Não, isto não é uma saída inesperada do armário. Aliás, nem sei se a Clarah chama o cara, o Marcelo, de marido. Mas o fato é que ver os dois juntos outro dia enterneceu e esquentou um coração ressequido: o meu.
Seria óbvio demais escrever um troço chamado “Eu amo a Clarah Averbuck” - só um pouco mais óbvio do que “Eu odeio a Clarah Averbuck”, que vem a ser a outra possibilidade de se relacionar com ela.
O que é que a gaúcha tem? Bom, ela escreveu um livro autobiográfico precoce, A Máquina De Pinball, que me deixou exatamente com essa dúvida - amar ou odiar - durante uns dois terços da leitura. Quando dei o braço a torcer (para o livro abusado, porque da autora abusada eu gostei instintivamente), senti que eu estava me abrindo não para uma história qualquer, nem sequer para um estilo ou para uma “proposta literária”, mas para o futuro.
O dela. O meu. O do Brasil, se é que isso existe. O da humanidade.
Porque a Clarah, além de expoente da geração blogueira e avatar de calcinha dos deuses-vagantes Fante e Bukowski, representa para as letras brasileiras mais ou menos o que a Madonna representou para a música pop mundial. Ou a Marianne Faithfull ou a Courtney Love pro rock e tal.
Um coquetel revelador em que a coragem moral de quem diz pesa tanto quanto o que diz e como diz. É a contrafação do celebrity system - pra cada Dhomini que desponta do/ para o nada, alguém que queira provar seu valor não pode “apenas” escrever bem, declamar bem, tocar pandeirola bem ou coisa parecida. Isso é o pré-primário.
Uma ex-amante minha, metida a escritora (e a bruxa também, mas isso já é outra história), costumava me dizer que não precisava se acabar toda como a Clarah para escrever um livro, ou um blog. Sobre o meu copo babado de gim-tônica, eu solenemente discordo. Porque este é o fim-do-mundo como nós o conhecíamos - e eu acho bom.
PODE ENFIAR A SUA INTELIGÊNCIA FORMAL NO RABO, SUA VACA COMODISTA, é o que eu gostaria de dizer pra essa moça, a ex-amante. Alguém que tenha, sim, Inteligência, Beleza, Cultura, Saúde, Brilho, faz bem é em CAIR NA SARJETA - nem que seja pra sair de lá com alguma experiência.
Porque não tem a menor graça deixar a sarjeta pros fracos, pros burros, despreparados. Temos que tocar essa gente toda é pros bancos, pra bolsa, pras corporações, pros shopping centers, pros três poderes, pras agências de publicidade, pras redações dos grandes jornais, pros escritórios de advocacia, pra esses guichês supostamente “limpinhos” que são o lugar deles.
Saúde e aquelas outras coisas todas são que nem dinheiro, são pra torrar, pra circular, e não pra acumular... Estou ficando meio confuso, né?
Hã, literatura não é umas letrinhas espertas no papel. Literatura (ou música, ou teatro, whatever) é quem a faz, com os pedaços que arranca de si. E a Clarah viveu seus primeiros vinte e poucos anos de vida turbulenta, infernizando, entre outras criaturas próximas, um assim-chamado marido, que ela não hesitava, por exemplo, em cornear despudoradamente.
A se acreditar em Nelson Rodrigues (e Eu Acredito Em Nelson Rodrigues), o problema é que tem homem que nasce pra corno, não é a mulher que trai. O infeliz lá não era capaz de capturar a imaginação dela. Evidentemente não é esse o marido da Clarah que eu amo (nem ela, por sinal).
Na verdade, creio que quem se aproxima dela sem exigências, pode acabar descobrindo que a Clarah é parecida com a literatura dela. Uma certa pegada brutal, no exterior, serve na verdade pra proteger os delicados princípios e sentimentos que ela guarda dentro de si. De novo é o reverso do celebrity system; o personagem cínico como possibilidade de salvação espiritual, e não como obsessor.
Acontece que uma Clarah gravidésima me contou, uma noite destas, que está apaixonada. E grudenta. E fiel, da maneira mais inesperada. Eu sei do que ela está falando. Uma vez namorei uma carioca, eu aqui e a carioca lá; nos víamos de duas em duas ou três em três semanas, e evidentemente seria muito idealismo esperar que ninguém desse uma escapada de vez em quando.
