ficou dançando com ela. Eu de um lado, ele do outro, ela ondulando no meio, às vezes de costas para a patuléia, com as mãos na parede e a bundinha empinada; a imagem devia estar interessante. Aí fica um pouco obscuro para minha memória alcóolica – o que estava me dando tanta segurança? Onde foi o turning point?
Esse cara parecia mais impetuoso, mas ainda não era ameaçador. Chequei algumas possibilidades pessimistas: será que eu não gostava mais dela, por isso não estava nem aí?... Ou estaria descobrindo, assim de repente, uma vocação de corno manso? Não era isso. Era muito certo o que estava acontecendo.
E, de repente, foram várias coisas ao mesmo tempo. Ela arrancou a blusa, ficando só de sutiã (branco). Os caras já olhavam sem disfarçar – na verdade estavam uns três ou quatro, babando, bem embaixo dela. E o cara do outro lado do palquinho... estava tomando conta dela, que nem eu! Fazíamos um par de guardiões.
Dos caras de baixo, um fortinho, de cavanhaque e sem camisa, era o mais deslumbrado. E desnorteado também. Ele pediu para ela abaixar, e ela disse alguma coisa pra ele. Quando ela levantou, eu perguntei o que era. Ela disse: – Falei que vocês eram meus guarda-costas, pra ele não se exceder...
Aí ele me chamou também, e perguntou: – Na real, o que você é dela?
– Marido – gostei de como soou. Ele esbugalhou os olhos mais um pouco.
O fulano do outro lado também se aproximava de mim, por trás dela, e ficava dizendo, por cima da música: – Ela vai enlouquecer os caras! Olha o do cavanhaque! – Quer dizer, ele estava deixando implícito que ele mesmo não ia enlouquecer. Ok, guardião contratado. Nessa hora acho que estava tocando Liaisons Dangereuses, “Los Niños Del Parque”, predileta minha. Só bons sinais.
Quando ela abriu o zíper e baixou a calça jeans até as coxas, mostrando a calcinha rendada pequeninha (branca), já tinha uns oito caras embaixo. O negão, tímido, tinha arregado, e estava só olhando de longe. Os novos caras arriscaram umas passadas de mão na barriga dela, subindo em direção aos peitos, mas sem agarrar nada.
O outro guardião chegou até a afastar uma ou duas mãos mais insistentes, mas eu estava só lá olhando, vendo ela virar a bundinha linda e rebolar bem na cara dos caras... O mais bizarro era o cara do cavanhaquinho, que beijava a minha mão e punha a minha mão nela... Como diz minha amiga Dani, homem é tudo paga-pau.
– Melhor subir a calça – eu disse pra ela, sempre numa boa –, que já já eles vão perder o controle...
– Vamos tomar uma cerveja – estava insistindo o guardião do outro lado. Ele parecia concordar comigo que era hora de parar. Ou será que era ele que estava com ciúmes? Percebi que ele já estava se achando enturmado. Tudo bem, devíamos alguma atenção para um guardião assim dedicado.
Eu nunca tinha visto minha mulher com um sorriso tãããão exultante. Mas, por precaução, quando ela começou a baixar a calça de novo, eu disse: – Chega. Quem viu os pentelhinhos viu, quem passou a mão na bundinha passou. Já deu, né?
Ela fez que sim, sem insistir. O guardião, visivelmente aliviado, pulou do palquinho e foi abrindo caminho na direção do bar. Colei nela, e o cavanhaquinho colou em mim. – Quero fazer xixi – ela disse, e o guardião guinou para o banheiro.
Na fila do banheiro, finalmente olhamos uns para as caras dos outros sob a luz branca, sem o estrobo nem as manchas psicodélicas. Mas o cavanhaquinho continuava meio obcecado.
– Você canta, né? – ele me perguntou.
– Ué, até canto, mas como você sabe?
– Tenho a maior admiração por um tiozinho que tem uma mulher dessas. Só cantando. Eu estou tendo umas aulas de violão – ele fez, meio confuso. – Ela é a mulher da minha vida – acrescentou, – o que é que eu faço?
– Eu acho que é da minha vida – eu disse.
– E onde é eu vou para conhecer pessoas legais? – ele continuava esquisito.
Aí vagou um reservado no banheiro, e o guardião nos puxou, eu e ela, pra dentro, deixando o cavanhaquinho falando sozinho. Estava bem espremido lá. – Vamos cheirar – ele disse.
