O que a doidera do pop tem a ver com a luta arquetípica entre o caos e a ordem
“A música é um grande mistério. Em virtude de sua natureza sensual-espiritual e da surpreendente união que ela realiza entre a regra estrita e o sonho, a razão e a emoção, o dia e a noite, ela é sem dúvida o mais profundo, o mais fascinante e, aos olhos do filósofo, o mais inquietante dos fenômenos (...) A palavra ‘harmonia’ significa música, mas apenas secundariamente; originalmente, quer dizer matemática. Mas o mundo não é todo ele acordo e harmonia de esferas; ele possui tendências irracionais e demoníacas que os gregos não desprezavam, mas procuraram dominar e integrar em sua religião. Assim o culto de Eleusis adorava as forças obscuras do mundo inferior (...) Se o mundo é música, inversamente, a música é o reflexo do mundo, de um cosmos semeado de forças demoníacas. Música é número, a adoração do número, é álgebra ressonante. Mas a própria essência do número não conterá um elemento de mágica, um toque de feitiçaria? A música é uma teologia do número, uma arte austera e divina, mas uma arte em que todos os demônios estão interessados e que, entre todas as artes, é a mais suscetível ao demoníaco (...) E os sacerdotes e mestres da música são os iniciados, os preceptores desse ser duplo, a totalidade demoníaco-divina do mundo. É a esperança de uma humanidade que, ao invés de reprimir e portanto exasperar o irracional, aceita francamente, venera e portanto santifica essas forças demoníacas e coloca-as ao serviço da cultura”
O escritor alemão Thomas Mann, morto em 1955, não estava pensando no rock’n’roll quando escreveu este texto, chamado “A Missão Da Música No Mundo Moderno”. Mas ele serve bem pra descrever o mergulho no obscuro, nos tabus e no irracional que o rock (pelo menos quando está na sua melhor forma) propõe.
Desse ponto de vista, a tríade SEXO-DROGAS-ROCK’N’ROLL faz todo sentido. Desde as culturas milenares, as artes tântricas do sexo, os transes induzidos e a música rítmica dos rituais são caminhos conhecidos para o contato com o “outro lado”.
Assim, não é nada estranho que subgêneros musicais com uma visão abertamente mística como o reggae (associado à maconha) ou mundana como o techno (associado ao ecstasy) tenham essa simpatia pelo transe – e também não preciso lembrar que o sexo costuma faz parte dessa equação.
A questão do transe, com todos os seus aspectos místicos, paradoxais e criativos, é tão antiga quanto a própria humanidade, e está registrada em todas as épocas e linguagens artísticas (na literatura, no teatro etc) , de maneira clara ou velada.
No século 20, o transe voltou a ser assunto da elite intelectual, como não era desde a Grécia antiga. Sigmund Freud, Carl Jung, Aldous Huxley, William Burroughs, Timothy Leary, Anton Robert Wilson, John Lilly, Terence McKenna, Stanislav Grof, entre outros tantos, caíram de boca (às vezes de nariz) no tema.
E, literalmente, o transe induzido caiu na boca (e na corrente sanguínea) do povo. Drogas cada vez mais acessíveis e variadas explodiram como parte crucial da cultura pop. E seu consumo acabou banalizado, na busca mais ou menos inconseqüente do chamado “barato”. Mas a questão essencial e metafísica continua lá, por trás da embriaguez aparentemente gratuita dos sentidos.
Pra quem tenha uma visão policial do assunto, vou repetir a conclusão de Mann: “É a esperança de uma humanidade que, ao invés de reprimir e portanto exasperar o irracional, aceita francamente, venera e santifica essas forças demoníacas”. I.e., não adianta negar o bicho que ele só fica mais nervoso.
A maior nação viajandona do mundo
Vá alguém tentar convencer um roqueiro, um regueiro ou um clubber de que ele deve ter uma moral legalista sobre as “substâncias ilícitas”. Na verdade, o ataque mais eficiente que pode ser feito à música e ao seu contexto transformador é um ataque indireto, diluindo os seus rituais em entretenimento (uma distração pras chatices da vida) ao invés de caminho pra uma OUTRA vida.
Do mesmo modo não adianta insistir que aquela música é ensurdecedora, que aquele sexo é de risco ou que aquela droga é destruidora – por mais que sejam, inclusive. Citando Rita Lee: “baby, baby, não adianta chamar/ quando alguém está perdido/ procurando se encontrar” (“Ovelha Negra”).
No mundo judaico-cristão, pra ficar nas imediações, o diabo (Lúcifer) e o conhecimento (luz) tem uma estranha proximidade. Diz a bíblia que comer da “árvore do conhecimento” leva à queda. Um mago desinibido como Aleister Crowley (1875-1947) não teve dúvidas em codificar um sistema de crescimento mágico e pessoal baseado na alternância de várias drogas e no sexo ritual.
Não espanta que alguns dos principais pensamentos de Crowley tenham virado refrão nas músicas de Raul Seixas e Paulo Coelho fase Sociedade Alternativa, e arrastem fiéis até hoje para um suposto raul-seixismo (na verdade um cozidão crowleyano *).
Afinal de contas o Brasil, além de propalada “maior nação católica do mundo”, é também a maior nação macumbeira (portanto não-culpada), e a pátria do maior culto de transe coletivo, o Santo Daime (dá vontade de acrescentar: então só falta um roquinho decente – porque o sexo vai bem, obrigado)...
Do tempo do amor ao tempo da angústia
Por falar em Brasil, e em discos feitos sob o efeito de drogas, também temos nossos álbuns drogados. Hoje há coisas diretas como o fuminho militante do Planet Hemp.
O mesmo que teve os codinomes “cilibrina” e “baurets”, entre os Mutantes, nos clandestinos anos 70 **. Essa também era a época das referências coloridas ao LSD – como em “Lindos Sonhos Delirantes”, de don “Juancito” Fabio. Aliás, colecionar referências setentistas às drogas seria uma tarefa praticamente infinita.
A década de 80 tem as (apropriadas) menções à cocaína em músicas como “Conexão Amazônica” e “Há Tempos”, da Legião ***. E deixou também um tributo inesperado à heroína na obra do Smack (o nome do grupo é uma gíria pra essa droga). A soturna música “Cavalos” (outra gíria), do segundo e derradeiro álbum, Noite e Dia, diz “À sós com a dor/ por puro prazer/ de sofrer”. Empolgante, né?
Dá pra notar a mudança de estado de espírito, do coletivismo festivo (anos 70) para o individualismo torturado (anos 80) – e ela corresponde também a uma troca de drogas. Saem LSD e maconha, entram coca e herô (a birita, droga legalizada, parece permanecer sempre como coadjuvante).
Na carreira-solo de Arnaldo Baptista há sintomas claros dessa transição do grupal para o individual: no seu primeiro álbum, Loki?, de 74, ele fala (já com nostalgia) da época idílica dos Mutantes, em músicas como “Cê Tá Pensando Que Eu Sou Loki?”: “A gente andou/ a gente queimou/ muita coisa por aí/ até estivemos todos juntos/ reunidos numa pessoa só”.
