Numa madrugada destas encontrei um chapa, o Stéfano, e fiquei aporrinhando o cara com uma questão: se ele não concordava comigo que a morte do Minho K pontuava o fim de uma era. O Stéfano não entendeu bem, e a pergunta insistente foi dormir comigo.
No dia seguinte, uma notícia inesperada: Joe Strummer, o vocalista e guitarrista do Clash, estava morto. Pra quem não sabe, o Minho K, ou Celso Pucci, jornalista (Bizz) e guitarrista (Verminose, Voluntários da Pátria, No. 2, 3 Hombres), era grande fã do Clash.
Mais do que isso. Alto, magro, sempre de botas e chapéu de caubói urbano, Minho K parecia uma espécie de filial brazuca de Strummer, com seu humor irônico, sua visão ao mesmo tempo política e apaixonada do mundo, e do rock.
Nos anos 80, sob a influência direta do pós-punk mais politizado (Stranglers, Gang of Four, U2, e o Clash acima de tudo), militamos – esse é o termo – em uma cena que sacudiu o underground paulistano. Mas, ao contrário da cena inglesa, não encontramos nosso lugar ao sol, ou à chuva. Poucos registros ficaram.
Quem fez parte daquilo, ou acompanhou de perto aquele período intenso sabe, no entanto, que também aqui as coisas aconteceram, e aconteceram de fato. Nossas letras (em português) expressavam o mesmo inconformismo esclarecido, movidas a guitarradas vigorosas.
São Paulo ouviu a chamada londrina, mas a resposta entusiástica se perdeu entre as modorrentas reverberações tropicais. Por acaso ou não, muita gente da cena paulistana, como que magnetizada pelo velho continente, foi curtir do outro lado do oceano a ressaca da nossa tentativa paradoxal, tão intensa e tão ignorada.
Minho K foi dos que ficaram e, entre uma canção e outra, um artigo e outro, viu aquele momento explosivo se perder no tempo. No começo deste ano, em uma certa manhã de sábado de março, recebi um telefonema da mulher dele: “Corre pra cá, eu acho que o Minho K está morrendo”.
Cheguei ao edifício Copan no momento que os paramédicos saiam. “Foi óbito, vocês têm que procurar o médico dele na Santa Casa”. Era onde o Minho K estava se tratando de um câncer na boca, depois de ter baixado no mesmo PS incontáveis vezes por conta das suas crises de diabetes.
Entre a espera da família dele (que mora no interior), a visita à Santa Casa (cujos médicos, apesar do histórico do paciente, não podiam dar o atestado de óbito sem ver o corpo) e a duas delegacias, vimos as horas se passarem, e o corpo do Minho K começar a se enrijecer na cama onde tinha morrido.
Num certo momento decidimos levar o Minho K para a Santa Casa, e simplificar o processo. Botamos nele as calças apertadas, as botas, e olhamos para o chapéu indefectível – aquilo pareceu recuperar nossa capacidade de agir.
Após uma negociação surrealista com o zelador, descemos o Minho K até a garagem onde um carro nos esperava, numa sequência hilariantemente parecida com as do defunto no elevador no filme Sábado, de Ugo Giorgetti.
O elevador foi parando em vários andares, e, a cada vez que a porta se abria, nos preparávamos para o susto de quem desse de cara com três fulanos abraçando um cadáver em pé... Mas ninguém apareceu.
Sem outros sobressaltos, sentamos o Minho K no banco ao lado do motorista, e lá fomos nós, eu no banco traseiro, abraçando os ombros dele pra que ele não escorregasse... Não, não é verdade que fincamos um cigarro nos seus lábios lívidos.
Os atendentes da Santa Casa se surpreenderam, mas não reclamaram – afinal, um deles é que tinha aconselhado, horas antes: “Quando alguém morrer em casa, enfie o corpo no carro e diga que morreu a caminho do hospital”. O Minho K evidentemente não tinha morrido no caminho – a menos que estivéssemos vindo de muito longe. Mesmo assim, ninguém disse nada. Levaram o corpo pra dentro.
Na manhã seguinte, contei essa história no velório, ao pé do caixão, e fiz as pessoas rirem. Rirem muito, de virem lágrimas aos olhos... Ninguém nunca mais iria nos roubar o sentido da palavra “irreverência”, tão deturpada pelos babacas do rock playboy e engraçadinho.
Aquelas pessoas se despediram do Minho K da forma adequada, gargalhando com a história do defunto passeando de carro, e de outras, como a de outro chapéu de caubói que tinha aparecido no meio da rua, perto do cemitério. Como certamente ele mesmo teria gargalhado, com seu senso de humor irresistível sempre pronto para pular à frente das angústias, e dos problemas recorrentes.
Muitas dezenas de amigos foram ao enterro. E tenho certeza de que quase todos, ao chegarem em casa, colocaram um CD ou um vinil velho para tocar. Certamente alguém ouviu Joy Division; eu mesmo preferi um sardônico Leonard Cohen – ou será que foi um melancólico Nick Drake?