Ela olhou pra mim e fez baixinho: – Não quero.
O guardião estava revirando um bolsinho na perna da bermuda furiosamente. – Tenho certeza que estava aqui. – Virou o bolso no avesso, mas não estava. Ele saiu da cabininha, dizendo: – Já volto.
Ela aproveitou pra abaixar a calça e a calcinha, mijar se apoiando em mim, e perguntar: – E aí?
– Deixa rolar mais um pouco – eu disse –, nós vamos ter uso pra essa energia...
Na verdade o guardião parecia mais esperto do que os outros (tinha sabido se aproximar), e ao mesmo tempo menos esperto (naquele momento ele tinha a certeza de que estava no comando de alguma coisa – não estava –, e de que ia se dar bem – não ia).
Ela puxou a calça pra cima.
Bateram na porta. Era o guardião, com um saquinho instantâneo. Nunca vi nada tão expresso, deve ter demorado mais ou menos um minuto. O tempo de uma mijada dela. Começou a dividir o troço, sobre uma prateleirinha (supostamente) para colocar a bolsa em cima.
– Deixo uma linha pro cavanhaquinho? – ele perguntou.
– Deixa – eu disse.
– Não deixa – ela disse.
– Vou deixar – o guardião decidiu, – ele é meio bobo mas é gente.
Quando saímos, o cavanhaquinho continuava absurdamente tomando conta da porta do reservado minúsculo, com as costas nela, como um segurança.
– Entra aí, tem uma coisa pra ti – disse o ex-guardião para o cavanhaquinho, que olhou pra dentro e falou: – Oba. O ex-guardião partiu para a pista. Ainda dei uns passos na direção dele, mas a mão dela me segurou por trás. – Quero ir embora já – ela disse.
Demos meia volta. Paramos na porta, porque eu sabia que, ainda por cima, eu tinha dinheiro a menos do que a conta. Mas eu moro bem do lado da Lôca. O leão de chácara mandou: – Paga uma das comandas, sai e vai buscar o dinheiro; ela fica aqui com a outra comanda. – E, pra ela: – Pode voltar lá pra dentro.
Ela me olhou suplicante, mas esse era o melhor jeito mesmo. Saí, virei a esquina, subi pro meu apartamento, voltei em instantes com a grana, paguei a comanda e resgatei a mulher. Saímos os dois, e em mais um minuto estávamos em casa.
E eu a comi como se fosse um gang bang, o tesão de uns oito caras em um só...
*
Ela me ligou agora pouco, da loja, de lá do shopping no município vizinho.
– Foi bom anteontem, né? – eu disse.
– Meio estranho, mas foi...
– Eu gostei. Voltei a ter orgulho de você...
– Assim é fácil, né? Com um monte de cara babando em mim...
– Não é bem isso. Tipo, se você fosse stripper de verdade, eu não ia te namorar...
– ?
– O que eu acho sensacional é você num momento estar lá, rebolando a bunda à vontade na cara do povo, e uns minutos depois estar lá na portaria quase assustada, com aquela cara de menininha dizendo “não me deixe sozinha”...
– ...
– Quer dizer, sair e entrar desses estados, sem ter compromisso com nenhum. Assim não tem mesquinharia, rotina de casal que resista... Você sabe que isso não vai se repetir de novo, não exatamente desse jeito, não é?
– Sei.
– Então saiba que eu te amo.
(publicado no blog Elas Por Elas)
Great!!! Além de divertido, excitante!
Publicado por: Ada às maio 4, 2004 01:05 AMMuito bom! Tú escreve bem a beça. Vou voltar aqui sempre. Dá uma ida lá no Cinéfilos.
Publicado por: Chefe às maio 19, 2004 06:03 PMcool
Publicado por: k às maio 28, 2005 09:47 PMSe essa história toda for verdade, então a vida real é mesmo muito mais emocionante que a ficção - algumas vidas reais, pra ser exato.
Publicado por: Bruno Urbanavicius às junho 7, 2005 01:49 PMescreve mais,to esperando!!!!!!!!1111
Publicado por: Amora às janeiro 28, 2006 08:56 AMSem comentarios pura putaria ..essa mulher deve ser uma vagabunda e esse cara um troxa
Publicado por: Paola às março 7, 2006 02:34 PM