COMO O DEBATE ENTRE O FORA DO EIXO E PERNAMBUCO MAIS ESCONDE DO QUE REVELA - E O QUE ELES TÊM, NA VERDADE, A TROCAR
O timing de Pablo Capilé não podia ser mais esquisito. Saindo de um congresso Fora do Eixo deliciosamente inteligente e afetivo (leia mais considerações AQUI), Capilé mandou no dia seguinte, pela Pós-TV, uma canelada na música do estado de Pernambuco que gerou uma polêmica totalmente avessa ao modo construtivo e propositivo da semana... Ou não. Agindo um pouco como o detetive noir que cutuca antes de entender, e não se furta ao quebra-pau, fez emergir um monstro de antipatias e meias-verdades. A grita na rede atingiu um nível opressivo, mais tenso ainda do que o de outros debates acalorados (como aquele que foi puxado por João Parahyba no ano passado), que constrangeu as pessoas que não se engajaram diretamente nela.
O que estaria em causa? Por um lado, há uma política do Fora do Eixo no qual um movimento desses faz sentido. Com a saída do grupo dos 13 da Abrafin, sai também dessa associação e da ala combativa do movimento uma espécie de “PMDB fisiológico”, o que permite que o nível político da discussão, das composições e da intervenção suba. Mas a pedra no sapato, o ponto mais fora da curva foi a presença, no grupo majoritariamente playboy dos 13, de um festival que tem real importância artística: o Rec Beat. Juntando-se o Rec Beat ao Abril Pro Rock, ao Porto Musical que já havia saído antes, e ao Coquetel Molotov que nunca foi da Abrafin, além dos recorrentes problemas do coletivo local Lumo com gente da cena, Pernambuco de um lado e o Fora do Eixo e a Abrafin de outro chegaram à ruptura total. Ainda havia na associação o festival instrumental Mimo, de Olinda, que saiu após o início da polêmica.
Há um elemento estranho nisso. No próprio debate da Pós-TV, eu já dizia que, entre as principais premissas do manguebeat (o movimento que colocou Pernambuco no centro do cenário da MPopB), estavam todos os termos-chave para compreender o que acontece na cena de hoje: descentralização, coletivismo, relação entre arte e tecnologia, quebra do antagonismo entre pop e popular (que desemboca no sucesso “branco” do funk e do tecnobrega). Foram esses os quatro temas que eu propus para a Semana Chico Science em Recife em 2010. A minha tese era (é) de que o maguebeat é uma espécie de pai espiritual dos foras do eixo, e de outros fenômenos atuais em rede. Como brincou Pedro Alexandre Sanches, na mesma conversa da Pós-TV, seria então um caso de parricídio?
Se aparentemente partem dos mesmos princípios político-culturais, porque os herdeiros do manguebeat e os fora do eixo não só não conseguem convergir, como se agridem frontalmente, e não é de hoje? Avanço aí algumas considerações. Primeiro que, apesar de fazer essas proposições, as maiores bandas do manguebeat ainda vieram a tempo de pegar o fim da era das grandes gravadoras. Teria sido interessante ver Chico Science conduzir o processo de saída da Sony para a independência (o que parecia ser só uma questão de tempo, visto que a Nação Zumbi quase foi dispensada da gravadora entre o primeiro e o segundo álbuns, e só ficou por demanda de outras subsidiárias da major, como a Sony japonesa e a holandesa).
CHICO EX-QUASE-INDIE, OU A BATALHA QUE NÃO HOUVE Do jeito que os fatos se sucederam, a saída do grupo da gravadora – e o afastamento do produtor Paulo André – ficaram parecendo consequência da morte de Chico, e não um caminho historicamente natural. E a Nação Zumbi se cristalizou num grupo que é ídolo das periferias. Sobrou para Zeroquatro fazer essa transição – mas o caráter sempre outsider do Mundo Livre não fez chamar muito a atenção para a sua ruptura com o mundo corporativo, como se a distribuição major dos primeiros álbuns é que fosse um acidente de percurso. China, o principal algoz pernambucano do Fora do Eixo, não deixa de ser um efeito residual dessa época: é um “sortudo do sistema”.