Pois em 82 ele intitulou seu segundo disco Singin’ Alone, pouco antes de se jogar da janela de um hospital. Não estou dizendo que o próprio Arnaldo tenha “mudado de droga”, mas que o estado do ânimo dele retrata a passagem do período (um pouco como a morte de Brian Jones pontuou o fim da alegria da swinging London, ao apagar das luzes dos anos 60).
Pra cima, pra baixo, pra dentro, pra fora
Como eu dizia, hoje são acessíveis dezenas de drogas, naturais e sintéticas, lícitas e ilícitas. Mas, ficando só nas mais populares (ou mais comentadas), dá pra fazer algumas divisões de “estilo” ou “personalidade da droga”.
Excluí desse esquema as substâncias naturais de uso religioso ou xamânico (peiote, São Pedrito, ayahusca, jurema etc) porque elas em geral são usadas em rituais que direcionam e “corrigem” as viagens para os resultados místicos pretendidos ****.
Fazendo um diagrama: podemos dizer que há drogas da “expansão vertical” (partindo do ego para estados amorosos, telepáticos ou transpessoais de percepção) e drogas da “expansão horizontal” (que facilitam a socialização, mas sem diluir ou questionar a “identidade” de quem usa).

Na metade de baixo coloquei as drogas da freqüência do ego: cocaína, crack (a base da cocaína, sem refino), heroína, anfetamina, álcool. Na de cima, as drogas da chamada expansão da mente ou as amorosas: LSD, ecstasy, maconha. Na metade da esquerda, drogas mais introspectivas: maconha, heroína, crack. Na da direita, drogas mais sociais: LSD, cocaína, anfetamina, álcool.
O grupo mais benigno (substâncias que podem atuar simultaneamente no desempenho social E na mudança da percepção pessoal) seria o do quadrante superior direito (LSD, ecstasy). Os outros trariam restrições de um tipo (diminuição das habilidades sociais) ou do outro (fixação nos aspectos mórbidos do ego), ou desses dois tipos simultâneamente – o que faria do crack e da heroína as drogas mais devastadoras.
Evidente que esse esqueminha não é exato química e nem fisiologicamente; nem trata de dosagens e graus de concentração (exceto no caso da coca e crack, que tem um patamar perceptível entre elas, apesar de serem a mesma substância).
Também não trata de efeitos colaterais perigosos (a desidratação no uso do ecstasy, por exemplo). E ainda é um tanto arbitrário ao separar o E (ecstasy) das outras anfetaminas.
Mas serve pra estabelecer que o “rodízio” de drogas díspares, ou a montanha-russa de baratos à moda do Dr. Gonzo (de Medo E Delírio Em Las Vegas, o livro de 71 de Hunter Thompson, filmado em 98 por Terry Gilliam), parece um passo ainda mais insensato, num território que já é minado por definição.
Drogas que ensinam, drogas que matam
Recapitulando: porque os artistas tomam drogas (e, como dizia minha avó, parece que também costumam transar com um monte de gente)? O desregramento conduz diretamente à criatividade? E porque os fãs tomam drogas – pra imitar seus ídolos ou pra viajar no som e partilhar um estado de espírito com eles?
Parafraseando Nick Hornby, eu gosto de música pop porque sou drogado ou eu sou drogado porque gosto de música pop? Nos exemplos mais criativos, esse é um sistema de realimentação. A droga afeta a percepção e rende experiências que são recicladas em “arte”, essa arte expõe o artista positivamente e essa exposição o deixa à vontade pra ir com segurança ainda mais longe – ou não.
A combinação de pressão da exposição pública e uso intenso de drogas pode levar ao desequilíbrio pessoal e à destruição sumária de talentos (o citado Brian Jones, Kurt Cobain, Janis Joplin, Jim Morrison etc), ou à degradação de carreiras – tipo a síndrome do junkie chato e decadente em cima do palco. Esqueça o RPM.
E, às vezes, o transe leva a regiões da percepção que dificilmente são traduzidas em música ou palavra que alguém em estado mais sóbrio decodifique – aquelas jams e letras rascunhadas “geniais”, que vistas/ ouvidas no dia seguinte são só uma confusão indigesta e incompreensível.
Da fase experimentalista (e condescendente) da contracultura, as bisonhas tentativas literárias de “escrita automática” ou espontaneista de Bob Dylan e John Lennon não nos deixam mentir – respectivamente nos livros chatinhos Tarântula e Um Atrapalho No Trabalho, de 71 e 69.
Já textos exemplares como Confissões De Um Comedor De Ópio, de Thomas De Quincey (1785-1859), foram escritos “a respeito” desses estados, e não necessariamente de dentro deles *****.
Por outro lado, o uso “sábio” de substâncias legais ou ilegais pode colocar artistas e platéias em estados de profunda sintonia, nos quais a música deixa de ser um exercício técnico pra se tornar uma comunhão e uma revelação (meu advogado samoano está resmungando que “‘uso sábio’ está no limite da apologia, cara”)...
Porque mandar a cabeça para o espaço?
A última grande pergunta é: porque alguém se arriscaria tanto nesses experimentos químicos desestruturadores da personalidade, ao invés de simplesmente viver uma vidinha pacata e distante dessas substâncias de efeitos imponderáveis?
A resposta é: PORQUE SIM – ou milhões de pessoas de todas as classes em todo o mundo não estariam procurando estados alterados aleatórios neste exato instante, cheirando cola de sapateiro ou tomando xaropes enjoativos no gargalo e injetando remédio de nariz na veia, ou aspirando anestésico de cavalo.
Voltando ao trecho inicial de Thomas Mann: é porque o irracional está exasperado, cansado de ser reprimido. Ou, em outras palavras, porque o atalho pra Deus hoje passa forçosamente através do Diabo.
Como disse William Blake, “o caminho do Excesso leva ao palácio da Sabedoria”. E Roberto Piva acrescenta, definindo o xamanismo: “é ir ao inferno e voltar vivo”. Ou mais vivo. Sexo, drogas e rock’n’roll: um outro nome pra Deus.
* Crowley deixou sua herança mágica pra vários outros roqueiros conhecidos – notadamente Jimmy Page – e para alguns agrupamentos mais experimentais, como o Current 93. Mr. C. também teria sido uma (ins)piração mal-digerida para o compositor e assassino Charles Manson
** Nunca houve confirmação de que a aparentemente ingênua “Chocolate” seja um hino ao haxixe. Fica difícil ter certeza, afinal de contas Tim Maia, além de junkie, também era comilão
*** Referências a drogas como lança-perfume, maconha e cocaína também aparecem em sambas antigos e recentes, como os de Bezerra da Silva, mas em geral parecem soar mais como crônicas marotas do dia-a-dia da malandragem do que um tributo à droga em si. A emblemática “Dá Um Tempo Malandragem” (“vou apertar/ mas não vou acender agora”) foi reciclada espertamente pelo Barão
**** A propósito, os xamãs acreditam que por trás de toda substância natural há um ser elemental, o espírito da planta, que revela sua individualidade a quem a ingere. Uma interessante lenda de maldição diz que o elemental da coca teria como missão destruir o “mundo branco”, como vingança pela derrocada do Império Inca e de sua sabedoria. Se for isso, o crack está fazendo bonito
***** Se bem que há o caso da ótima letra “Escola da Maldade”, resgatada pelo Atahualpa Y Us Panquis de um guardanapo esquecido numa mesa de bar, e que, apesar dos apelos públicos da banda, jamais foi reivindicada pelo seu autor – provavelmente um bebum inspirado porém sem memória nenhuma
(publicado na Zero #6, março de 2003)
19 discos-chave na compreensão do gênero e de suas transformações
(por Bárbara Lopes e Alex Antunes)
De tempos em tempos, a imprensa publica alguma enquete sobre os melhores discos brasileiros de todos os tempos. Em geral marcadas pela subjetividade e a idiossincrasia dos votantes (e incluindo quase sempre algum álbum recente e não-referendado pelo distanciamento histórico), essas listas alternam alguns achados e alguns votos constrangedores.