Mas algo me diz que foram maioria absoluta os exemplares de London Calling, Sandinista! e Combat Rock que rolaram naquela tarde ensolarada de domingo. O primeiro réveillon sem Minho K também é o primeiro réveillon sem Joe Strummer.
Stéfano, meu caro, certamente isto encerra uma época.
(publicado no site Fraude e no do Tognolli, reproduzido no telescOpica , no blog Discoteca Básica e na edição de janeiro da Dynamite)
1969-2002, ou 33 anos entre a magia & o truque
É fácil, pra quem nasceu de meados da década de 60 pra cá, achar a tal da “música popular brasileira” uma merda. Afinal de contas, o status quo que o pop brasileiro se esmerou em destruir ao longo da década de 80 se parecia mesmo com uma elite (?!) pretensiosa, preguiçosa, enfadonha e ciosa apenas dos seus próprios (e injustificados) privilégios.
A geração Legião-Titãs-Lobão (para citar os mais aguerridos de então) teve com a geração Caetano-Gil (para citar os manipuladores de sempre) quase a mesma relação que os punks tiveram com o rock de arena e a disco gringos. Por falar em punk, é do Clemente (Inocentes) o manifesto que melhor sintetiza a época.
Dizia ele, em 1982: “Nossos astros de MPB estão cada vez mais velos e cansados, e os novos astros que surgem apenas repetem tudo o que já foi feito (...). Mesmo assim, eles ainda conseguem fazer o povo chorar. Não sei como, cantando a miséria do jeito que eles a vêem, do alto (...). Eles também choram de alegria, quando contam a grana que ganham. Nós, os punks (...), não damos a ninguém uma idéia de falsa liberdade”.
E concluía: “Procuramos algo que a MPB já não tem mais e que ficou perdido nos antigos festivais da Record (grifo meu) e que nunca poderá ser revivido por nenhuma produção da Rede Globo de Televisão. Nós estamos aqui para revolucionar a música popular brasileira, para dizer a verdade sem disfarces (e não tornar bela a imunda realidade): para pintar de negro a asa branca, atrasar o trem das onze, pisar sobre as flores do Geraldo Vandré e fazer da Amélia uma mulher qualquer”.
Algumas observações: a) é curioso notar que ele falava em revolucionar a música brasileira (e não ignorá-la), embutindo referências provocativas a Luiz Gonzaga, Adoniran Barbosa, Geraldo Vandré e Ataulfo Alves; b) Clemente reconhecia misteriosas qualidades na MPB que ficaram perdidas em algum momento entre o final da década de 60 e o começo da de 70 (quando o poderio platinado da Globo enterrou o jeitão mais “doméstico” da Record, Tupi, Excelsior e Bandeirantes). Vindas de um punk, essas considerações devem ser tomadas a sério.
Abres-se o fosso
Como sabemos a posteriori, os punks não revolucionaram a MPB. Seus epígonos da uêive tiveram uma fase boa, mas igual e rapidamente se acomodaram. (Umas poucas bandas dessa época se ocuparam em reivindicar algum tipo de tradição – e não de simplesmente “zerarem” a história. Dá para citar o tecnosamba do Fellini; os Picassos Falsos e o Black Future, nos admiráveis e respectivos álbuns Supercarioca e Eu Sou o Rio, ambos 88; e circunstancialmente o DeFalla homenageando Tim Maia, o Camisa de Vênus fazendo o mesmo com Raul Seixas e Walter Franco.)
Os “poetas pop” com alguma consistência (Renato Russo, Cazuza) bateram as botas. O popularesco romântico-pornô (breganejo, axé, pagode) afinal dominou as mídias. E os roqueiros brasileiros – como os eletrônicos, outro subproduto dos anos 80 – acabaram constituindo clubinhos herméticos e defensivos, de onde a língua portuguesa desapareceu, substituída pelo inglês, ou por linguagem verbal nenhuma.
À exceção do brilho fugaz do manguebeat de Chico Science, o pop brasileiro dos anos 90 foi de uma bobeira atroz (me desculpem os eventuais fãs de Skank, Pato Fu, Raimundos, Jota Quest e quetais), como a MPB do fim dos anos 70 já tinha sido. A única “noventista” que parecia ter algum sangue nas veias, Cássia Eller, era na verdade um anacronismo, uma criatura dos anos 80 em permanência, e foi se juntar aos seus iguais no além. (Os emepebistas mais propriamente ditos, tipo Chico César e Zeca Baleiro, ficam para daqui a pouco.)
A pior notícia é que a Grande Fase da música brasileira quase desapareceu da memória nacional – aquela fase que até o punk Clemente sabia que tinha existido, e que pode ser descrita como um enorme caldeirão borbulhante onde elementos do samba, da black music e do rock psicodélico (com um ou outro temperinho adicional) interagiram em uma opulenta feijoada pós-tropicalista.
Foi eclipsada por essas sucessivas fases incertas e contraditórias, pelo descaso das grandes gravadoras com seus catálogos bacanas, pelo imediatismo das rádios e televisões, e todas as mazelas e tosqueiras da cultura nacional das quais é até tedioso falar. Atingidos naquele ponto delicado que fica entre a criatividade, o ego e o bolso, mesmo os bons artistas sucumbiram à pasmaceira geral.
