março 13, 2011

>APONTAMENTOS EM PSICOGESTÃO: PRODUZINDO OS EX-EXUS PARTE 2

A tríade ativa no processo de produção e o fim da "era dos produtores"

É aí que começa a entrar a noção de "psicogestão" na produção. Há vários enfoques possíveis ao se produzir um artista, sendo três os principais. Um é a questão da leitura exterior, de fora para dentro. Poderíamos chamar, um pouco perigosamente, de adequação ao, ou encaixe no, assim chamado mercado. Na verdade eu não gosto nada do termo. Mas exatamente por ser um conceito potencialmente ofensivo a quem cresceu em uma época em que se valorizava a originalidade, a diferença, a individualidade radical, a capacidade de afrontar a percepção mediana (ou medíocre, se quiserem), vou colocá-lo à frente. Porque, ofensivo ou não... há mesmo um mercado, onde o artista oferece seu produto. Que, no limite, é ele mesmo. E aqui as coisas começam a ficar realmente perigosas.

Mas essa também é a graça. Quem, em sã consciência, se ofereceria, inteira e sinceramente, a um mercado capitalista? Como ensinam as prostitutas: tudo, menos beijar na boca. E, no entanto, o que se espera do artista pop é isso. Que, através de determinados filtros (de produção), ele ofereça alguma forma de verdade. O que há em comum em Elvis, Lady Gaga (sim), Gil, Lennon, Dylan, Prince, Madonna, Bowie, Elton John, Lou Reed, Robert Smith, Jagger, Miles Davis ou mesmo Chico Buarque é que eles oferecem a verdade.

Não necessariamente uma verdade ostensiva, biográfica, programática, linearmente decodificável, mas um produto (ou uma arte ou, mais precisamente, um produto e uma arte) que parece emanar de sua experiência pessoal e instransferìvel, com um grau suficiente de entrega emocional.

Mas, ao contrário do blues, do soul, do reggae roots, do samba tradicional, não se exige no pop uma subordinação pessoal e emocional a seus fundamentos éticos e estéticos. O pop é um jogo livre e sem regras claras, ou melhor, com regras deliberadamente dúbias - para o bem e para o mal. E, portanto, potencialmente mais aventuroso. (Notem que não citei bandas. Nem suicidas/ derrotistas como Brian Jones, Syd Barrett, Jim Morrison, Sid Vicious, Kurt Cobain. Nem artistas estratégico-cerebrais como Zappa ou David Byrne. Desses casos falarei mais adiante).

Assim, começamos a caminhada simultaneamente de dois pontos frequentemente antagônicos. Um é o "mercado", ou como o artista e sua arte (música, discurso, aparência etc) serão lidos em um contexto (a cidade, o país, o gênero e o subgênero musical, a faixa etária e/ou social, o conhecimento da história da arte, o pertencimento a alguma tradição, a opção por determinadas tecnologias de comunicação etc). O outro é o da expressão pessoal, da idiossincrasia pura, da (tradução da) verdade pessoal absoluta (e absoluto aí não significa compreensível, mas frequentemente o contrário, o abstruso e o indizível). E o que faz a mediação entre esse mercado, ou ambiente coletivo, e a pessoalidade em suas pulsões mais misteriosas (ou mesmo inconfessáveis), caminhando de dentro para fora do artista?

Essa é a produção em si. O fator que completa a tríade. É isso que significam os valores de produção: uma tradução de uma experiência interna e eventualmente intensa (ou mesmo penosa) em um produto audível, fruível, "consumível". Não estou falando em diluir, mas em polir, como o trabalho que revela e valoriza a jóia bruta. Ou não: há produtos que podem (ou devem) ser vendidos em bruto mesmo, com um pouco de terra e merda em volta.