O modelo aqui é diferente – são 19 discos (abaixo os números redondos!), expostos em ordem cronológica, buscando uma perspectiva histórica. E também há um recorte, ainda que amplo: traçar uma discografia de MPB.
É muito fácil identificar a MPB, mas muito dificil, e impreciso, defini-la. Ao contrário do que às vezes se supõe, a sigla MPB tem significado restrito – pois nem toda música popular brasileira é MPB. Mais do que um gênero ou estilo, MPB é a marca de um tipo de composição derivado de determinadas raízes musicais nativas (a música nordestina, a música folclórica do Sudeste, e principalmente o samba, mas nenhuma dessas em sua forma "pura"), mais influências externas digeridas (algum jazz, algum pop etc) e abrasileiradas.
MPB também se refere a uma forma muito peculiar de se escrever letras em língua portuguesa - uma poética normalmente complexa, feita que é num idioma de palavras polissilábicas e com grande variação de acentuação tônica. Mais do que uma lista baseada em gostos, o que tentamos aqui foi apresentar artistas e álbuns que marcaram a carreira de seus autores, e a própria história da música brasileira moderna.
Caymmi E Seu Violão – Dorival Caymmi (1959)
O samba nasceu na Bahia, cantaria Vinícius de Moraes, certamente pensando em Dorival Caymmi. Caymmi E Seu Violão é o último disco do baiano antes do estouro definitivo da bossa-nova, que, por um lado, resgataria algumas de suas canções, como "Rosa Morena", mas que também transformaria sua marcante voz de barítono em coisa do passado.
O disco é dedicado a uma das temáticas mais caymmiescas de todas: as canções de pescador, de jangadas que voltam vazias e da doce morte no mar. A influência de Caymmi pode ser considerada inversamente proporcional ao tamanho de seu repertório. Conta-se que quando Almir Chediak estava organizando seu songbook teve de incluir músicas familiares, usada para acalentar netos, e nem assim conseguiu completar cem canções.
Canção Do Amor Demais – Elizete Cardoso (1958)
Apenas com parcerias entre Tom Jobim e Vinícius de Moraes, o disco, que é considerado o marco inicial da bossa-nova, não parece muito bossa-nova aos ouvidos atuais. Isso por causa da voz de cantora de rádio de Elizete, nada desafinada, e da orquestração complexa, nada de uma nota só. O resultado é próximo ao samba-canção, ao bolero, e mesmo faixas conhecidas da dupla, como "Janelas Abertas" e "Eu Não Existo Sem Você" ficam irreconhecíveis.
Mas quem nunca ouviu falar em bossa-nova é capaz de identificar duas músicas que indicam algo novo acontecendo: "Chega De Saudade", abrindo o disco, e "Outra Vez". Não é coincidência. As duas faixas são embaladas pelo revolucionário violão de João Gilberto, que apareceu por acaso no apartamento da rua Nascimento e Silva, 107, no Rio de Janeiro.
Ainda que na música de Tom (como no clima de balada de musical da Broadway de "Luciana") já se prenunciem algumas mudanças na estrutura musical, é a batida de Joãozinho que vai diferenciar a bossa antiga da nova. Segundo o livro Bim Bom, de Walter Garcia, "No samba tradicional, o surdo marca e acentua o tempo fraco(...). João, em contraposição mantém a marcação regular dos dois tempos do compasso binário”.
Chega De Saudade – João Gilberto (1959)
Com Chega De Saudade, João Gilberto concluiu a revolução da bossa-nova, ao trocar o cantar abolerado e pomposo pela voz baixa, quase sussurrada que virou sua marca. Depois dele, todos os cantores e cantoras descobriram uma nova maneira de dizer as letras das músicas – nos primeiros discos de Caetano Veloso, Gal Costa e Chico Buarque a influência é óbvia.
No disco, standards da bossa-nova, como a faixa-título, "Desafinado" e "Lobo Bobo", de Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli, suas composições onomatopaicas, "Hô-bá-lá-lá" e "Bim Bom", e clássicos mais antigos, que hoje são a tônica de seu repertório, como "Aos Pés Da Cruz", de Marino Pinto e Zé da Zilda, e "É Luxo Só", de Ary Barroso. Chega De Saudade, disco de estréia de João, também marca a inauguração de sua característica mais famosa: o perfeccionismo que beira a chatice, levando os produtores (entre eles, Tom Jobim) à loucura.
Show Opinião – Nara Leão, Zé Kéti e João do Vale (1965)
Durante os cinco anos que separam Chega De Saudade do espetáculo Opinião, a bossa-nova já entrava num beco sem saída, marcada pelo elitismo, pelo distanciamento de temas populares, pela repetição de fórmulas – não à toa, uma das músicas dessa fase, "O Barquinho", de Roberto Menescal, virou o argumento de todos que consideram a bossa-nova enfadonha.
Nara Leão, neste show, "salva" o gênero, ao reaproximá-lo do samba e da música nordestina, ao se recusar a cantar apenas as músicas que ficariam bem para uma moça da zona sul carioca, como ela mesma diz no show. Ao lado dela, Zé Kéti, "a voz do morro", e João do Vale, maranhense, negro, analfabeto, mas que sabia fazer baião (como diz na letra de "Minha História"). A partir de Zé Kéti, é possível recuperar a tradição de Ismael Silva, Noel Rosa, Ataulfo Alves, Wilson Batista, Cartola, músicos que realmente inventaram o samba – ao separá-lo de vez do maxixe, ao criar soluções poéticas cotidianas e sofisticadas e um tipo, o malandro.
João do Vale, por sua vez, trazia em si a herança da música nordestina mais agreste, de Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga. No Show Opinião, essas três linhagens principais do que viria a ser conhecido como MPB – a bossa-nova classe média de arranjos jazzísticos, o samba carioca e os ritmos nordestinos – são apresentados à platéia didaticamente, sem fusões. Há humor (na malícia das músicas de João, como "Peba Na Pimenta") e protesto (o espetáculo estreou poucos meses após o golpe militar.
Um dos melhores momentos acontece quando Zé Kéti explica seu apelido, diminutivo de Zé Quieto. "A letra K estava dando sorte: Kennedy, Krushev, Kubistchek. Agora parece que não mais"), num resultado teatral. Maria Bethânia depois substituiria Nara Leão no show, vindo para o sul trazendo a tiracolo seu irmão Caetano e interpretando a que seria a versão definitiva de "Carcará", de João do Vale.