Nesse sentido, hoje fica mais fácil explicar para as crianças a trajetória de quem morreu injustiçado (Tim, Raul, Taiguara, Sérgio Sampaio), desapareceu inexplicavelmente (Hyldon, Cassiano, Gerson King Combo, Walter Franco, Macalé, Mautner) ou pirou (Arnaldo Baptista), do que tentar convencer alguém que Papai Noel existe, i.e., que Roberto Carlos, Ivan Lins e Caetano Veloso já foram caras legais e renovadores...
A lombra da imaginação
Mas foram. Num papo com o Luiz Calanca, da Baratos Afins, falávamos daqueles anos loucos (69-73) em que mesmo figuras pouco inspiradas compunham e tocavam coisas surpreendentes. Era como se eles fossem levados por uma lombra criativa, ou um flash back coletivo - aliás, lembrando Robert Fripp, “a música toca o músico”, e não o contrário... (Mencionei essa lombra fabulosa para o grande Fritz Escovão, do Trio Mocotó, e ele riu bastante, com a cara de quem estava pensando em alguém específico.)
De resto, 74-78 ainda renderam algum caldo, principalmente na vertente mais black/soul. E a nossa triste história da MPB terminaria por aqui mesmo – MPB entendida como um feeling de ajustar letra, melodia, harmonia, arranjo, interpretação... Aquela coisa maluca, às vezes tensa, às vezes melancólica, às vezes irônica, às vezes engraçada – mas sempre tão intensa. Um certo blend de sentimento com inteligência formal...
...Que está ao mesmo tempo na “Construção” do Chico Buarque, no “Sinal Fechado” do Paulinho da Viola, em “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua” do Sérgio Sampaio, em “O Telefone Tocou Novamente” do Jorge Ben, no “Expresso 2222” do Gil, em “Um Girassol do Cor dos Seus Cabelos” do Lô Borges, em “Me Deixe Mudo” do Walter Franco, na “Pérola Negra” do Luiz Melodia, na “Baby” da Gal, em “San Vicente” do Milton, no “Mustang Cor de Sangue” do Marcos Valle, no “Maracatu Atômico” do Jorge Mautner, e nos Mutantes, e nos Novos Baianos, na Maria Alcina, no Erasmo Carlos, em tantos outros.
Certamente não era uma técnica apenas, era um zeitgeist, um espírito da época. Ou então os esforços continuados de gente como Chico César, Zeca Baleiro, Marisa Monte (e seus bizarros escudeiros, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes), Lenine (o que chegou mais perto de conseguir) não esbarrariam numa espécie de “vazio de credibilidade”, que os descredencia diante de qualquer ouvinte não-iniciado no truque.
Talvez a questão seja que o pop/rock tende a substituir forma por conteúdo – a “atitude” se sobrepondo ao “fazer artístico”, para o bem e para o mal. Então, essa forma vazia, no entender da indústria cultural, pode igualmente ser preenchida por Roberto Carlos, em um (bom e renovador) momento (a Jovem Guarda), ou por Zezé di Camargo e Luciano, em outro (mau e conservador). E os “conteudistas” ficam à parte, do outro lado da fronteira do bom-gosto, num modelo reverso – e igualmente vazio.
Conversando com Max de Castro, ele me dizia (a propósito de elogiar seu parceiro na música “Linha do Tempo”) que um dia “vai cair a ficha e as pessoas vão perceber que Fred 04 é um grande compositor de MPB”. Taí, até que ponto a percepção do líder do mundo livre s/a como “roqueiro” (atitude) não tem sido prejudicial ao seu reconhecimento como “compositor” (arte)?
Ou, indo mais longe, quem é que ainda estaria interessado em arte?! Os fãs do Arnaldo Antunes? Chiça... Um mundo polarizado entre Zezé di Camargo e Arnaldo Antunes – desde o fim da guerra fria que não se via nada tão soturno.
Salvos!
Essa dicotomia intragável, no entanto, tem se resolvido nas mentes (e corações) de uma geração que simplesmente a ignora. Começou com uns sinais tênues a partir de quatro ou cinco anos pra cá. Nas próprias tentativas do mundo livre e de Max de Castro; nos primeiros álbuns de Rebeca Matta – definido como trip-MPB-hop –, e do Otto – samba cum techno; no primeiro pacote do selo YB, com Andrea Marquee e Rica Amabis, mais sambista a primeira e mais eletrônico o segundo.
E de repente, de dois anos pra cá, a boa notícia: o bicho emepebístico pegou de novo. Em seus novos álbuns, em graus variados de mistura mas sempre altos de acerto, Wado (Alagoas), Stela Campos, Fernanda Porto e Patricia Marx (SP), Rebeca Matta e Moisés Santana (Bahia), Otto e DJ Dolores (Pernambuco), Totonho & os Cabra (Paraíba), Cidadão Instigado (Ceará), Stereo Maracanã e Maurício Negão (Rio) redescobrem a magia – ou foram redescobertos por ela.
