fevereiro 26, 2004

>TECNOTOPIA RECUPERADA

Uma entrevista minha para o site do Itaú Cultural sobre o processo de tradução de Neuromancer, e mais algumas respostas sobre o mesmo assunto para os leitores do site Leia Livro, da Secretaria Estadual de Cultura

O que mais pode ser dito sobre um clássico que não só influenciou uma geração mas foi a principal influência do hoje entendemos por cibercultura? Muito já foi falado e escrito sobre Neuromancer (e aguardem as homenagens para 2004, quando se comemoram vinte anos da publicação original): o que resta a ser dito, no entanto, é uma boa notícia para os leitores brasileiros.

Se você não esteve perdido dentro de algum mundo virtual nas últimas semanas, sabe que a obra-prima de William Gibson acaba de ser republicada no Brasil. Esgotado há quase uma década, o livro era dificílimo de encontrar até mesmo em sebos. Agora, com uma capa decente e charmosa, que lembra a do terceiro livro de Gibson, Mona Lisa Overdrive, e nova tradução (com direito a elucidativas notas de rodapé), Neuromancer está aí de novo para o deleite dos ciberpunks de plantão, que nunca perderam a esperança. Confira a seguir a entrevista com Alex Antunes, responsável pelo upgrade na tradução. (Fábio Fernandes)

CIBERCULTURA: O que você fazia em 1984, no ano da publicação de "Neuromancer"? Você se considera um ciberpunk?

Alex Antunes: Bom, em 1984 eu estava abandonando a faculdade sem terminar (jornalismo e depois cinema, na ECA-USP) e montando minha banda, o Akira S & as Garotas Que Erraram, cujas influências musicais (Chrome, Cabaret Voltaire, Yellow Magic Orchestra, Clock DVA, Shriekback) já tinham essa mistura de enfoques, o ciber... e o punk! O Chrome e o Cabaret Voltaire, inclusive, faziam isso desde 1977, ou seja, eles são sincrônicos com o movimento literário ciberpunk, e não influenciados por ele.

No Akira S a gente usava computador quase desde o início, um Gradiente - e no começo o Akira ainda rodava dados em fita cassete, antes daqueles disquetes moles. E o Akira (começamos como um duo, portanto eu era "as garotas”) já gostava de programar algumas baterias e outros timbres de um jeito bem espasmódico, como um ser humano jamais tocaria, ou seja, a gente já estava num dos fundamentos da música tecno. Então, até que estávamos em sintonia com essa onda, sim, sem saber. Mas na época a gente era chamado de dark mesmo.

CC: E o que você está fazendo hoje?

AA: Estou voltando ao jornalismo, com a revista B*Scene, que para mim é o que a Bizz seria hoje se nossa equipe "clássica” não tivesse sido dispersada. Estou tentando escrever meu segundo romance (O Resolvedor De Problemas, depois do A Estratégia de Lilith), e com o meu livro de ensaios no prelo (P.O.P. = Plano de Ocupação Psíquica). Tocando de vez em quando com a minha banda eletrônica, a Da-Babalon Band; e organizando um festival de MPB moderna, o Com:Tradição.

CC: Qual o fascínio que Neuromancer exerce sobre você? Você acha que esse livro foi fundamental para a sua geração?

AA: Quando eu li o Neuromancer, me senti como quando eu tinha uns 13 ou 14 anos, e li Raymond Chandler pela primeira vez. O Chandler ajudou a formar a minha ética pessoal, a coisa noir do "investigador solitário”. Quase 20 anos depois, quando li o Neuromancer na primeira edição brasileira, o William Gibson me renovou MUITO agudamente essa sensação, a de que tinha espaço para o franco-atirador seguir sabotando a máquina e escapar tomando só umas porradas...

Gibson para mim é o anti-Orwell, é um cara da pró-nóia... E muito importante para a minha geração, internacionalmente falando, claro. A minha leitura de Neuromancer é extremamente otimista, como um Matrix ao contrário. É menos as máquinas querendo ser Deus do que Deus querendo ser as máquinas, ou mostrar as divinas possibilidades através das máquinas... Eu tomei isso pelo lado psíquico, como metáfora, e não pensei em virar hacker nem nada.

Já o Akira, lá em Amsterdã, foi fundo na coisa dos computadores. Quando ele viajou, me deixou o Gradiente dele de presente, porque ele ficava assombrado quando eu escrevia minhas fichas de pesquisa à mão - e eu joguei o Gradiente fora sem nem ligar! Escrevo as fichas à mão até hoje.

Mas eu não teria virado escritor sem um computador. A Patricia Highsmith conta que no começo de carreira, nos anos 50, datilografava novamente seus originais de ponta a ponta várias vezes, quando eles ficavam muito "sujos” com as correções. Simplesmente não sei como havia escritores antes do computador. Como o próprio William Gibson - que escreveu Neuromancer numa Remington de 1938...