Tropicália Ou Panis Et Circensis – Rogério Duprat, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Nara Leão, Gal Costa, Mutantes, Torquato Neto e Capinan (1968)
Provavelmente nenhum disco brasileiro mereça tanto os adjetivos "histórico" e "revolucionário". O disco é um manifesto moderno ("O avanço industrial / vem trazer nossa redenção", ironiza Tom Zé em "Parque Industrial") e modernista ("A alegria é a prova dos nove", o slogan oswaldiano repetido pela "Geléia Geral" de Gilberto Gil e Torquato Neto).
Provocativo: sobra para Chico Buarque e sua Carolina ("E outra moça também, Carolina / Da janela examina a folia", em "Geléia Geral" e "Você precisa saber ... da Carolina", em "Baby"), para a Igreja ("Molhada de vinho e manchada de sangue", em "Miserere Nobis", música de Gil para letra de Capinan), até para as mães (na subversão do ditado popular de "Ser mãe / É desdobrar fibra por fibra / Os corações dos filhos", em "Mamãe Coragem" e na interpretação cínica de Caetano Veloso para "Coração Materno", de Vicente Celestino).
Mas o tema principal é conflito entre a música brasileira e a estrangeira, com os tropicalistas defendendo o ie-ie-iê, as paradas de sucesso em que desaparece Lindonéia (parceria de Caetano e Gil, voz de Nara Leão), as guitarras dos Mutantes. Para amarrar tudo isso, os arranjos vanguardistas do maestro Rogério Duprat.
Construção – Chico Buarque (1971)
"Construção" é o "Poema Tirado De Uma Notícia De Jornal" levado às últimas conseqüências. A letra em si é uma construção, em que as proparoxítonas funcionam atuam como tijolos que podem ser montados e desmontados ("Beijou sua mulher como se fosse a última / como se fosse a única / como se fosse lógico"). A poesia primorosa ainda ganhou o apoio vocal do MPB4 e a orquestração de Rogério Duprat, cujos arranjos sofisticados simulam o tráfego que a morte do operário atrapalha.
Se só essa música já tornaria qualquer disco uma obra-prima, o disco Construção ainda tem "Cotidiano" e "Deus Lhe Pague", a versão de Chico para "Gesùbambino", "Minha História". Ainda participa do disco o Trio Mocotó, que Chico havia conhecido em uma apresentação na Itália. O álbum marca um amadurecimento desde Chico Buarque de Hollanda – Vol. 4 (1970), e uma escolha na forma de compor, em que a música passa a servir a letra.
Carlos, Erasmo – Erasmo Carlos (1971)
Em 1970, a "revolução ingênua" da Jovem Guarda estava esgotada, e Roberto e Erasmo entravam em suas vidas adultas. O Rei, apesar das referências a carros e rebeldia ("120... 150... 200 Km Por Hora"), já ia fundo na fase soul-gospel ("Jesus Cristo"), e Erasmo descobrira sua persona mais poética nas belas "Sentado À Beira Do Caminho" e "Coqueiro Verde". No ano seguinte, 1971, viria o lançamento daqueles que são, talvez, seus álbuns definitivos: Roberto Carlos e Carlos, Erasmo.
Roberto chegou à fase mais introspectiva de "Detalhes" e "Debaixo Dos Caracóis Dos Seus Cabelos", escrita para Caetano no exílio de Londres, além de seu primeiro hit de motel, "Amada Amante". O Tremendão, curtindo o casamento com Narinha, tendo viajado muito – nos dois sentidos –, e sem a pressão do estrelato, estava atento à realidade, digamos, mais alternativa e psicoativa, apesar de seu canto suave. A revolução sexual aparece em Carlos, Erasmo nas faixas "Masculino, Feminino" e "Não Te Quero Santa", e as drogas em "Maria Joana". Os músicos incluem os Mutantes (Serginho, Liminha, Ronaldo), o guitar hero Lanny Gordin (das bandas de Gil, Gal e Macalé), e o maestro Rogério Duprat.
Um who's who de compositores inclui Caetano (no malemolente arranjo de berimbau para "De Noite Na Cama"), Jorge Ben ("Ninguém Chora Mais" em versão hendrixiana), Marcos Valle e um agressivo Taiguara ("26 Anos De Vida Normal" e "Dois Animais Na Selva Suja Da Rua", com pegada soul). E, claro, Roberto & Erasmo, no modo surpreendentemente lúcido e intenso de "É Preciso Dar Um Jeito Meu Amigo", "Mundo Deserto", "Ciça Cecília", "Gente Aberta". Pra se ter uma idéia, o momento bíblico do repertório é... "Sodoma E Gomorra".
Sociedade Da Grã-Ordem Kavernista Apresenta: Sessão Das Dez – Raul Seixas, Sérgio Sampaio, Miriam Batucada e Edy Star (1971)
Não é propriamente um grande álbum, mas uma prévia e um cruzamento de quatro talentos (bom, talvez três) em ascensão. Raul, que trabalhava na CBS como produtor (Jerry Adriani, entre outros), "roubou" horas de estúdio para produzir esta maluquice inspirada em Frank Zappa e na linguagem pop e dos quadrinhos, um anti-manifesto da MPB. Por causa do disco, foi despedido.
Antes de descobrir seu primeiro grande parceiro, Paulo Coelho, e o rock com inflexão brazuca, Raul divide a maior parte do trabalho com Sérgio Sampaio. A ênfase, então, fica no samba irreverente (aqui o termo realmente cabe) e na proposta sintomaticamente anarquista e contracultural da coisa toda. Sérgio chegaria ao álbum próprio (o maravilhoso Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua) depois que sua música homônima fez sucesso no Festival Da Canção.
Isso seria em 73, mesmo ano do grande Krig-Ha Bandolo! de Raul. Miriam Batucada lançaria Amanhã Ninguém Sabe no ano seguinte, fazendo, na definição de Pedro Alexandre Sanches, "samba matreiro", elo perdido na "tradição iniciada por Ademilde Fonseca, arranhada por Elza Soares e prestes a ser entregue a Baby Consuelo". Também em 74 a Som Livre bancou a carreira-solo do obscuro baiano-glitter-andrógino Edy Star, em ...Sweet Edy..., com músicas compostas para ele por Caetano, Gil, Roberto e Erasmo Carlos (!), provavelmente pensando no filão aberto pelos Secos & Molhados.
Clube Da Esquina – Milton Nascimento e Lô Borges (1972)
De um lado, Beatles, do outro, as músicas da folia de reis. Clube Da Esquina, o apelido daquela turma que reunia Milton Nascimento, os irmãos Marcio e Lô Borges, Beto Guedes, Wagner Tiso, Toninho Horta, Ronaldos Bastos e Fernando Brant, se tornou disco que simboliza toda uma maneira mineira de fazer música, de arranjos sofisticados, jazzísticos e progressivos (premiados com a extraordinária voz de Milton Nascimento), e letras, a um tempo, singelas, bucólicas e engajadas.
Também já começava a se apresentar ("San Vicente" deixa isso claro) a influência sobre Milton da música política latino-americana, de nomes como Violeta Parra e Mercedes Sosa. Com um resultado de força universal, os mineiros fizeram a MPB por um momento dar as costas para o mar e olhar para o interior. O álbum Clube Da Esquina também inclui clássicos como "Paisagem Na Janela", "Um Girassol Da Cor Dos Seu Cabelo" e "Nada Será Como Antes".