Elza Soares e Trio Mocotó ressurgem do ostracismo em plena forma pop. Artistas de gêneros mais ou menos estanques, como o hip hop, o reggae e a eletrônica, dão mostras de também fazerem parte dessa movida. Respectivamente: as experiências MrapB do Instituto com Sabotage, Z’África Brasil e Happin’ Hood; a produção de Antonio Pinto para o incrível tiozinho-revelação Adão Dãxalebaradã; e projetos interessantes como o Bojo, o Mugomango e o Superágua.
Temos até exemplos negativos-reativos, de gente da “aristocracia” que não quer perder o pescoço: Marisa Monte inventando o tal de tribalismo com Brown e Antunes; Caetano indo buscar Mautner na geladeira para um álbum sintomaticamente chamado Não Peço Desculpa, em que Mautner É a desculpa... (ao contrário de Tom Zé, Mautner aceitou o desterro a que a nomenklatura tropicalista o enviou, enquanto flertava com o axé ou coisa parecida).
Só quem está quieto desta vez é o Gilberto Gil, que em outros momentos de efervescência tinha saído rápida e oportunisticamente gritando “sou o punk da periferia”, ou “montar meu web site”... Aliás, não deve ser à toa que dois baianos, que não são o Gil e o Caetano (são Rebeca Matta e Moisés Santana), aparecem nesta edição do B*Scene, respectivamente em matérias da Katia e da Babi. Se o assunto despertar interesse, na próxima edição publicamos uma discografia de ontem e de hoje, comentada.
*Nem tão quieto assim: poucas semanas depois da publicação deste texto, Gil foi indicado Ministro da Cultura no governo Lula!
(publicado na edição de dezembro do B*Scene, parcialmente reproduzido no Trabalho Sujo)
(trecho do romance inédito O Resolvador De Problemas)
A Indecisa meio que virou pra trás, com aquele olhar embaçado, do mal. E, da maneira mais inesperada (pelo menos pra mim que estava ali, de caralho altaneiro, pronto pra pular todinho dentro daquelas carnes), perguntou, singela:
– Mas você sabia que a gente ia transar?
O tom tinha sido solene. Quase dava pra ver os ferros de uma ratoeira mental gigante se armando, pra então estalar como um raio no céu azul e morder. Meu pau. O bicho ameaçou dar uma amolecidinha, apesar da bunda arrebitada à minha frente.
A mulher estava simplesmente arreganhada, deitada por cima do braço do sofazão bacana, com o rabo pra cima, a calcinha de oncinha escorregando pra baixo pelas coxas brancas e gordinhas, la sonrisa vertical babando pra mim. Notei os pentelhinhos aparados dos lados.
E aí, em vez do “mifodji” regulamentar, ela me vinha com essa?! Meu cérebro girou rápido, negociando com a corrente sanguínea uma prorrogação estratégica. Pra quê isso, meu santo Príapo?
– Como assim?
– Você achou que eu vinha aqui e a gente ia simplesmente transar, sem mais nem menos?
Corta pra duas ou três noites antes. Nos conhecemos em uma mesa de jantar do Sujinho, vulgo Das Putas, apresentados por um amigo comum. A simpatia foi instantânea, e o papo foi safado. Convidei ela pra almoçar (pra almoçá-la, digo) no sábado.
Ela veio, trucidamos um frango ali do lado, viemos tomar uma sambuca no meu apê (aquela parada de acender o drink com um grão de café dentro, coisa e tal, aliás não posso esquecer de produzir mais uns grãos frescos com o japonês da lanchonete aí embaixo. Faz mó efeito), rolou um agarro regulamentar, virei ela no jeito, passei o cartão de correntista e...
– É importante pra mim saber. Você achou que ia me comer?
Como “ia” comer? Pelamordedeus. Se não, o que é que eu ia fazer com toda essa encomenda de leite? Ia subir tudo pra mente, talhar no meu raciocínio. Será que ela me deixava pelo menos bater uma punhetinha com modelo vivo? Engatei um lance sincero.
– Achava, sei lá. A gente se deu bem, foi tudo tão espontâneo...
– É que é importante que você saiba que eu não sou assim... vulgar...
Assim vulgar como, filhinha? Esse cu pra cima não é o seu? Pensei isso mas disse outra coisa, mais diplomática.
– Eu acho que quando duas pessoas se encontram, se entendem, se atraem, e uma simplesmente fica com vontade de mergulhar na outra, isso tem, sei lá, poesia...
VAGABUNDA DO CACETE! É ÓBVIO QUE VOCÊ VEIO AQUI PRA EU TE FODER!
– ...digo, tem situações em que não existe uma regra, o que vale é a intuição né, é como se a gente já se conhecesse há tanto tempo... Você também não disse que sente isso em relação a mim?...
SENTA NESSE TROÇO E NÃO ME ATRASA O EXPEDIENTE, Ô HISTÉRICA!
– ...as pessoas hoje vivem como estranhas, é tão raro a gente se sentir assim, verdadeiro, inteiro com alguém... Essa é uma magia delicada, que a gente não deve deixar escapar...