CC: Como foi o processo de tradução? Conte tudo, desde como você acabou sendo o tradutor do livro até sobre o processo propriamente dito: na folha de rosto está escrito que você traduziu a partir da primeira edição traduzida por Silvio Alexandre, mas dá pra ver que está muito diferente - e muito melhor, diga-se de passagem. Você aproveitou algo da primeira edição?

AA: A primeira tradução, creio, era da Maya Sangawa. O Sílvio Alexandre era o diretor da coleção, e deve ter dado uns tapas no que achou inadequado - apesar da tradução estar creditada para os dois. Fui chamado pelo editor da Aleph, o Adriano Piazzi, filho do Pierluigi Piazzi, que lançou a primeira edição. Entrei na qualidade de "expert em cyberpunk e literatura policial” - e me escalei para escrever um prefácio, que é o que me diverte.

Supostamente eu ia só fazer uns ajustes de estilo, arrumar uns trechos que ficaram muito gongóricos em português. Mas, quando comecei a cotejar com o original vi que o buraco era mais embaixo, que ia ter que interferir. Só que eu não ia querer digitar o livro inteiro, então escrevi "por cima” da tradução anterior. Não sobrou muita coisa dela, não. Quase nada, a bem da verdade.

Pedi quatro semanas para trabalhar e acabei levando sete, trabalhando no livro diariamente. O bom é que o Adriano é um cara perfeccionista, quase neurótico, e ficou revisando exaustivamente minha versão e me bombardeando de questões. Chegamos a fazer trocas de dezenas de e-mails para definir a tradução de um único termo, como "vatgrown flesh”, por exemplo...

E, na véspera de mandar o livro para a gráfica, ele ainda resolveu sugerir mudanças em dúzias de detalhes só na primeira parte, que é a mais intrincada e nebulosa... Aí eu aproveitei o embalo e reescrevi essa parte inteira de novo, em uma madrugada. Eu também sou obsessivo, então fiquei contente com a maluquice. Acho que ninguém burila uma tradução tanto assim.

O Adriano perguntou: e aí, você assina sozinho a nova tradução? Eu disse: eu não sou tradutor, e se não existisse uma tradução anterior eu nem teria aceitado o trabalho. Mas no fim eu acabei traduzindo. Com o criticismo dele. Aí decidimos por essa forma: Antunes baseado em Sangawa e Alexandre, com revisão da tradução de Piazzi... Mas isso não acabou ainda. O livro já foi re-re-re-revisado para a próxima edição e eu prometi re-re-re-re-visar os diálogos, para não ficar nenhum travessão fora de lugar.

CC: As notas de rodapé são muito boas e elucidativas - mas você acha que elas ainda são necessárias hoje, vinte anos depois da publicação do livro? O público-alvo de Neuromancer não entenderia logo de saída conceitos como arcologias e Sprawl?

AA: O Gibson tem essa estratégia narrativa de jogar umas coisas diferentes sem explicação, para esclarecer lá na frente, e eu não ia querer estragar esse barato. Por outro lado, se você não é um junkie teórico e nem conhece detalhes da cultura japonesa (quem aí já tomou merepedina, ou sabe o que é uma meia "tabi"?), então você vai lendo e atropelando várias palavrinhas estranhas, o que pode ser aflitivo.

E nenhum leitor normal tem paciência de parar a leitura para pesquisar na Internet, ou anotar para pesquisar depois. Mas também não queríamos deixar o texto cheio de penduricalhos. No fim, deixamos todos os detalhes sobre drogas e cultura oriental (afinal são as obsessões do cara), e algumas coisas do universo gibsoniano que só são esclarecidas nos outros livros dele. E também alguns detalhes religiosos e filosóficos inspiradores, ou referências científicas ou históricas realmente interessantes e sugestivas.

Duvido que uma só pessoa entenda disso tudo - se bem que para diferentes pessoas algumas notas devem ser mais óbvias. E o público-alvo é o maior possível, claro, não só os "iniciados". Eu particularmente acho algumas referências extremamente charmosas, como o quadro do Duchamp que vai parar na estação orbital, o "efeito Coriolis" que desvia a trajetória de um objeto voador em relação a um corpo que gira no espaço, o suposto quarto dos anões no Palácio Ducal de Mântova...

Várias outras notas possíveis caíram. Só bati o pé para deixar duas observações de minha predileção, as que localizam passagens no texto onde ele dialoga com o William Burroughs e com o Philip K. Dick, que são meus ídolos - e do Gibson também, pelo visto.