Acabou Chorare – Novos Baianos (1972)
Os Novos Baianos são os filhos rebeldes da Tropicália. O grupo – Moraes Moreira, Paulinho Boca de Cantor, Pepeu Gomes, Baby Consuelo, Galvão, Bolacha, Dadi e Baixinho – foi o auge do hippismo no Brasil, morando todos juntos em comunidade num sítio em Jacarepaguá. E logo abandonaram o cinismo típico dos tropicalistas, se dedicando à música brasileira mais tradicional (samba, frevo e choro), tanto que cabem em seu repertório clássicos como "Brasil Pandeiro", de Assis Valente, e o frevo "Vassourinhas", sem qualquer estranheza.
Essa música "de raiz" foi atualizada menos pelo rock (presente na guitarra hendreixiana de Pepeu) e pela música estrangeira e mais pela influência decisiva de João Gilberto (ele de novo), que freqüentava o grupo. Esse Acabou Chorare é o retrato mais perfeito da mistura toda: a voz suave de Baby, o violão calmo de Moraes, a guitarra virtuosa de Pepeu, a poesia de Galvão, a percussão divertida dos meninos. Os Novos Baianos tinham "carne de carnaval", como cantam em "Swing De Campo Grande", e viraram referência para várias gerações de músicos, de Cazuza a Los Hermanos.
Aprender A Nadar – Jards Macalé (1973)
Coadjuvante dos baianos que fundariam o Tropicalismo, o carioca Macalé trabalhou, como compositor, arranjador e diretor musical, com Maria Bethânia, Gal Costa e Caetano Veloso, entre meados da década de 60 e o início da de 70. E os traços pós-tropicalistas ainda estavam bem claros no seu álbum homônimo de estréia, em 72. Mas, em 74, Macalé emergiu com toda sua obsessão própria no ambicioso Aprender A Nadar, escrito com o poeta Waly Salomão, e lançando a linha da "morbeza" (morbidez e beleza) romântica.
Fortemente enraizado na música brasileira por formação (foi copista do maestro Severino Araújo), mas influenciado pelas experiências urbanas da poesia, das artes plásticas e do cinema underground, Maca apresenta o equivalente discográfico de um filme de Rogério Sganzerla, em que momentos de lirismo lancinante convivem com vinhetas anárquicas e cortes abruptos.
Dos chamados compositores "malditos" dos anos 70, Jards Macalé fez a ponte mais espontânea com formas musicais populares como o samba e o bolero, talvez comparável à musicalidade de Sérgio Sampaio. Jorge Mautner foi uma espécie de clown pop e filosófico, Walter Franco investiu mais no rock e no experimentalismo concreto, e Tom Zé "estudou o samba", mas para desconstruí-lo.
Secos & Molhados – Secos & Molhados (1973)
O grupo ofereceu a cabeça em uma bandeja: as letras poéticas de João Ricardo, o discurso político, a maquiagem e a atitude andrógina de Ney Matogrosso. Ainda assim, e por isso mesmo, o Secos & Molhados alcançou um sucesso imediato entre o público, vendendo 300 mil cópias (ou um milhão, segundo os próprios) deste primeiro álbum, de 73.
Nele, clássicos como "Sangue Latino" e "O Vira", poemas de Manuel Bandeira ("Rondó Do Capitão"), Cassiano Ricardo ("Prece Cósmica" e "As Andorinhas"), Vinícius de Moraes ("Rosa De Hiroshima") e de João Apolinário, pai de João Ricardo ("Amor" e "Primavera Nos Dentes"). Espécie de convergência ideal entre a densidade da tropicália e o popismo da jovem guarda, o grupo lançaria mais um disco e acabaria no ano seguinte, em meio a brigas por dinheiro e espaço.
Pérola Negra – Luiz Melodia (1973)
Depois de Jorge Ben, da Tropicália e de Tim Maia, estava desbravado o caminho para que jovens compositores propusessem misturas do samba e do choro com as influências do rock, do blues e da black music. Mas o próximo gênio a trilhar essa via, de uma maneira orgânica e elegante, foi Luiz, o filho do compositor Oswaldo Melodia, do morro do Estácio. Sua música e sua poesia surpreendentes eram afiliadas ao mesmo tempo à tradição do samba (Noel Rosa, Ismael Silva, Geraldo Silva) e aos "procedimentos" tropicalistas.
E impressionaram os poetas Torquato Neto e Waly Salomão, que convenceram Gal Costa a gravar a linda "Pérola Negra" em 72. O sucesso da música levou Melodia ao estúdio, para as gravações do seu primeiro álbum, onde ele superou a versão de Gal com a sua própria, de cores ainda mais melancólicas - e acrescentando outras pérolas como "Magrelinha", "Estácio, Holy Estácio", "Abundantemente Morte" e "Farrapo Humano".
A Tábua De Esmeralda – Jorge Ben (1974)
O primeiro álbum de Jorge Ben, Samba Esquema Novo, foi lançado em 63, e já fazia jus ao nome, apresentando uma pegada diferente no violão que veio do rock, do soul e da bossa – mas que o próprio Ben descreveu singelamente como a batida do tamborim transportada para as seis cordas.
Desde o início ele emplacou sucessos radiofônicos de comunicabilidade instantânea, como "Mas Que Nada", e atingiu seu primeiro ápice criativo na fase em que trabalhou com o Trio Mocotó, em outro disco que corresponde ao nome: Força Bruta (70). Já tendo trocado o violão pela guitarra e acrescentando à sua poesia absolutamente coloquial, espontânea e casual alguns traços do esoterismo setentista, lançou em 74 seu LP mais maduro, A Tábua De Esmeralda (do hit "Os Alquimistas Estão Chegando").
Em meio aos embates ideológicos da música brasileira, ainda nos anos 60, Ben era uma rara unanimidade. Foi o único artista convidado tanto por Elis (que gravou "Bicho Do Mato") para o classudo programa de televisão O Fino Da Bossa, quanto por Roberto e Erasmo (que gravou "Ninguém Chora Mais") para o iê-iê-iê da Jovem Guarda. Depois ainda emplacaria o Divino Maravilhoso dos tropicalistas Caetano e Gil (que gravaram "País Tropical" com Gal Costa).
Tim Maia Racional – Tim Maia (1975)
Mais que um grande cantor e compositor black, Tim foi uma força da natureza, bela, caótica e indomável. Da mesma turma da Tijuca de onde vieram Roberto e Erasmo Carlos, o jovem Tim viajou no final dos anos 50 para os EUA, onde conheceu a soul music, e de onde voltou deportado, em 63, por porte de maconha. Gravado por Elis em 70, a conselho de Nelson Motta, Tim teve a oportunidade de lançar uma série de quatro irrepreensíveis álbums entre 70 e 74.
Todos levavam apenas o seu nome, onde calibrou uma mistura magistral (e altamente combustível) entre o soul-funk, o rock e as raízes brasileiras. Sua fórmula, e a de Jorge Ben, mudariam a cara da música popular. Em 75, em um momento de inconformismo com a indústria e de "iluminação" espiritual, lançou o exótico e independente álbum Racional (depois seguido por um segundo volume), todo dedicado aos ensinamentos da seita Imunização Racional.