Pois num certo fim-de-tarde ela chegou a São Paulo, fomos ao Frevinho, e havia algo de não-confessado entre nós, um clima estranho que não conseguíamos romper. Demorou alguns choppeses para que descontraíssemos, e acabássemos admitindo, um para o outro, que estávamos sendo fiéis...
É o fim-do-mundo como o conhecíamos, e algumas das surpresas são legais.
Quando Clarah engravidou, Marcelo ficou puto e mandou ela embora. Ela disse que não era um truque - certamente esse não seria o tipo de truque dela. Ela disse que ia ter o bebê, nem que fosse sozinha. Ele pediu pra ela tomar ayahuasca com ele, pra ele tentar entender - e afinal ele entendeu.
Clarah a ex-turbulenta e Marcelo o ex-garotão agora se fazem declarações de amor em público. Clarah se revela tradicionalista o suficiente pra ordenar que o médico não diga o sexo do seu bebê, já determinado pelo exame de ultra-som. Clarah largou a vódega (uma cervejinha de vez em quando pode, né?) e os outros bagulhos.
Clarah está linda, saudável: ela não teme a podreira, porque ela a conhece. E feliz: ela não teme a infelicidade, porque ela a conhece. Ela só teme perder um pouquinho da inspiração, de tanta bobeira. Mas aí seria um universo-incompleto, uma contradição em termos. Porque uma Deusa pode ser isto E ser aquilo.
Porque nós precisamos definitivamente de mulheres que borrem e anarquizem e destrocem as velhas dicotomias patriarcais entre mulherão e mulherzinha, entre santa e puta, entre cabeça e corpo, entre mãe e filha da mãe, inteligência e pulsão, química e espírito.
Eu confesso: eu nunca comi a Clarah. Eu nem tentei (é o fim-do-mundo etc)...
E isso não me faz falta - apesar de eu ser um cara galinha. Porra, eu consigo achar BONITO eu nunca ter tentado comer a Clarah (nem estou afirmando que você iria me dar, baby!); vocês entendem a libertação que isso significa pra um homem? Caralho, Hank, seu farrapo alucinado, você entende o que isso significa?
Porque eu já não sou eu e minha mulher Mara já não é minha mulher Mara e o Marcelo marido já não é o Marcelo marido e a Clarah já não é a Clarah quando tanto amor explode. Contaminação positiva.
E se eu amo minha mulher eu me amo, e se eu me amo eu amo a Clarah, e se eu amo a Clarah, claro, eu amo o marido dela; (ei, chegamos ao título:) EU AMO O MARIDO DA CLARAH AVERBUCK - só porque é ele quem me dá esperanças na humanidade.
Alguém aí realizou um milagre (os hormônios, talvez).
Por isso naquela noite eu olhei pros dois tão bonitos e tão queridos, a Clarah e o Marcelo, e os abençoei, e saí da FunHouse chorando de alegria, e dormi pensando na minha mulher, na minha menina Mara querida.
Uma vez, uma voz me contou: “o segredo da felicidade é fazer o que todo mundo faz - mas pelas razões opostas”. Estou começando a me entender com isso.
(publicado no site Fraude)
A reação do porteiro foi um pouco lenta – provavelmente apenas aqueles dois dedinhos usuais de má vontade. Repeti a frase.
– A Dona Júlia, você sabe qual é o apartamento dela?
Acrescentei tipo uma explicação pra satisfazer a “autoridade” dele, se bem que com um toque de displicência:
– Eu já vim aqui antes... mas esqueci o número do apê.
– Quem? – o cérebro do tiozinho uniformizado estava demorando pra dar ignição. Comecei a achar ele meio tonto, mesmo. Não parecia particularmente burro nem inteligente. Nem novo demais (pra explicar a distração) nem velho demais (pra estar gagá).
– A Dona Júlia, você sabe qual é o apartamento dela? – repeti pela terceira vez a mesma frase, exatamente com a mesma entonação. Eu também sei me fazer de louco.
– E então, seu RODOLFO? O senhor vai procurar o envelope ou NÃO VAI?
Essa era a velha esquálida que já estava do lado da mesa dele quando eu cheguei. Que também estava começando a ficar impaciente, pelos vistos. Ela falou num tom autoritário e desagradável, que combinava a cor de flores mortas do batom nos lábios finos, secos e apertados.
A fraca conexão que eu tinha estabelecido com a atenção do homem caiu de vez. Ele se virou pra ela subserviente, como se eu não existisse, e começou a remexer na gaveta visivelmente bagunçada da mesa à qual estava sentado.