Respostas para os leitores de Leia Livro:

Leia Livro: A crítica internacional tem detectado uma crise na SciFi, com os últimos lançamentos do gênero nos EUA e na Europa obtendo pouca repercussão e apresentando qualidade duvidosa. Será que os livros SciFi não podem mais competir, em termos de imaginação, com aquilo que Hollywood oferece? A ficção científica estará fadada a desaparecer como gênero literário para subsistir apenas como gênero cinematográfico?

AA: Penso que a competição não é com Hollywood, mas com a própria realidade. A apropriação de certas tecnologias de ponta pelo homem médio, através da popularização da informática, está mudando a noção do que costumávamos projetar como "o futuro", e principalmente a noção do papel do indivíduo nesse futuro projetado. O público está integrado ao assunto.

Nesse sentido, a ficção científica não consegue mais deslumbrar os leitores com a especulação do avanço tecnológico em si (como nos livros de Jules Verne), ou da descoberta de outros mundos exteriores assombrosos que ele possibilitaria, ou mesmo de uma certa paranóia em relação ao controle da sociedade através dos meios tecnológicos (como no 1984 de Orwell).

O que alguns escritores de ficção científica (como Philip K. Dick, J.G.Ballard e Robert Silverberg), livres pensadores (como William Burroughs e Timothy Leary) e cineastas (como Stanley Kubrick e David Cronenberg) vêm notando desde os anos 60 é uma fusão inesperada entre a mente humana e a tecnologia que ela cria, gerando um outro nível de consciência. Note que estou incluindo as drogas sintéticas entre os avanços tecnológicos - e "avanço", aí, vai no sentido técnico, não moral, para evitar a polêmica.

Assim, para fazer sucesso, uma obra como Matrix, ou como o próprio Neuromancer, tem que trazer um pacote satisfatório que combine especulação tecnológica com inquietação existencial; aventura física com aventura filosófica e espiritual. Durante alguns anos o cinema ganhou um bônus nessa disputa, com o boom dos efeitos especiais digitais, uma coisa vistosa porém ingênua.

Mas creio que, a partir daqui, as mesmas exigências de complexidade vão atingir seja a literatura, a música, o cinema, sejam os games, outra forma importante de arte + tecnologia + entretenimento. E, mais do que em Hollywood, acredito no Japão como pólo criativo dessas novas formas. O conteúdo está lá, só falta uma certa "descontração" autoral. O chamado terceiro mundo, a periferia do capitalismo, também pode gerar obras híbridas interessantes, a partir de uma visão peculiar da tecnologia.

LL: A literatura cyberpunk quebra as barreiras entre os componentes orgânicos e artificiais da raça humana, que se misturam. Ao traduzir o Neuromancer o Sr. Antunes eventualmente sentiu necessidade de conciliar o texto do Sr.Gibson, cuja concepção se concentra no conteúdo eletrônico e exato da mente humana em detrimento do seu componente orgânico e biológico, com a visão romântica da SF anterior que visava um futuro conciliador desses elementos - mas ainda separados? Isto é, o texto do Neuromancer rompeu definitivamente com o romantismo na SF, ou deixa antever um retorno ao passado?

AA: Eu penso que Gibson combinou elementos muito urgentes e atuais - essa fusão entre a percepção humana e a tecnologia de que eu falei na resposta anterior - com elementos da literatura de gênero tradicional. Mas, no caso, usou mais elementos do romance policial noir, o romance de investigação policial/ existencial inventado por Dashiel Hammett e aperfeiçoado por Raymond Chandler na década de 40 do século passado.

O estilo urbano, intuitivo, oblíquo, provocador, heterodoxo e não-cerebral da investigação noir combina perfeitamente com a realidade "em camadas" do universo virtual. E a atitude do hacker Case, protagonista de Neuromancer, diante da possibilidade da sua própria destruição, é completamente romântica.

Então, nesse tipo de ficção o desenvolvimento tecnológico é a porta para revelar as pulsões mais sombrias do ser humano - e não para afastá-lo delas, como na visão positivista de "progresso". A mesma lógica pode ser vista em obras como Videodrome, eXistenZ, Crash (de Ballard) e A Mosca, filmadas por Cronenberg, ou em Blade Runner, ou mesmo em Matrix, só para ficar no que há nas locadoras de vídeo.

LL: Li alguns trechos do Neuromancer. É um texto difícil que exige esforço do leitor, principalmente dos desacostumados com a linguagem cyberpunk, como eu. Então gostaria de saber: a) o Sr. Antunes foi contratado "profissionalmente" para realizar a tradução, e portanto limitou-se a re-escrever o texto da forma mais exata e equivalente possível (como se faz com a tradução de um texto técnico por exemplo), ou, b) o Sr.Antunes aceitou realizar o trabalho por estar pessoalmente envolvido com o estilo, e assim re-escreveu o texto recolorindo o resultado com sua própria vivência e interpretação?