É Tim na sua melhor forma de crooner, compositor e arranjador, entre funk, soul, balada, samba e latinidad, num balanço de riqueza musical só comparável à posterior banda Black Rio, e aos melhores momentos de Cassiano e Hyldon. Banido durante anos pelo próprio Tim, que voltou à "irracionalidade" das drogas e do sexo (e da disco music) após romper com a seita, o álbum aparece às vezes em CDs piratas que juntam as duas partes.
Memórias Cantando – Paulinho da Viola (1976)
Memórias saiu em 1976, quando Paulinho da Viola tinha 34 anos de idade e 14 como compositor. Porém, as memórias de que falam os discos (esse Cantando e seu par Memórias Chorando, instrumental, só de chorinhos) vão muito mais longe, até a gênese do samba. Nesse disco, Paulinho reuniu composições suas, muitas já conhecidas em outras vozes, e sambas antigos, como "Nova Ilusão", de Claudionor Cruz e Pedro Caetano, e "Pra Que Mentir", de Noel Rosa e Vadico.
Em Memórias Cantando, Paulinho se volta para arranjos simples de samba e sua voz está calma e suave, com sua elegância característica. A genialidade como letrista também se sobressai nesse disco, em canções como "Vela No Breu" e "Meu Novo Sapato". Em "Coisas Do Mundo, Minha Nega", Paulinho faz uma ponte entre pequenas tragédias cotidianas (um que não está "sem amor e sem dinheiro", outro que esquece a promessa feita à mulher de "não beber mais cachaça", e, por fim, o que morre numa briga) e o lirismo redentor do samba, num mundo em as coisas estão aí, só é "preciso aprender".
Beleléu, Leléu, Eu – Itamar Assumpção E Banda Isca De Polícia (1980)
Em 1980, quando a MPB já caminhava para uma certa estagnação, que coincidiria com a explosão do pop-rock-wave ao longo da década, um espasmo de renovação partiu da chamada "vanguarda paulistana", reunida em torno do selo e teatro Lira Paulistana. O primeiro impacto aconteceu com a vitória de Arrigo Barnabé no Festival Universitário da TV Cultura, com a música "Diversões Eletrônicas", em 79.
Paranaense e formado em música pela USP como Arrigo, Itamar Assumpção estreou no ano seguinte com este álbum memorável. Sua mistura de mitologia da malandragem e poesia elaborada, samba e música elétrica moderna, não difere substancialmente do enfoque, por exemplo, de Luiz Melodia. A questão é que aqui o impulso parece se mover da intelligentsia para a favela (e não o oposto, como no caso de Melô), o que dá para o trabalho um certo polimento intelectual e antipopular.
Expresso, por exemplo, nos breques que estão mais para jazz-rock do que para Kid Morengueira, e nos corinhos femininos não-espontâneos, quase brechtianos no deliberado distanciamento da "naturalidade" nos arranjos. Mas uma versão samba-rock como a que Branca Di Neve fez depois para o hino "Nego Dito" confirma a verdadeira dimensão de Itamar como compositor popular brasileiro.
Samba Esquema Noise – mundo livre s/a (1994)
Essa é uma observação meio deslocada para uma discografia de MPB, mas vá lá: o mundo livre s/a é para o rock brasileiro mais ou menos o que o Pulp foi para o britpop – uma banda que, tendo perdido a época em que surgiu (anos 80), teve a paciência de esperar um outro ápice cultural (anos 90). E, ao aparecer, "importou" certos valores antigos, "adensando" as referências posteriores.
Assim, se Jarvis Cocker fica a meio caminho entre Morrissey e Brett Anderson do Suede, Fred Zero Quatro tem o seu lugar em algum ponto entre Walter Franco e Chico Science – ou entre Jorge Ben e Jorge Du Peixe. O acúmulo de anos de (in)formação resultou num álbum de estréia tão facetado e complexo que quase destruiu a banda: não havia como traduzir ao vivo o resultado do mergulho de vários meses no estúdio.
Composições sexies e bacanas como "Musa Da Ilha Grande" e "A Bola Do Jogo" convivem com o discurso político de "Homero, O Junkie", psiquiátrico (!) de "Terra Escura" ou filosófico-sarcástico de "Samba Esquema Noise". Uma onda que pode ser traduzia por uma contradição em (três) termos: ginga-punk-livresca. Em 94 Otto fazia parte do grupo.
Do Cóccix Até O Pescoço – Elza Soares (2002)
A sambista Elza é o mais notável caso de longevidade artística da música brasileira. Mas este álbum, com a (eclética) direção artística de José Miguel Wisnik, vai mais longe ainda. Aos 66 anos, Elza não só preserva as características únicas da sua voz e da sua interpretação exaltadas (antônimas da bossa nova, ainda que igualmente jazzísticas), como as projeta para o futuro. O disco caminha com naturalidade entre arranjos ortodoxos ("Bambino", letra de Wisnik para o choro de Ernesto Nazareth) e até trip-hop - na releitura definitiva de "Haiti" de Caetano e Gil, ainda mais contemporânea que a gravação original, e em "A Carne", parceria de Marcelo Yuka do Rappa com Seu Jorge, ex-Farofa Carioca.
Esse papel renovador é confortável para Elza, coisa clara em álbuns antigos relançados em CD como Baterista: Wilson Das Neves (68, de "Deixa Isso Pra Lá") e Elza Pede Passagem (72, que traz "Saltei De Banda"). E o sinal de que este álbum não é lançamento isolado, mas faz parte de uma certa retomada, é a volta simultânea do Trio Mocotó, com o igualmente bem-sucedido (ainda que mais discreto) Samba Rock (2001).
(publicado na edição de fevereiro do B*Scene)
Pra quem não ficou sabendo ou não prestou atenção, houve uma malfadada carta de ONGs do setor da saúde pública, atacando a escolha da cantora Kelly Key como garota-propaganda da campanha de carnaval do Ministério da Saúde. O tom e o tema me lembraram um surto de intolerância cultural parecido, daquela vez contra o chamado “funk” carioca (pouco a ver com o funk propriamente dito), uns dois anos atrás.
Dizia o manifesto das ONGs, no seu trecho (pretensamente) mais contundente, que Kelly não respeita “uma visão política do mundo e suas relações de gênero”, e que defende “uma pseudoliberdade sexual, em que o homem é o oprimido e a mulher é a opressora”.
A reclamação não colou, como atestam os simpáticos outdoors com a moça, nas ruas, segurando uma camisinha e dizendo “mostre que você cresceu e agora sabe o que quer” (a campanha está na televisão e no rádio também, mas não assisti nem ouvi).
Ora, a crítica da carta era totalmente injustificável do ponto de vista das atribuições formais – como bem observou uma conhecida minha, esse é o Ministério da Saúde, ou o Ministério da Moral e Bons Costumes? E bastante estúpida do ponto de vista do marketing propriamente dito.