Sem ser notavelmente inspirado, nem quando surgiu guri no Sheik Tosado nem na carreira solo, China aparentemente nunca teve que se enfrentar com a falta de recursos. Seu projeto de releituras de Roberto Carlos ao lado de músicos do Mombojó, o Del Rey, se assemelha aos Sebozos Postizos (membros da Nação e do Mundo livre relendo Jorge Ben): cabe perfeitamente na estética pós-tropicalista do manguebeat, e não deixa de ser uma fonte (totalmente legítima, diga-se) de cachês não-autorais. Uma espécie de “cover do bem”, melhor dos que os próprios artistas homenageados fazem hoje.
Mas, se China (que pessoalmente é um cara agradável e cordial) foi poupado de turbulências, não é o caso de outros artistas da terceira geração do manguebeat – aquela que levou a exploração eletrônica intentada pelo “cérebro sampleador” de Chico às últimas consequências. É o caso do DJ Dolores, cuja argúcia detectou as possibilidades do tecnobrega muito precocemente – mas que só foi bem sucedido em sua carreira internacional. E de Otto que, depois de uma fase bem atribulada, se reinventou como artista “popular”. Mas é um popular que não consegue inventar seu mercado médio sozinho: tem cachê caro demais para os festivais do “precariado”, e é inusitado demais para os públicos de massa. Resultado: nosso maior artista, o “Roberto Carlos macumbeiro” (que é praticamente TUDO de que o Brasil precisa artisticamente; mais considerações AQUI e AQUI), parece encapsulado numa dimensão que, se houvesse compreensão de parte a parte, seria aquele que as tecnologias somadas de Pernambuco e do Fora do Eixo poderiam e deveriam criar.
DIVERSIDADE PERMANENTE Não obstante essa geração que caiu no “não mercado médio”, o manguebeat teve um efeito cultural bombástico e permanente em Recife. Falo da (quase) superação da oposição entre pop e popular. O rock tinha sido apropriado, por uma certa elite urbana brasileira, como uma negação da música de raiz. Em Recife e Olinda, no entanto, houve sempre um elemento de diversidade generosa presente na psicodelia brazuca de Lula Côrtes e do Ave Sangria, no hard-frevo de Alceu Valença, nos experimentalismos setentistas de Robertinho de Recife. Consolidando isso, o manguebeat veio para negar qualquer tendência misógina e anti-popular do rock local (e de quebra embananou o discurso hidrófobo anti-pop de Ariano Suassuna, “homenageado” pelo mundo livre com a canção “O Africano e o Ariano” e, anos depois, no genial trocadilho do nome do bloco Arriano Suasunga).
Na semana que antecede o carnaval nessas cidades, tornou-se normal o público que está em torno dos palcos de rock sair acompanhando os blocos populares, sem qualquer constrangimento. Isso converte Recife num “laboratório de Brasil” que, curiosamente, foi melhor entendido por Gutie (ex-empresário do mundo livre; empresário do Cordel do Fogo Encantando e do Lirinha solo), que usou em seu festival Rec Beat as tecnologias carnavalescas, enquanto Paulo André continuou para sempre prisioneiro de ter uma excrescente “noite do metal” no Abril Pro Rock. O Porto Musical, que Paulo André criou depois, e que contempla habilmente tanto essa questão da proximidade do carnaval quanto a realizar seminários internacionais, aproveitando suas conexões européias, acabou exclusivamente na mão de sua ex-sócia, Melina Hickson.
O quarto festival que completa a diversidade é o Coquetel Molotov. Mais bem-acabada expressão do capricho e dos caprichos indies, um legítimo festival de modos femininos (apesar de ter na trinca do grupo que o organiza Jarmeson de Lima, que tomou a frente da retaliação ao Fora do Eixo), o Coquetel Molotov não paga tributo ao “orgulho de raiz”, mas também não o paga ao rock misógino, o que o mantém num bom equilíbrio estético, e com liberdade de ciscar aqui e ali (Ana Garcia também é produtora do instrumental a Banda de Joseph Tourton, um dos grupos talentosos a emergirem na cena nos últimos anos).