AA: Bom, a forma mais "exata" tecnicamente falando não é necessariamente a "equivalente" em literatura. Posso dar um bom exemplo. Logo na primeira página do livro o sorriso metálico de um barman russo é descrito no original assim: "his teeth a webwork of East European steel and brown decay". Tente traduzir isso ao pé da letra em português e vai ficar estranho, um tropeço no meio do texto, como acontece na edição anterior.

Então eu usei a expressão "uma dentadura que mais parecia a Cortina de Ferro oxidada", recombinando as referências ao metal estragado e ao leste europeu. Não é literal, mas preserva melhor a intenção do autor, a graça e a ironia do original. Então eu acho que, em um ou outro caso, cabe um pouquinho de liberdade, de transcriação, até por fidelidade ao espírito do original.

Mas ao mesmo tempo eu tinha que ser cuidadoso com um texto e um autor que eu respeito - portanto jamais seria o caso de "recolorir" o trabalho alheio com as minhas próprias tintas. Eu diria que é mais como tentar psicografar um Gibson que pensasse em português.

LL: Alex, ao ler um texto de ficção-científica em espanhol, percebi a dificuldade de traduzir certas palavras. Como foi a tradução de William Gibson, que pega pesado na criação de neologismos e novos mecanismos e parafernálias eletrônicas?

AA: Como Gibson deriva vários conceitos e neologismos de formas científicas e jargões existentes, o principal cuidado foi descobrir se existiam palavras em português já consagradas em alguma especialidade, mais indicadas para gerar o termo adotado na tradução. Um exemplo é a carne humana ou carne animal artificial, que ele chama de "vatgrown flesh", que poderia ser algo como "carne crescida em tanque" ou "carne cultivada na estufa" ou coisa parecida. Mas não podia ser uma expressão tão descritiva, porque no contexto da história ela é uma coisa corriqueira, normal. Minha opção espertinha seria "carne de proveta", mas acabamos ficando, eu e o editor, com um mais sóbrio "carne de cultura".

Outro caso foi o do "constructo", que é a personalidade de um homem morto arquivada num cartucho de memória binária. A tradução anterior tinha substituído esse termo por "espectrom", acho que para dar um tom tecnológico e fantasmagórico ao mesmo tempo. Como idéia nem é ruim, mas, se o autor não esboçou nada parecido, acho abusivo. Eu preferi recuperar o "constructo" original, mais neutro. Isso após pesquisar o que o termo "constructo" significa, em português, para a física e para a psicologia, por exemplo, evitando gerar significados falsos, confusos ou contraditórios.

LL: Por quê a ficção científica brasileira jamais atingiu o destaque que outros gêneros literários - o romance regionalista, o ensaio sobre o país - lograram alcançar no século 20? A cultura brasileira não recebe bem este tipo de literatura?

AA: A literatura de gênero, no século 20, tem um forte componente de cultura pop industrial. Dá para ver isso no policial, na ficção científica, no terror etc. E eu penso que uma cultura pop forte só pode ser gerada em um país de identidade cultural bem definida, para que as modernas mitologias se justaponham às arcaicas. Assim, o Super Homem ocupa o lugar de Hércules, Marilyn e Madonna atingem uma dimensão mítica etc.

O Brasil ainda está depurando lentamente sua receita, construindo sua identidade a partir de diferentes matrizes não só étnicas, mas principalmente éticas. Por exemplo, o nosso "herói nacional", Tiradentes, além de ter seu papel histórico sobrestimado, ainda teve seu layout completamente decalcado do de Jesus Cristo - nem a aparência real dele era aquela. Ora, porque o sacrificado Tiradentes, e não o vitorioso Dom Pedro I, o proto-playboy? Talvez exatamente porque esse nós conheçamos - bem demais.

Alguns dos nossos autores mais essenciais tematizam de alguma maneira o próprio processo da construção dessa identidade - que passa pela tensão entre a "elite" e o "populacho", suas respectivas morais, e sua negação recíproca -, como Mário de Andrade, Gláuber Rocha, Nelson Rodrigues, Jorge Amado. O que eles dizem talvez seja traumático, dilacerado demais para alimentar uma cultura pop, industrial, de derivação.

E a persistência de um gênero como o romance regionalista ainda está mais ligado à resistência atávica dos "ingredientes" à mistura. Ou seja, só no dia em que Macunaíma virar personagem pop dos quadrinhos (haverá coisa mais óbvia?), o Brasil estará começando a se aceitar e entender. Para mim esse é um pouco o papel de Cidade de Deus, um ótimo filme... de gângster.

Publicado por allxsexs às fevereiro 26, 2004 07:56 PM
Comentários

Acho que o Lincoln Olivetti deveria escrever seus arranjos em uma Remington 1938.

Publicado por: Ampélio às março 19, 2004 09:34 AM