Enquanto eu falava eu balançava de leve os quadris, roçando a benga na bundinha dela, tocando nas imediações da várzea (onde batem as bolas), uma espécie de pêndulo de hipnotizador. Ela pareceu relaxar. Apontei o resolvedor do problema, e...
– Então me bate.
– Hã? – meus ouvidos não queriam acreditar.
– ME BATE COM FORÇA, NA CARA.
Desencaixei o bagulho, e me arrastei até o aparelho de som, quase trincando os dentes. Bryan Ferry era o que eu precisava pra chorar logo de uma vez. “Slave To Love”.
– Sai, por favor. Eu não tou me sentindo bem – não é que eu estava chorando mesmo?! Eu até podia encher ela de porrada, mas não ia ser a preliminar de foda nenhuma.
Ela olhou pras duas lágrimas que brilharam nos meus olhos, absurdada, e pro meu pau tristão – que também largou uma pequena lágrima. Subiu a pele de oncinha, baixou a microssaia, pegou a bolsa e foi saindo mesmo, como se o esquisito fosse eu.
Pra que catzo é que o macaco foi aprender a falar?!
(publicado na Zero 4, dezembro, e republicado, corrigido e ampliado, no blog Elas Por Elas)
Shakespeare e a contribuição brasileira à "arte" do mal-viver
O jornalista David Brooks anotou em 2000 o surgimento de uma nova tribo urbana nos EUA, a dos “bobos” (bohemian bourgeouis), no livro Bobos in Paradise (no Brasil, Bubos no Paraíso). Um mix hippie-yuppie inesperado, os “bobos” são produto da abastança ianque, combinando uma certa correção política com a presunção usual da casa.
Pois estava eu me perguntando qual seria a contribuição do Brasil nesta era mezzo-pizza, quando tropecei com a “saúva humana”, o “gabiru atômico”, o tipo nacional que não só é gerado pela pobreza (material e intelectual) como a ela se adapta, e dela se orgulha, e faz questão de atacar e dizimar os nossos já minguados caraminguás psíquicos.
Trata-se dos FO-FOS, os FODIDOS-FOLGADOS. Da mesma forma que os bobos de bobos não têm nada, os fofos são a síntese última da truculência tupiniquim: o ex-“brasileiro cordial” com os bofes de fora, o corno virado e um dedo ameaçador na nossa cara.
Sabe quando o ônibus em que você está pára bem no meio de uma rua estreita enquanto o motorista troca gritos amistosos com o colega que vem na outra mão, imobilizando o trânsito dos dois sentidos – o que acorda o cobrador, que entretanto dormia com os pés para cima num banco mais ou menos próximo da catraca travada; e você imaginando se podia acordá-lo ou não?
Ou quando você não consegue se concentrar no filme porque no saguão do cinema o porteiro dirige gracejos sexuais em altos brados à bilheteira? Ou quando na calçada de um único quarteirão três ou quatro vendedores de CDs piratas disputam para ver quem consegue tocar mais alto e mais distorcido os sucessos do forró-de-teclado ou do breganejo?
E aí você até se pergunta se a saudável destruição da indústria fonográfica pela pirataria não merece um pouco da sua paciência – mas a resposta é “não”. Os fofos estão sempre muitos decibéis acima do suportável, sempre vários pontos além da escala mais flexível de tolerância, seja você o socialista mais sincero ou o populista mais hipócrita.
O problema é que o fofos gostam do que são, gostam da vida que levam. Os fofos adoram parar o trânsito. Eles nos acham esquisitos: como é que alguém pode não se divertir com o programa do Ratinho? Porque é que alguém teria uma discussão mais complexa do que desta-vez-nós-ferramos-vocês, “nós” e “vocês” entendidos como dois times de futebol?
Porque é que alguém pagaria mais do que R$ 0,50 para comer e beber algo diferente da “esfirra” de fragmentos de inseto com pêlos de rato e o suco de cloro da lixonete? Meu Deus, como é que alguém pode não gostar da bunda da Scheila Carvalho?! Ou do pagode-de-corno do romântico Belo, ou do forrozinho sacana do Calcinha Preta?
Os fofos dirigem lotações ilegais arrojadamente, e às vezes matam todos os tiozinhos e tiazinhas que estão dentro delas porque são perseguidos por algum comando implicante. Os fofos atravancam as calçadas com centenas de barraquinhas de porcaria, e ficam “revoltados” com os fofos do rapa que vão lá apreender a muamba.
Os fofos pilotam motos em decomposição pelo “corredor”, um conceito exótico criado para justificar o estado de ultrapassagem constante, onde eles negociam as próprias pernas contra os retrovisores esnobes dos importados. Sempre tem uma ambulância vindo buscar um fofo esmagado.
O fofo seria um playboy, se não fosse um boy sem grana pra play.Os fofos gostam de camisetas falsas do Bad Boy (tem até umas em que o desenhista-copista se enganou, e transformou o esgar antipático da boca do personagem num cigarro!); e de buzinas que dizem “sai da frente” ou “cachorra” ou que dão relinchos.