E é exatamente aí que uma das questões que Capilé coloca parece fazer sentido. Se Pernambuco tem essa potência toda, inclusive com gestores públicos pinçados do movimento e sensíveis às questões culturais, como Rafael Cortes, coordenador de música da Secult, e o próprio Ministro da Informação do Manguebeat, Renato L, feito Secretário de Cultura de Recife, porque o contexto ainda é tão duro com as (aí sim, ao contrário do que Capílé disse) ótimas bandas que surgem? Porque a cena não se conecta e desenvolve? Porque inclusive as reputações internacionais que são construídas (Spok, Orquestra Contemporânea de Olinda) não repercutem no Brasil?
Creio que tem a ver com o fato do poder público ter abraçado muito cedo as propostas do manguebeat, mas de uma maneira mais marqueteira do que propriamente orgânica. A transição balcão-políticas públicas nunca se completou totalmente, e o estado, exatamente ao bancar alguns cachês altos, em épocas de festa, gera essa referência de valores irrealistas ao Brasil, só comparáveis aos praticados pelo SESC de São Paulo (óbvio que cachês altos são bons e bem-vindos – mas não podem ser tomados como padrão pelos artistas). Obviamente também não estou reclamando desses gestores que citei – que, no limite das suas atribuições, e sem um movimento que os municie e apoie, fazem o possível.
À PROCURA DE EXU No começo deste ano fui a Recife (ou mais especificamente a Candeias), no estúdio Casona, para as gravações de uma banda de Recife que muito me entusiasmou, os Ex-Exus (leia mais AQUI e AQUI). Uma característica dos Exus é superar a dicotomia entre a herança do manguebeat e a geração indie (aquela da qual se originou o Coquetel Molotov): é uma banda pós-macho pernambucano, chegando a ser grosseira em algumas colocações, mas nunca com um efeito roqueiro misógino, porque seu experimentalismo bizarro a todas as certezas desloca. Nem é de raiz (apesar de assumir seu sotaque) e nem decalca qualquer som gringo – apesar de ser bastante bem-informada sobre a produção internacional.
E é uma espécie de antimatéria do Joseph Tourton, meninos também bastante experimentais (com um tanto de dub, krautrock e lounge no som), mas de aparência e performance bastante mais “limpinha”. Pois o disco dos Ex-Exus, apesar de já ter sido gravado há vários meses, ainda se arrasta na fase de mixagem, por falta de recursos. Ou seja, senti na pele essa contradição entre a criatividade latente e as dificuldades do cenário. Já teria levado os Ex Exus a tocar em outras cidades (aliás os conheci em Fortaleza, na Feira da Música), mas não tive acesso a nenhuma curadoria que me permitisse fazer isso. Também brigo há anos para circular, sem sucesso, o Godzilla, de Macapá, outra banda que tem um ótimo potencial renovador do rock nacional.
E é aí que enxergo as limitações do Fora do Eixo. Nessa sua (de resto bem-sucedida) construção política, o circuito ainda não aprendeu a lidar com a estética como um valor transformador. É claro que Pernambuco, que conheceu a revolução do manguebeat (herdeira direta da antropofagia modernista e do tropicalismo), que reposicionou não apenas a música, mas várias de suas linguagens (como o cinema, as artes plásticas e até a moda), e transformou concretamente algumas relações da sociedade local, não sente no Fora do Eixo um interlocutor com qualquer autoridade artística e moral para questionar seu processo. Quando Capilé resolveu pilotar a recém-constituída jamanta memética do FdE de frente contra a velha jamanta memética musical de Pernambuco, provocou uma colisão da qual, entre os escombros de acusações e incompreensões mútuas, há algumas respostas a extrair (para além de bobagens como o fato de Capilé estar descalço e de cócoras na cadeira - como bem notou Pedro Alexandre Sanches, a mais indígena das posturas).