Donde que as últimas três ou quatro década, onde foram prevalecendo progressivamente os valores de produção em detrimento da composição, por mais que tenham embutido experiências positivas e necessárias à humanidade (a noção de música de timbres, do estúdio como laboratório criativo, das mídias - tocadiscos e vinis, por exemplo - como instrumento, da contaminação pop pela música de vanguarda: concreta, minimalista, atonal, sintética), não deixam de ter embutido também uma mentira.

Um certo fetichismo yang-yang, da forma pela forma, do acabamento pelo acabamento, que combateu, como eu disse, a noção de composição. Numa ponta positiva, foi a era pós-Kraftwerk, que desagua na eletrônica apropriada pelas periferias (kuduro, funk, bangra, rai etc). Da radicalidade mcluhaniana, que compreendeu muito cedo que o meio é a mensagem.

Mas na outra ponta, foi a era dos publicitários, dos teclados de síntese FM*, das mixagens e masterizações puxando para a predominância de frequências agudas não-naturais (o que Lobão chama de "ouvido de cocaína"), do padrão de sonoridade Los Angeles. Que esquecem que há sempre uma boca falando para um ouvido, e que, de um certo ponto de vista, não interessam nada os milhões e as tecnologias investidos para que essa boca chegue a esse ouvido, mas fantasmagoricamente ou telepaticamente interessam apenas essa boca e esse ouvido, como se não houvesse mediação entre eles.

Assim, uma produção saudável não "começa" exatamente em nenhum dos três aspectos da tríade principal - o artista, o público, a produção -, mas nos três simultaneamente, estabelecendo instantaneamente uma dinâmica entre a criatividade, a fruibilidade e a administração dos recursos de captura e reprodução que levam um ao outro (e o outro ao um, não esqueçamos - toda comunicação é uma via de duas mãos). Essa é a psicogestão. Ela supõe que o produtor (como diz Miranda) seja uma espécie de médium. "(O produtor) enxerga a alma do artista. Aí faz o possível para que isso atravesse os fios, os computadores, as cordas, até chegar à alma do público, de alma para alma", diz ele.

Apenas que, ao invés de médium, eu diria xamã. Do mesmo modo que o xamã vai ao mundo dos espíritos para compreender e natureza possessiva da doença e negociar com o invisível a cura do paciente, o produtor vai ao mundo tecnológico (que aliás, segundo meu pai de santo alemão, tem uma natureza totalmente espiritual, ao contrário do que se pensa) para negociar a "despossessão" do artista abduzido por aquela obra (ou, mais exatamente, pelos arquétipos que são os guardiões/ encenadores daquele roteiro - voltaremos a esse assunto, quando discutirmos porque a ficção é mais "verdadeira" que a não-ficção).

Se o xamã-produtor for hábil nessa negociação, o espírito do artista será pacificado com o adequado aporte de seu trabalho no mundo. E é claro que isso não tem nada a ver diretamente com o quanto ele vai vender, mas com o quanto a obra é autocoerente, resolvida em si mesma. É por isso que, tão difícil quanto curar a si mesmo, é se autoproduzir. Claro que há xamãs poderosos o suficiente para se curarem a si mesmos, mas um ponto-de-vista exterior costuma ser útil e catalizador.

As fotos de divulgação vêm a ser as máscaras que consagram e celebram esse processo de liberação (se a despossessão for mal-conduzida, também pode matar o artista - falarei disso quando abordar o caso de Michael Jackson). E o que os Ex-Exus têm a ver com tudo isso? Bom, pra começo de conversa eles usam... máscaras. Depois eu desenvolvo.

NOTA: * Disse Brian Eno que "o sintetizador está para o órgão como a fórmica está para a madeira". Se é assim, a era dos produtores apresentou algumas das piores "fórmicas", como o bisonho timbre de saxofone do DX7 que enfeita alguns dos arranjos do Biquini Cavadão, que em algum momento foi considerado de bom gosto...

Publicado por allxsexs às março 13, 2011 11:03 PM
Comentários