Na verdade os fofos gostam de qualquer coisa que faça (muito) barulho, de escapamento aberto à musiquinha do gás (clandestino) ao pregão do açougue malcheiroso. Eu não entendia o porquê disso até um taxista me contar o caso de um conhecido dele que adaptou uma buzina de caminhão na Brasília velha, com um de extintor de incêndio cheio de ar para acioná-la.
A autonomia do dispositivo era de duas ou três buzinadas na descida da rua Augusta – e aí ele tinha que dar a volta no quarteirão e ir até o posto de gasolina para calibrar o extintor de novo, buzinar mais duas vezes, e assim por diante, num ciclo absurdo.
É que os fofos querem dizer algo alto-e-bom-som, mas simplesmente não tem nada a dizer. Shakespeare estava pensando nos fofos quando disse que a vida é “uma história contada por um idiota, cheio de som e fúria, e que não significa nada”.
Noutro dia chuvoso, um fofo se postou bem no topo de uma escada-rolante do metrô, e quase desequilibrava as pessoas que tentavam sair da escada, enfiando seus guarda-chuvas descartáveis no peito delas.
Eu disse: “você está no lugar errado”. Ele respondeu: “você preferia que eu estivesse assaltando?”, a resposta-padrão do fofo chantagista. Eu disse: “você não tem coragem, é só por isso você não assalta”.
O fofo é um escravo que aprendeu com o dono a ser abusado – mas sem aprender a ser senhor de nada, nem da sua própria vida.
Underground, mainstream, traição e outros babados
“OK, até que a excitação foi legal; a sensação de que algo estava começando a acontecer foi bem gostosa. Mas agora já chega. Está na hora de olhar mais friamente pra isso tudo e ver, do ‘renascimento do rock’, o que vale mesmo a pena. E os moleques do The Vines fornecem uma boa desculpa pra que se faça esse momento de reflexão. Porque quando eles apareceram, há alguns meses, foi fácil demais pra imprensa bater o martelo: eles são uma mistura de Beatles (ou Oasis) e Nirvana (...) Se os Strokes já não traziam inovação em sua sonoridade, há cada vez menos novidade nos álbuns que têm saído desde então. É certo que o rock vive de reciclagem há décadas e que dentro dele não cabem muitas variações, mas será pedir demais querer um pouco de originalidade? Para o Vines, é sim pedir muito”
Juliana Zambelo no blog Pocketbook, postado em 28/09/02
“O Nirvana acabou em 1994, certo? Certo! A jovem banda australiana The Vines (...), badalado destaque desta inspirada renovação roqueira, é o novo Nirvana, certo? Errado! Se a alma de Kurt Cobain ainda vaga por acordes de guitarra, esses saem dos instrumentos da banda americana Queens of the Stone Age”
Lúcio Ribeiro na Folha Ilustrada, em 11/10/02
Dizem os sinais de fumaça que estamos à beira de um novo surto planetário de rock’n’roll, puxado pelos Strokes e seguido, bem, seguido por algumas dezenas de bandas “badaladas”, “imperdíveis”, “seminais” (?!), “instigantes”, e os adjetivos despropositados de costume.
Parto de duas frases, pinçadas um tanto aleatoriamente de um blog e do caderno cultural um grande jornal, para listar uma série de questões que elas suscitam:
a) Como diabos “o novo Nirvana” pode significar algo bom? Quer dizer que alguma gravadora quer vender muito CD surfando em uma derivação oportunista? (e isso é ruim); ou talvez que no ano que vem um vocalista milionário e depressivo vai dar um tiro na cabeça? (muito ruim)
b) Porque uma diluição (The Vines) de uma diluição (Oasis) dos Beatles teria algum tipo de interesse artístico ou comportamental?
c) É por acaso que o mesmo tema aparece tratado em tom festivo (no grande jornal) e em tom crítico (no blog), ainda que os autores concordem na conjuntura, de “renascimento” ou “renovação”?
Não faço a menor idéia se os Vines (ou os Queens) são legais ou não, mas isso, tanto quanto o paradeiro da alma penada de Kurt Cobain, é perfeitamente irrelevante para esta reflexão. Acontece que, tendo trabalhado na revista Bizz (anos 80) e na Folha (anos 90), eu já vi esse filme pelo menos duas vezes. Bandas vêm de um underground autêntico e aguerrido (o que para mim exclui uma onda meia-boca dessa comparação, o britpop). E alcançam o topo das paradas, já acompanhadas de uma figuração mais ou menos oportunista.
Nos anos 80, foi com o pós-punk, e nos 90 com o grunge. Se da segunda vez o meu ponto de vista era mais cínico (ou talvez eu simplesmente não goste de rock simplório e pesado), da primeira eram “as minhas” bandas que estavam caindo na boca do povaréu, o que dava uma certa sensação de “traição do movimento”. Claro que isso é uma babaquice – a qual é abordada, sabiamente, em um outro post do mesmo blog.