Afinal, Kelly Key é popular e tem credibilidade pra falar de sexo, bem mais do que a “virginal” (ela quem diz) Sandy. A histeria parece ocultar outras intenções. Não custa aqui lembrar que um outro texto atacando Kelly também circulou pela Internet, e ostentando a assinatura de mestre Millôr – o qual, seguramente, jamais escreveria algo tão canhestro, rancoroso e sem graça.
Este trecho, pelo vocabulário, parece mais uma espécie de Faustão estressado: “Acho que 99% do país já teve o desgosto de ouvir ‘Baba Baby’, hit da temporada, defendido com muita propriedade pela buzanfa cantante da Kelly Key. Quando essa bosta não está tocando no rádio do seu vizinho jeca, do shopping ou do táxi, tem alguma mala fazendo o desfavor de lembrar o refrão pra você. (...) Kelly é um perfeito protótipo de uma vagaba exemplar. Mas calma, isso não é ruim. Afinal, milhares e milhares de brasileiras queriam ser como ela, enquanto a mesma proporção de homens queriam ter ela (sic)”. Buzanfa, bosta, vagaba. Tosqueira é pinto.
Mais adiante, o aspirante a cronista irônico (se é que de ironia se trata) diz: “O que eu não entendo é que enquanto todas as agências internacionais de inteligência travam batalhas, movendo mundos e fundos contra a pedofilia, esse mal que assola a humanidade e ameaça o direito de escolha de nossas crianças, as pessoas cantam exatamente o contrário! Se prenderam o Planet Hemp por falar de maconha, por que não prendem essa mala? Afinal ela está incitando uma prática ilegal! (...) Onde está o Taliban nessas horas? (...) Tudo bem que achar uma garota que se mantenha virgem até atingir a maioridade é que nem achar um vendedor da Fórum macho. Quase impossível. Mas daí a condenar publicamente o sujeito que pôs a integridade acima do instinto animal... é tipo arrotar alto na mesa, coisas que você só faz entre amigos, em concursos e em fim de festas”... Grifos meus – and no comments.
Contra a lolita e a dominatrix
Afinal de contas, o que fez a Kelly pra aguçar desse modo o dente dos moralistas? É provável que não tenha sido posar pra Playboy – uma coisa certamente vulgar, mas pelo menos bem-paga neste tempo de vacas (perdão) magras. E que mesmo intelectuais (uh) como Bruna Lombardi já fizeram.
Kelly também não me parece nem muito pior nem muito melhor do que outras cantoras, essas prezadas da elite “pensante” – na verdade, Kelly me parece até um pouco menos picareta do que a Marisa Monte, por exemplo.
Bom, em relação ao “funk”, digamos que as críticas poderiam ser compreendidas como a mágoa de espíritos sensíveis diante da desinibição de gente como o MC Serginho. Esse, o mais descarado entre os poetas populares, é o autor das linhas primorosas “Abre as pernas, faz beicinho/ eu vou morder o seu grelinho/ (...) Abre a boca, não se espanta/ eu vou gozar na sua garganta”... Até penso que Serginho se redimiu da baixaria com a “Eguinha Pocotó” – já que não é o que se diz por aí, volto depois ao assunto.
Mas Kelly, poxa, em seus dois hits, Kelly não gravou nenhum palavrão, não fez nenhuma referência ginecológica, e nem sequer cita despropósitos nos quais o mais moralista dos seres humanos não tenha pensado ou incorrido. A saber, respectivamente, a atração por meninas novas (à qual o personagem masculino da música, por sinal, resiste), e o embate pelo poder no casal.
As letras. Primeiro, a provocativa “Baba Baby”: “Você nem me olhou/ disse que eu era muito nova pra você/ Mas agora eu cresci/ você quer me namorar (...)/ E pra não dizer que sou ruim/ vou deixar você me olhar/ Só olhar/ Baba, baby”...
A música ilustra como a luxúria e a sede de caos da Lolita em questão (diz ela que foi inspirada numa paixão que teve aos sete anos...) esbarrou na firmeza ética (a bem da verdade parece mais distração ou bobeada, pelo menos a partir do momento em que ela fez uns 13) do cidadão, um professor de educação física. Tudo perfeitamente moral.
Se ela quisesse “calibrar suas armas” ainda incipientes, que procurasse alguém da sua idade, parece afirmar o responsável professor, agora alvo da “vingança” da menina graças exatamente à sua rigidez de princípios. Vê-se que os especialistas das ONGs não leram a letra. Provavelmente só folhearam a Playboy, e não gostaram da saúde do que viram.
Agora, a letra da parafeminista “Cachorrinho”: “Se tem uma coisa que me deixa passada/ é gritar comigo sem eu ter feito nada/ (...) Você gosta de mandar/ Você só me faz sofrer/ Você só sabe gritar/ e grita sem saber/ Mas sem mim você não vive/ sem meus cuidados, amor/ Fala baixinho comigo, a sua dona chegou/ Vem aqui!/ Que agora eu tô mandando/ Vem meu cachorrinho, sua dona tá chamando”.
Nessa, a crítica moralista se justifica menos ainda – isso se o problema realmente é, como afirma a carta, o oportunismo aético de Kelly Key, que “usa o corpo” ou retórica parecida. Ao contrário, a letra, bastante realista, é claramente política ao relatar o autoritarismo vazio do parceiro (um chato barulhento) em “você gosta de mandar/ (...) e grita sem saber”.
O texto é talvez menos ortodoxo (ao revelar parece que um certo viés sadomasoquista), mas certamente é mais rigoroso, e até linha-dura: “Vem aqui! Que agora eu tô mandando”. Ou seja, propõe a substituição de um autoritarismo formal (patriarcal, machista) por um mais protetor e justificado (matriarcal), posto que “sem mim você não vive/ sem meus cuidados, amor”. Abordagem perfeitamente plausível.
O legado de Collor e a eguinha inocente
Outra manifestação rancorosa e falsamente progressista, ainda na net, foi a de um certo professor (não, este não é de educação física) contra o já citado MC Serginho. Típico exemplo do fator Retardo da Crítica, quando um questionamento justo surge injustamente e na hora indevida (a propósito disso veja o texto Amarelo Manga, abaixo).
Depois de chegar ao fundo do poço da inconveniência fonográfica com aquela outra letra, Serginho, em momento singelo, gravou a música “Eguinha Pocotó”, que fez para a filha. Antes de partirmos para a letra, vejamos a reclamação do tal jornalista (ele também é jornalista), veemente.
Ele diz: “Esse é o grande sucesso da música popular brasileira, que domingo ocupou horas preciosas do horário nobre do programa do Gugu, batendo recordes de audiência. (...) Enquanto o Serginho recitava a letra, um sujeito efeminado tinha convulsões, que depois descobri ser a tal dança da égüinha (sic) pocotó. O nome do sujeito? Lacraia. (...) Enquanto o índice da audiência subia, a atração era mantida no ar. E à noite, foi orgulhosamente reprisada por um Gugu exultante com a audiência histórica. Neste domingo, milhões de brasileiros assistiram, espero que envergonhados, ao triunfo da mediocridade. Á (sic) afirmação de que existe, sim, um processo para mediocrizar o Brasil”.