– Não sei se já voltou para a administradora, dona Sílvia...
Respirei fundo e olhei em volta, para o saguãozinho do prédio. Não devia ter sido propriamente luxuoso, mas com certeza tinha conhecido dias melhores. Quando Santa Cecília, ali ao lado da Santa Casa, ainda era um bom bairro, pros idos dos anos 40 ou 50 ou 60, sei lá.
A velha, que tinha toda a pinta de síndica, também devia ter tido seus dias melhores. No mínimo ela já morava lá desde essa época, e foi apodrecendo junto com o edifício, junto com a cidade, junto com o Brasil. Mas aquele jeito mandão ela ia levar com ela para o túmulo.
Visivelmente aliviado, o porteiro (agora eu estava notando os cerzidinhos na camisa azul dele, invisíveis ao relance) conseguiu extrair do caos da gaveta um envelope pardo, médio, um pouco amassado.
– Tá aqui, achei, dona Sílvia...
– Ainda bem, seu Rodolfo, ainda bem... – a velha marchou para a escada de pedra gasta com rigidez. O porteiro juntou beatificamente as mãos, ajustou a bunda agora relaxada na cadeira e olhou pra mim, com um olhar simpático. Esperei ele retomar o assunto. Nada.
– A Dona Júlia, você sabe qual é o apartamento dela? – quarta vez.
Já estava perdendo a graça. A simpatia sumiu do olhar dele. “Chateação, só chateação”, ele pensou quase alto. Pareceu de novo fazer um esforço mental.
– A psicóloga?
Bruxa pode ser considerada psicóloga? Resolvi explorar outros ângulos mais óbvios.
– A morena que tem uma filha...
– A das tatuagens? – bingo.
– É, essa mesmo – a filha adolescente da Júlia, a Juliana, tem uma tatu no ombro, tinha que ser ela.
Ele perguntou meu nome, respondi, ele pegou o interfone, tudo meio lentamente, apertou um botão, esperou o som de atender, e disse para o fone:
– O Alex está subindo – e, para mim:
– 102, décimo-primeiro.
Sem notar a incongruência, calquei o botão do décimo-primeiro, e esperei o elevador verde-musgo se içar para um dos últimos andares, com uns estalos de artrite.
Saí, e fui para a porta de final dois, no fundo e à esquerda, como a minha memória mandava. A porta estava entreaberta e, olhando bem, estava sendo segura por dentro por alguém. Uma mulher, a julgar pelos dedos de longas unhas pintadas que eram a sua única parte visível.
E o dedo indicador, com a mais longa das unhas cor de vinho tinto, fazia um movimento de “venha” pra mim, enquanto os outros dedos apertavam a madeira. “Como a Júlia está vamp hoje”, pensei, rindo do efeito especial.
Passei pela porta, que se fechou às minhas costas, e me virei rindo para a Júlia. Não era a Júlia.
Primeiro imaginei que seria uma amiga dela; a Júlia devia estar dando uma consulta pra alguém. Mas, quando olhei para o fundo do corredor, só vi escuridão na sala normalmente ensolarada. A porta da sala também estava meio encoberta por uma cortina de veludo vermelho, que eu nunca tinha visto antes.
Olhei para a mulher de novo, e ela se espantou com a minha cara de espanto. Era uma falsa loira, com cabelos de palha, e a cara feia meio escalavrada, não condizente com o corpão que o vestido (também de veludo e numa cor tipo vinho, que nem a cortina) escondia.
– Você já veio aqui antes?
Respondi com outra pergunta.
– Aqui não é o apartamento da Júlia?
– Da Gisele, aqui é o apartamento da Gisele – disse a Gisele.
– Desculpe, eu errei de porta – me virei pra sair, mas ela não se afastou.
– Como, errou? O porteiro falou que você estava subindo. Você não é o Oberdã? – o gozado é que o tom dela estava ficando irritado, como se eu estivesse fazendo alguma coisa inconveniente.
Inconveniente seria eu me chamar Oberdã. Encolhi os ombros.
– Não, eu não sou o Oberdã, e estou indo no apartamento da Júlia. Com licença...
Vendo a minha determinação em cair fora, a Gisele abriu a porta, já brava. E saiu ela mesma andando na direção do elevador.