Entretanto, não deixou de ser surpreendente que um grupo esquisito e deprimente como o Cure na fase dos álbuns Faith e Pornography (81-82) tenha caído no gosto popular apenas uns dois anos depois. E isso enquanto promessas até mais óbvias, como The Sound e Associates, tenham “fracassado” comercialmente, levando seus líderes/ vocalistas ao suicídio mais tarde – pelas razões opostas às de Cobain.
Também sabemos que uma banda original às vezes está simplesmente à frente do seu tempo (o Velvet Underground) e até de seu país (Mutantes), e só será compreendida e reconhecida anos depois. Mesmo tendo antes influenciado dezenas de outras bandas, que acabaram tendo mais sucesso do que elas mesmas.
Confuso?
Ainda dá para piorar um pouquinho, se considerarmos por exemplo as Falsas Oposições: o solene-rock-progressivo e a hedonista-disco-music sofriam dos mesmos vícios de produção excessiva em meados dos 70 (tendo sido repudiados em bloco pelo punk...), ou as Contigüidades Inesperadas (...a vibe das pistas disco e o do it yourself do punk acabaram recombinados na house, cerca de 10 anos depois)*.
Desfazendo o nó
Portanto, algumas variáveis têm que ser isoladas para entendermos algo dos ciclos do pop, se é que eles existem: as óbvias são o Artista, o Público e a Imprensa, que eventualmente interagem na Cena. Coloco a Imprensa como elemento à parte não tanto pela sua importância, mas por seu comportamento freqüentemente autônomo – e isso no sentido do oportunismo.
Por exemplo, o Velvet Underground era um Artista sem Público e sem Cena, apesar de ter sido notado por alguma Imprensa. Já Madonna foi um fenômeno bem-sucedido de (auto) manipulação de imagem, portanto um enorme Público e uma Imprensa a reboque, sem ter propriamente uma Cena (a não ser a idiossincrasia yuppie dos 80), e nem sequer ser Artista (no sentido de que não há um conceito para a obra, apenas para a imagem)...
E é aí que parece que tropeçamos na estranha especificidade deste novo boom. No pós-punk (ou new wave) e no grunge, o estouro mundial foi calcado num modelo pré-calibrado em pequena escala – as Cenas londrina e novaiorquina no primeiro caso, a de Seattle no outro. Mas neste parece que a Cena (ou pelo menos uma “sensação de Cena”) simplesmente precedeu os outros aspectos.
Não dá para dizer que Strokes tenham influenciado (ou tenha influências diretas em comum com) White Stripes ou Hives ou... sei lá, The Rapture. Não há uma hierarquia ou uma contigüidade como havia entre Pistols-Clash-Stranglers-Gang of Four**, ou Melvins-Mudhoney-Nirvana-Alice in Chains-Pearl Jam. Vem um pouco daí a falta de critérios para julgar esta “renovação” do rock, que mescla em escala ainda superior à habitual Artistas de diferentes densidades.
E a habitual falta de critério (ou presença de critérios oportunistas) da Imprensa se exacerba ainda um pouquinho mais. Por exemplo, ao procurar insistentemente um “novo Nirvana”, quando o próprio Nirvana foi encontrado quando se procuravam os novos Sex Pistols...
A propósito, eu sei o que “novo Nirvana” significa, estava apenas me fazendo de bobo lá em cima. É “banda explosiva” (isso é bom) com “cantor desequilibrado” (isso é bom?! Se ele for de mentirinha, é mau. Se for de verdade, pior ainda: horrível isso das pessoas se matarem em público).
Retomando, a Imprensa fica procurando um “novo Nirvana” numa banda australiana que tem alguma influência de Oasis... Ora, Oasis e Nirvana não são exatamente rivais simétricos como Beatles e Rolling Stones, mas bem que dá para colocá-los em campos opostos da humanidade...
Enquanto isso, no Brasil
Já fica difícil estabelecer na gringa méritos e deméritos (os Strokes reciclam uma banda muito boa e consideravelmente underground, o Television. Isso é bom ou é mau?). No Brasil, as relações entre underground e mainstream são mais difíceis ainda de se compreender.
Porque aqui não há sequer um mainstream (relativamente) estável e coerente, onde se sucedam, digamos, Bruce, Madonna, Prince e Eminem (ficou um buraco histórico aí no meio, mas deixa pra lá). Aqui o próprio mainstream se nega e se deforma, de RPM a Leandro e Leonardo a É o Tchan ao Bonde do Tigrão***. Qualquer semelhança com a série Sarney/ Collor/ Itamar/ FHC não será mera coincidência.
E aqui o underground tem uma agenda mais complexa, que pode passar (ou não) por responder minimamente à questão da identidade local (i.e., fazer sentido em português, basicamente). Nos anos 60, no rico diálogo entre o núcleo baiano e os paulistas (Mutantes numa ponta e maestro Duprat na outra), a questão estava muito deliberadamente colocada.