A primeira falácia: se é que a TV brasileira (ou aliás qualquer TV) tem “horas preciosas”, certamente elas não estão nem nunca estiveram no programa do Gugu, nem no do concorrente Faustão, atrações trash por definição.
Nem me parece que Serginho e o “funk” estejam piorando qualitativamente a situação (catastrófica) que já está estabelecida há anos, desde que a programação foi dominada por subgêneros popularescos e paupérrimos como o axé, o pagode-de-corno e o breganejo. E nem vou nem comentar aqui o vetusto dedo acusador do escritor (ele é várias coisas) contra o “efeminado” Lacraia – só faltou berrar, ao estilo do Enéas, “uranista”!
Também não consigo entender como as tais platéias “envergonhadas” estariam alimentando, constrangidas e a contragosto, a “audiência histórica”. Um aviso ao cartunista (ele é vááárias coisas) reclamante: o Brasil já está perfeitamente mediocrizado, e isso não é de hoje nem de ontem. A menos que esse fulano estivesse vivendo na Bulgária desde a posse de Collor, não havia como não notar.
Então porque me incomodo tanto com essa manifestação do conferencista (não sei como esse cara ainda tem tempo de assistir televisão), se ela estaria essencialmente correta, ainda que tardia? Porque, na verdade, a manifestação não está essencialmente correta. Só podemos concordar no assunto: mais até do que a “mediocrização”, o que está em jogo é a própria barbárie e seus sintomas.
O achaque, ao ser complacente com o principal do processo (a “pobreza-rica” da era axé-pagode-sertanejo), se volta contra aspectos secundários (a “pobreza-pobre” e o “mau-gosto” do performer) e, ouso dizer, até contraditoriamente progressistas.
Falo (ops) do desassombro (saudável) de Serginho na abordagem da temática sexual (além do simples fato de ele saber que a mulher tem um "grelinho"!). Desassombro esse que, no caso da composição da eguinha, ainda por cima é menos que insinuado, só sendo enfatizado talvez na dança “convulsiva” do “efeminado” Lacraia (que eu ainda não tive a oportunidade de ver).
Para que não restem mais dúvidas, vamos à letra: “O jumento e o cavalinho/ eles nunca andam só (sic)/ Quando sai (sic) pra passear/ Levam a égua pocotó/ Pocotó pocotó pocotó/ Minha eguinha pocotó/ Vou mandando um beijinho/ pra filhinha e pra vovó/ Mas não posso esquecer/ da minha eguinha pocotó”.
A menos que o leitor tenha aquele senso de humor colegial que se sobressalta à mera menção da palavra “jumento”, simplesmente não há o que comentar. Como comparação poética e musical, eu diria até que essa música não é notavelmente pior, por exemplo, do que a aparentemente pueril “Pluct Plact Zum (O Carimbador Maluco)”, de Raul Seixas.
Que, segundo comentários, injetou nela – ele sim – uma considerável dose de malícia subversiva, ao se inspirar no medicamento tarja-preta Ploct-Plus 25, além de parafrasear um escrito anarquista de Proudhon. Mas isso já é outra história.
Racismo banguela e o pancadão de vanguarda
O caso de Serginho e Lacraia me lembrou ainda a perseguição jurídica e o constrangimento (bem-sucedidos) a que foi submetido, em 96, o palhaço Tiririca. Ele tinha cometido alguns versos infelizes e racistas, por evidente ignorância, numa letra que alguma ONG zelosa foi pinçar deliberadamente no meio do álbum (pois não era a da infame e mesmerizante “Florentina De Jesus”).
E isso no país da impunidade para Maluf e seu estupra-mas-não-mata, para Garotinho e sua desinfecção na cadeira da Benedita... Na verdade me parece que o “pardo” (ainda que branco, se é que vocês me entendem) Tiririca pagou caro por sua falta de dentes, e não por seu racismo “ostensivo”.
Só para situar, no mesmo ano de 96 saiu o primeiro e superproduzido volume de Amigos, reunindo os “sofisticados” Leandro & Leonardo, Chitãozinho & Xororó e Zezé Di Camargo & Luciano. No ano seguinte, em compensação, Claudinho & Buchecha já estouravam mesclando rap e “funk melody”, e eram a melhor coisa da programação radiofônica massificada, uma espécie de Lulu Santos da Baixada.
Claudinho & Buchecha eram, portanto, Qualidade de Vida... Já tive outras oportunidade de ressaltar no “funk” carioca inesperados aspectos estéticos: sua linhagem nobre, da vanguarda européia via Kraftwerk via electro novaiorquino via miami bass até aqui.
E éticos: o reconhecimento de que o feminino tem aspectos afetivo-sexuais contraditórios – representados na “cachorra” liberada e na “tchutchuca” fiel –, porém não-excludentes no mesmo ambiente, superando assim a divisão patriarcal entre locais “familiares” e os outros. Faltou apenas entender que esses aspectos são não-excludentes na mesma mulher...
Também já brinquei ao dizer que as coristas do Faustão dançando ao som de um poperô extremamente rude e abstrato, por mais normal (?!) que isso possa parecer hoje, seria visto nos anos 70 como alguma bad trip de Ralf Hutter & Florian Schneider.
Claro que essas formas estéticas se diluem e recontextualizam ao longo do tempo, mudando de sentido e função. E é claro que o “funk” é mesmo o pus que escorre das feridas da doença mercantil da humanidade; da crise caótica, entrópica, acrítica e paroxística em que a cultura de massas se meteu.
Mas esse pus pode carregar já um anticorpo, um diferencial positivo em relação ao ponto mais negativo do processo. Que seria, eu insisto, a fase anterior (axé-pagode-sertanejo) da degeneração da cultura brasileira, e não esta que vivemos.
Esse elemento paradoxal é a inclusão na mídia dos artistas periféricos, com suas expressões próprias e não-pasteurizadas. É mais fácil enxergar isso em relação ao hip hop politizado. E este, paradoxalmente, faz uso de um discurso político compreensível (inaceitável, é claro, mas compreensível) pela classe dominante.
Então porque é que os elementos de agressão aberta e beirando o non-sense do “funk” à moral vigente não poderiam também ser compreendidos como inconformismo e sinal de uma nova vitalidade política (política, sim)?
É por isso que os ódios que o “funk” (e sua versão cor-de-rosa e felpuda, o electropop R$ 1,99 de Kelly Key) desperta me parecem ter mais a ver com suas qualidades do que com seus defeitos.
Voltando à carta das ONGs, a argumentação dela toda se baseia na desqualificação pessoal de Kelly Key. Pois essa moça, que engravidou adolescente, foi ainda antes da maioridade namorada do cantor Latino (uma criatura da estirpe circense de Tiririca, Serginho e Lacraia), e, para piorar, estreou na televisão apresentando na Globo o programa Samba Pagode & Cia.
Mesmo assim, superou com graça e sem sequelas visíveis esses graves problemas (namorar o Latino e apresentar um programa flopado de pagode com Netinho e Salgadinho evidentemente são Graves Problemas), virando uma cantora pop.
Kelly Key é uma demonstração de que alguma coisa está mudando para o povo de idéias simples, sim – e é para melhor. “Você cresceu e agora sabe o que quer”, exatamente como diz o slogan do ministério. Será essa a real ameaça?
(publicado no site Fraude)