– Vamos já apurar isso – disse ela, num jeito pedante e agressivo. Não como se eu tivesse cometido um engano bobo qualquer, mas como se eu estivesse tentando dar algum tipo de golpe.
“Porra, ela está puta com que?!”, pensei, mas disse outra coisa pra ela, que já estava segurando a porta do elevador:
– Ei, você vai deixar a porta do seu apartamento escancarada? Quer que eu encoste?
Ela fez que não com a cabeça, voltou, pisando duro com seus saltos altos, e nos cruzamos enquanto eu ia para o elevador. Entrei nele, segurando a porta aberta pra ela vir, olhei pra bunda dela e... plaf.
Ela tinha entrado meio correndo no apartamento, e batido a porta. Ouvi a chave virar na fechadura.
Fiz uma pausa mental. Com certeza eu estava com dificuldades de processar o que tinha acontecido no último minuto, minuto e meio. Apertei o botão do térreo.
Aproveitei a lentidão agônica do elevador pra ir pensando. Eu estava dividido entre duas sensações diferentes: a raiva da besta do porteiro, que tinha me feito pagar esse mico, e algo bem mais estranho.
Alguma coisa tinha ficado agarrada em mim lá naquele apartamento.
A penumbra densa da sala na qual eu não tinha entrado. Um certo cheiro (perfume? Incenso? Odor de gente? Tudo isso misturado? O próprio prédio já tinha um cheiro meio estranho). A irritação da Gisele em eu não ser quem ela estava esperando (porque obviamente ela estava esperando alguém), tudo isso estava me incomodando também.
Eu devia ter ficado?
O pensamento bateu forte. Quem era a Gisele? Puta? Macumbeira? Puta e macumbeira? O que teria acontecido se eu ficasse? A porta do elevador se abriu. Sai e dei de cara com o porteiro Rodolfo, sentado lá na mesinha dele com a mesma cara de pateta.
– O senhor me mandou para o apartamento errado. Eu vou na Júlia...
– 102, décimo-primeiro...
Eu ia xingar, mas dessa vez captei o erro. 102 é no décimo. Annnnnnh.
Voltei para o elevador sem dizer mais nada, como se a marcada fosse mesmo minha. Apertei o botão com resignação. A porta fechou, o troço rangeu e subiu outra vez.
Retomando. Se eu tivesse ficado... A feiura de rosto da Gisele (foi a raiva dela? Não, quando eu entrei ela não estava com raiva ainda, e já era bem feiosa. Dentes ruins!) é que tinha me impedido de pensar duas vezes.
Se ela fosse bonita, claro que eu teria aproveitado o engano pra ensaiar um papo. Teria? Talvez. E aquela situação dúbia era excitante.
O que é que tinha de proibido naquele apartamento, o que era aquele clima estranho? Aquele jeitão de... abismo? O que é que estava pegando? Afinal de contas, eu estava ali pra visitar uma bruxa, a Júlia.
Mas aquela Gisele era algo mais... denso do que a Júlia? Não; de pink wicca, aliás, a Júlia não tinha nada. Mais perigoso? Mais... ameaçador. Mais... excitante. O elevador chegou ao destino. Fui na direção da mesma porta do fundo, desta vez um andar abaixo. Olhei.
A chave do 102 estava na fechadura, do lado de fora.
De novo tinha algo errado.
Toquei a campainha. Ninguém atendeu. Toquei de novo. Ninguém. Afinal, a chave estava na porta. Deixei ela lá mesmo, e desci, rumo ao meu terceiro encontro com Rodolfo. Que porra... ?!
Dessa vez fui rude, assim que pisei na recepção.
– Caceta, o senhor já me mandou duas vezes pro andar errado. Dá pra dizer qual é o apartamento da Júlia, ou tá difícil?
O hominho me olhou com uma expressão ofendida, e balbuciou.
– Dona Júlia, né?, eu já disse... O senhor é que não... Dona Júlia? É. Ééé. É o 132.
Fuzilei o homem com o olhar e entrei no elevador outra vez. Aquilo não tinha mais fim. Na subida fui brincando com o nome do tal cara da Gisele, o Oberdã. Ober-dam. Über-damm.
Em alemão era algo do tipo “acima do calçamento”, ou “acima da represa”, se a minha memória não estava falhando. Über-dame, acima das senhoras? Úbere danificado. Over damned.
É isso aí. Por cima dos malditos. Essa era uma boa ou uma má posição? O elevador parou com um pequeno tranco no décimo-terceiro. Saí e dei de cara com a Júlia, de mãos na cintura e um sorriso na cara.