Nos 80, não estava muito colocada em São Paulo (as bandas cantavam em português porque sim, e apenas mimetizavam os gringos no som) mas estava colocada no Rio, através da conexão Blitz-Asdrúbal Trouxe o Trombone. Assim, o Napalm, primeira casa underground de São Paulo, tinha orgulho de ser uma espécie de filial de Nova York ou Londres: quanto mais cosmopolita melhor. Já o Circo Voador, no Rio, envolveu outros setores da inteligentzia (e também da burritzia) carioca****.
Os paulistas eram uns weirdos inexplicáveis, comendo sushi no terraço do Carbono 14 de tênis Bamba e camisa com gravata, ao som da última coletânea da Factory. (O metaweirdo clube Madame Satã é assunto para uma matéria específica.) Talvez por isso o “recrutamento” para o mainstream foi mais suave no Rio (Kid Abelha, Paralamas) do que em São Paulo. Em que pese a trajetória dos Titãs e do Ira!, outras bandas-chave da forte cena paulistana, como Smack, Muzak e Mercenárias, tiveram relação péssima (ou relação nenhuma) com a indústria fonográfica.
Ao longo dos anos 90 e até agora, esse fosso entre underground e mainstream só fez se aprofundar – a menos que possamos considerar o Supla na Casa dos Artistas como uma zebra gloriosa do pop nacional. Os grupos atuais ainda carregam algo do estigma do autismo das guitar bands nacionais – aquelas que, por alguma razão estranha, imitavam o Nirvana mas creditavam o Primal Scream. (Pensando bem, talvez seja porque – exceto pelo Nirvana – o grunge seja bem sem graça mesmo.)
Não dá para desconhecer os méritos de Thee Butchers Orchestra ou Wry, por exemplo. Mas não se viu nos últimos quinze anos ninguém com cacife ou vocação para ser... os novos Mutantes... (não deu para resistir à piada. Mas e se não fosse uma piada? É por isso que é sintomática – e não mais que sintomática – a guinada lingüística dos ex-Maybees).
O fato é que algo também acontece, sim, no rock brasileiro. E mais especificamente na noite paulistana. A movimentação, com a abertura de novas casas, várias delas com palco, deve significar alguma coisa (feliz época para os empresários da noite aquela da cena exclusivamente eletrônica: é muito mais barato manter um sistema de som para música mecânica, ou mesmo live PAs, do que uma estrutura completa para shows).
Conclusões
Não há conclusão, claro. A pergunta C, aquela do blog versus Folha, se responde um pouco pela própria existência deste B*Scene: continua havendo espaço para quem não partilha as estratégias e as necessidades da grande imprensa, à medida em que ela é irmã e interlocutora dos escombros da indústria fonográfica. (O que não quer dizer que não se possa fazer algo bacana em papel impresso. Mas esse já é outro assunto.)
O pop – e as Imprensas que nele militam – é movido por dois vetores antagônicos: o vetor da Exclusão e o vetor da Inclusão. A Inclusão (gerada de fora para dentro) é o que quer absorver, pasteurizar e rentabilizar modelos, por mais indigestos que eles sejam originalmente, do hippie sujinho ao punk mais agressivo. Sua bíblia é a Grande Imprensa.
A Exclusão (gerado de dentro para fora) é o que quer manter estanques, homogêneos e relativamente puros gêneros usados como limite de defesa, resistência e identidade por determinados grupos de afinidade – e isso valeu para qualquer comportamento, do misógino-EBM ao franga-house. Seu Livro Vermelho é o fanzine, a coluna ou o site especializado.
Quem pode mais puxa mais. Mas há aquele momento mágico em que as forças se compensam e, por um instante fugidio, tudo parece fazer sentido. Como eu dizia, não há conclusão – e nem precisa. It’s only rock’n’roll, mas talvez esteja acontecendo de novo.
* Só para ser chato: o manguebeat e seu arquiinimigo Alceu Valença (pelo menos o da fase de “Vou Danado pra Catende”), sem falar de Robertinho de Recife!, certamente fizeram o mesmo tipo de fusão e pertencem à mesma linhagem estética.
** Claro que nos “ecléticos” anos 80 nem todo mundo pertencia à mesma linhagem, mas existia uma noção de época e de estilo que impregnava o “desenho” das bandas: por exemplo no formato-duo-tecnopop, que englobou coisas parecidas/ diferentes como Suicide e Soft Cell. Nada a ver com a tumultuada cena atual, que parece um tiroteio de referências entre quase todas as épocas, estilos e bases geográficas do rock.
*** A propósito, sem querer voltar a uma discussão sangrenta, mas é sempre o caso de lembrar que a filiação do chamado funk carioca é nobre: via Miami Bass via Electro de NY via Krautrock até... a vanguarda erudita! Quem vê as meninas no Faustão se agitando ao som de um poperô tosco e abstrato não se dá conta de que nós vivemos bem no meio de um roteiro cyberpunk.
**** No livro Noites Tropicais, Nelson Motta dá uma curiosa visão insider carioca, em que bossa nova, jovem guarda, tropicalia, MPB, disco e new wave como que se acoplam, interagem e se sucedem, evitando se negarem totalmente. Coisas do Baixo Gávea.
(publicado na edição de novembro do B*Scene, reproduzido no Nemo)