Relatos e reflexões sobre as gravações do álbum dos Ex-Exus em Recife
Jomard Muniz de Britto levou alguns integrantes da banda recifence Comuna, que havia trabalhado num projeto com ele, aos bastidores de um show de Caetano Veloso. Quando comentou que eram "ex-experimentais", Caetano retrucou, brincando, "ex-exus". Estava batizada a próxima banda de três dos cinco communards. Foi esse nome que me chamou a atenção para o grupo - e que me levou a não perder a primeira oportunidade de assisti-los, na Feira da Música de Fortaleza de 2010.
Quando acabou o show, lá estava eu no camarim, determinado a produzir a banda. Ao longo do show, eles tinham mostrado uma forte disposição ao confronto com expectativas mais babacas do público, e músicas bem interessantes já à primeira audição. Havia um elemento experimental, sim, mas não aquele experimentalismo autista e alienante do ouvinte. Era algo mais a serviço da provocação - e provocação aí não tem nada a ver com humor fácil, ou com a suposta "irreverência" do rock. Tinha algo de esquisito, um pano de fundo emocional inquietante, algo ameaçador.
Como ameaçador é o vazio psíquico da praia de Iracema, em Fortaleza, depois que o turismo sexual baniu de lá as pessoas e a história. Pois foi passeando pela praia de Iracema que eu vi passar um cara com uma cabeça de cavalo. Mais para centauro às avessas do que para palhaço. Inquietante. Mais tarde, no show dos Ex-Exus, veria que aquela é uma das máscaras que eles usam. Assim como, no fim da apresentação, levantam placas de APLAUSOS e outras ordens, atrapalhando a espontaneidade do público em aplaudir, ou não. Tanto as máscaras quanto as placas são recursos muito simples, mas bastante efetivos.
Mais efetivos até que - foi a minha impressão naquele momento - os arranjos. Fiquei com a sensação de que eles poderiam ser trabalhadas com instrumentos inusitados ou eletrônicamente, para conseguir o ambiente denso e assombroso que as músicas pareciam pedir, expandindo um pouco o contexto de rock (guitarras, baixo, bateria, um pouco de efeitos de sintetizador) da apresentação. Iniciado o contato, fizemos uma breve troca de e-mails nos quais se estabeleceu muito rapidamente uma relação de confiança. Justifiquei minha intenção de produzir a banda dizendo que "um cavalo me mandou", o que foi bem aceito. Assim como a co-produção de Leo Chermont, do Casarão Floresta Sonora de Belém.
Quando ouvi as músicas gravadas para os dois primeiros EPs da banda, a impressão se manteve: as composições eram boas, mas precisavam de mais foco e cuidados do que tinham recebido, gravadas em condições precárias e/ou ao vivo. O que havia a mais, além do ouvido no show, era um certo elemento regional ou de música brasileira, que em um primeiro momento achei indesejável. Tendia a preferir um contexto mais cosmopolita, até em função dos desdobramentos do pós-manguebeat, quando, por um lado, Chico Science virou uma espécide de Raul Seixas local, messiânico e fundamentalista, e por outro lado muias bandas voltaram a adotar modelos pop internacionais acriticamente, cantando em inglês inclusive, ou usando nomes bestas como Rádio de Outono, em um lugar em não há nada remotamente parecido com outono.
Os Ex-Exus me pareciam um antídoto para essa falsa dicotomia pernambucana. Não uma provocação como a dos Playboys de Olinda, que em "Monólogo aos Ouvidos dos Imitadores" sacaneavam os roqueiros tocadores de alfaia, mas a superação mesma da dicotomia, com um leve acento regional do qual é impossível (ou não é o caso) de escapar, mas afirmando a perceção cosmopolita de Recife (que, aliás, é real, e não simulada). Foi por isso que cheguei à cidade dizendo aos Ex-Exus que a única coisa que me incomodava de leve, no som deles, eram algumas passagens que soavam um pouco como Mombojó. Nada especificamente contra o Mombojó. É que evidentemente essa é uma banda de bons moços com respeito pelas raízes - e eu pensava nos Ex-Exus mais como uma banda de maus-moços possuídos pelas maldições (CONTINUA).
Publicado por allxsexs às fevereiro 27, 2011 08:00 PM