– Onde você foi parar? Faz quinze minutos que eu tô aqui te esperando.
Dei um beijo nela e entramos. Lá dentro dei um beijinho na filha adolescente dela. Gatinha. Aquela era a sala ensolarada que eu conhecia. Fiz a Júlia sentar no sofá, fechar os olhos e botar a mão na minha testa, pra captar o clima do outro apartamento.
Ela fez o que eu pedi, enquanto eu contava toda a história.
– É, tem umas putas no prédio, acho.
– “Acha”, mãe? Fala sério – disse a Juliana.
Mas a Julia estava indignada era com o porteiro, o Rodolfo.
– Cara, esse cara é muito zureta. Bebum. Uma noite deixei a chave prá Juliana, que tinha perdido a dela, e quando voltei, às duas da madrugada, ela estava lá sentadinha na portaria, encolhidinha, me esperando, desde as dez! E a chave lá, na porra daquela gaveta dele. Você tinha que ver como eu xinguei o filho da puta...
Fui até a janela, e olhei pras persianas dois andares abaixo. Todas as janelas do apartamento da Gisele estavam fechadas. Gritos. Lá embaixo, na rua, um motociclista com a namorada na garupa tinha acabado de bater num ônibus, e ouvíamos os gritos da moça, no chão, com a perna retorcida.
Olhando bem deu pra distinguir o rapaz quieto, sentado na beira da calçada, com gente aflita em volta dele, talvez machucado, ou em choque. Os gritos da moça continuaram até a ambulância vermelha dos bombeiros chegar.
E a janela da Gisele não abriu. Sentamos. Conversamos. Tomamos café, com bolo de fubá. Engasguei e tive um puta ataque de tosse. A Juliana bateu nas minhas costas, rindo. Gostei dessa intimidade.
Mas a Gisele, e o cheiro do apartamento, da dimensão da Gisele, não saíam da minha cabeça. Tentei voltar ao assunto umas duas vezes mas a coisa voltava pro plano, er, natural: “tem puta no prédio”. Meu papo era mais sobrenatural. A Júlia definitivamente não tinha captado o que eu queria dizer.
Ela até achava chato ter putas no prédio – mas parecia não considerar a possibilidade de haver outras feiticeiras. Exceto a filha dela, claro, que já vinha dando sinais de considerável poder.
Me despedi das duas. Um dia eu ainda ia comer aquela menina. A filha, digo. Com a mãe eu já tinha tido um casinho, uns dez anos antes. De vez em quando ficava com a impressão de que ela ainda queria alguma coisa comigo. A mãe, digo.
Quando saí nem olhei pro Porteiro Rodolfo. Fiquei procurando os adesivos colados pelas prostitutas nos telefones públicos da calçada: “Nanda ninfeta sedutora 19 a. Iniciante 3o colegial lisinha. Seios durinhos venha me ecitar. (Ecitar! Essa era boa! Fraquinho o colegial dela). Fone tal”.
Ou uma diletante: “Vanderléia baianinha tarada. Louca pra rebolar no seu pau. Anal de 4 faço porque gosto. Deixo gozar na minha boquinha até a ultima gota. Sem camisinha”. E uma cifrada: “Ana Cl. sexo s/ lim. Oral americano, anal trapezista STX tudo + G. 2X orl. molhad. DP sem frescura, acess. imp.”
Ou até uma assombrosa: “Rose portuguesa peluda. Coroa afrodita. BB grande. Seios farto. Adoro ser Chupada”. Afrodita é que nem a Buba? Um gorila português animadão? Meda.
Mas nada do que eu estava procurando... Algo do tipo “Gisele. Sem idade. Sem saída. Dou tudo. Quero tudo. Dinheiro? Também. Corpo... e alma. Entre em mim; desapareça para sempre. Palitarei meus dentes podres com teus ossinhos”.
Bem que eu queria.
Eu?
Não, nunca.
Amanhã, talvez. A moto retorcida tinha ficado lá, caída sob a luz forte do sol, sem ninguém para tomar conta, só com uns trapinhos de jeans sujos de sangue que os paramédicos tinham rasgado das calças da moça acidentada.
Olhei pra cima, pra duas ou três janelas fechadas no décimo-primeiro andar. Acho que baixei a cabeça rápido demais, porque senti uma tontura momentânea.
(publicado no blog Elas Por Elas)