E o que me ocorre é o que tanto Pernambuco quanto o Fora do Eixo disputam é “o novo brasileiro”: uma espécie de nerd pobre, ou emergindo da pobreza. O herói da luta do projeto pardo contra o projeto branco de Brasil. Um hacker antropofágico e (neo) tropicalista. Os “malungos” tecnológicos de Chico Science e os militantes digitais são duas faces, a poética e a pragmática, de uma mesma moeda simbólica. As duas, sozinhas, não se completam: uma por falta de vontade política, a outra por falta de tecnologias artísticas e espirituais. Se conseguissem se empenhar não em se desautorizar mutuamente, em monopolizar o “novo brasileiro” (que entanto isso, na surdina, surge de Belém, sem grande ajuda nem de pernambucanos nem de foras do eixo), essas duas tecnologias complementares fariam uma uma troca que é essencial ao país. Que os futuros-exus nos ajudem na conversa.
Publicado por allxsexs às dezembro 23, 2011 04:22 PMAlex, ótimo texto para reflexão. Pero o Arriano Suasunga, não foi u bloco gay. Fui um dos fundadores. abraço NP
Publicado por: Nilton Pereira às dezembro 23, 2011 09:13 PMmuito bom o texto. Ex-Exus eh o som do presente/futuro mesmo!
Publicado por: Julio Castilho às dezembro 23, 2011 10:44 PMcorrigido, nilton
Publicado por: alex antunes às dezembro 24, 2011 12:14 AMtexto massa, alex. coerente.
abraço!
Finalmente li seu texto, Alex: absolutamente sensacional!
Publicado por: Pedro Alexandre Sanches às dezembro 25, 2011 09:44 AMExcelente apanhado. Consegui entender um monte de coisas que vivo aqui no Recife e que nunca havia parado para refletir. Desejo/espero/torço que esse ruído entre o FdE e os artistas da música de Pernambuco não seja o fim de qualquer coisa, mas o começo de outras. Bora conversar mais.
Publicado por: Dida Maia às dezembro 26, 2011 07:12 AMPernambuco nunca precisou do Fora do Eixo. Pernambuco tem gente escrota, como em todo lugar, principalmente entre os produtores coronéis, que todos sabem muito bem quem são. Mas pernambuco nunca precisou do fora do eixo
O estúdio SP se tornou uma grife de respeito, coisa que o fora do eixo nunca conseguiu (mesmo com farta injeção de dinheiro público), com uma receita bem simples: Boa curadoria e divisão da bilheteria com a banda. Bandas que lotam a casa podem chegar a receita de 7.00 reais numa única noite, fazendo assim shows memoráveis, por que com esse valor podem pagar toda a estrutura de produção a sua volta. O Fora do Eixo e seus festivais investem no estilo que é o mais retrógrado, conservador e branco classe média paulista de todos os estilos de música que grassam pelo Brasil: O Rock !(com acento ianque, fica mais bonito, né) E nao quer dar cachê aos artistas, ou seja: Péssima curadoria (qual banda apadrinhada pelo fora do eixo conseguiu projeção nacional? Projeção mesmo, não essa palhaçada do Macaco Bong) e não pagamento de cachê. Não vai dar certo mesmo.
Se por um lado o pessoal do FDE, na figura do seu Capilé se sente ressentido por que o movimento "pai" da sua ideologia resolveu não seguir sua política e dispara sua metralhadora-dor-de-cotovelo com a mira em Pernambuco, nunca vi um único músico pernambucano dizer que estava fazendo música pra ter o poder da vanguarda estética e política da musica brasileira. Isso é coisa de ABRAFIN e o FDE, achando que todo mundo que gira em volta da música pensa assim como eles. Pooooooooderrrr. É isso que todos comentaram depois de ver o vídeo do congresso: Sede de Poooodeeeeeeeeer! Unilateral poder! Só esqueceram de combinar com a platéia e o músicos.
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