– O Pinguim! É isso, você estava igualzinho ao Pinguim do Batman!
Admito que a imagem me atingiu. Eu tinha resolvido apresentar um festival de música que eu dirigi vestindo smoking, pra evocar a pompa cafona dos antigos festivais da MPB. Aluguei o bagulho, pensando em subverter usando-o com um tênis All Star.
Mas, na hora em que fui experimentar o smoking alugado em casa, por alguma razão coloquei a camisa e o casaco antes de tirar a bermuda. Era uma bermuda preta de bolsos grandes, estilo mano, e, quando me olhei no espelho, estava engraçado. Botei a faixa de seda na cintura, e ficou perfeito.
Bom, acabei apresentando as quatro noites de shows vestido assim, de smoking da cintura pra cima e bermuda e All Star (preto, como manda a etiqueta) da cintura pra baixo. O festival se chamava com:tradição, então me pareceu adequado.
Tipo como disse o Eugênio, com seu sotaque caipira, quando viu as fotos da Roberta Close nua, antes da operação: “a parrrrrte de cima não óóórrrrrna com a parrrrrte de baixo”...
Acontece que na terceira noite de show tomei um porre. Foi no sábado, depois que eu soube que o babaca que estava organizando o festival comigo não tinha entrado com uma papelada a tempo, e o adiantamento de verba que estávamos pleiteando dos produtores só sairia na segunda-feira, após o término de tudo – o famoso “adiantamento depois”.
Além das reclamações dos artistas que dependiam de uma ajuda de custo antecipada, o meu banquete comemorativo do domingo tinha ido pras picas. Ia ter que almoçar fiado (cardápio fixo) no hotel onde os músicos dos outros estados estavam hospedados. Não que o rango lá fosse ruim, mas eu queria comemorar antes que o festival acabasse.
Porque na segunda noite, a de sexta-feira, uma das apresentações que gerava mais expectativas, a do Arnaldo Baptista, tinha dado surpreendentemente certo. Desde que o ex-Mutante e ex-namorado da Rita se jogou de uma janela de hospital em 82, ele já tinha feito várias participações em shows de outros artistas, mas era sempre uma incógnita. Ficou suscetível pra chuchu.
Quando produzi o tributo a ele, o álbum Sanguinho Novo, em 89, lembro que, no show de lançamento na Aeroanta, o Arnaldo saiu do palco bem no meio da apresentação, porque o cara da banda que o estava acompanhando quis forçar no repertório uma música de que ele não estava a fim.
Bom, no com:tradição ele foi simplesmente sensacional. Escolheu seis músicas pra tocar e cantar sozinho ao piano (depois de duas cantadas junto com a banda anfritiã), e tocou e cantou tudo, daquele seu jeito levemente desvairado, levando o público ao êxtase. Emoção fortíssima. O cara é nosso Syd Barret, nosso Brian Wilson, nosso anti-herói-trágico-psicodélico.
E eis que, na noite seguinte, eu estava num humor esquizofrênico, por um lado muito satisfeito com o resultado do festival – pra mim, a partir dali o que viesse era lucro –, e muito puto com a falta de grana por outro. Mas não podia dar um chilique, pelo menos não antes do festival terminar. Ainda por cima eu estava gripado.
Então, peguei minha garrafa de conhaque, um Domecq que eu tinha comprado pra tomar aos golinhos com muito suco de limão, e VIREI UM COPAÇO OU DOIS nos camarins, sem pensar. Só me lembro vagamente que, uma hora ou duas mais tarde, lá estava eu em cima do palco, de smoking e bermuda, fazendo os artistas repetirem vários bises, com a minha voz engrolada no microfone:
– Vamos tocar mais uma aí, ahhhhhhhgn, seus vagabundos.
Mal sabia eu que o melhor do festival ainda estava por vir. A Maria Alcina, aquela do “Fio Maravilha”, convidada pelo Bojo, uma banda bem eletrônica, simplesmente botou pra foder. Levou a platéia de novo à loucura, mais ainda do que a convidada da primeira noite, a Elza Soares, que tocou com o Mugomango – se é que isso é possível, algo ou alguém ir mais longe do que a Elza.
Eu estava completamente deslumbrado. E completamente bêbado. Então perdi completamente a compostura de apresentador, e fiquei dançando na beira do palco, chamando as pessoas pra virem dançar comigo. Inclusive a minha mulher – que ficou que acenando que não, bem constrangida, lá da cadeira dela na platéia.
Agora ela estava se vingando:
– Você estava igual ao Pinguim do Batman.
Pensei na minha imagem, gorducho, de smoking e pernas à mostra, agitando os braços na frente da platéia e berrando feito um maluco pra Maria Alcina...
– Você fazia assim, com as nadadeiras – dizia ela, imitando o Pinguim. Porra, se pelo menos fosse o Jack Nicholson como o Coringa, mas logo o Pinguim...
Deixei a M. tirar a casquinha dela. Afinal era mesmo engraçado. No dia seguinte do porre, eu tinha acordado sem lembrar de nada que tinha acontecido a partir de um certo ponto dos shows – só sabia que eu tinha chorado, antes de embarcar na van que nos levou pra casa, alertando a M. a respeito da capacidade lilithiana dela de “destruir um homem”, ou coisa que o valha.
De manhã , acordei meio ressabiado, como se tivesse feito alguma merda grande – mas ainda não sabia qual. Então ela contou uma versão bem punk da minha performance, um troço BASTANTE constrangedor. Tive que ir ao Sesc depois ouvir a gravação do show pra descobrir que, fora a voz de bebum, não era tão terrível assim – eu tinha ficado no limite do humorístico.
Mas essa merda do Pinguim ela inventou uns dias mais tarde, quando não estava mais brava. Só que ainda estava vingativa. Nem passei recibo da provocação. Acabei relaxando, e rindo pra cacete de mim mesmo. Fomos pra cama gargalhando do pinguim ensandecido.
Então ela meteu a mão entre as cobertas, no meio das minhas pernas, e perguntou:
– E o que é isso aqui? Um bico?
– Se for um bico é de tucano, porque é vermelho.
Começamos a nos beijar. O humor tinha começado a virar tesão. Comecei eu a provocar.
– Quando é que você vai trazer sua amiga aqui em casa?
– Que amiga? – ela perguntou.
– Aquela que você disse que você ficou agarrando outro dia...
– Porque você quer saber?
– Você vai me deixar comer sua amiga?
– filhodaputa...
– Ué, se você agarrou ela, porque eu não posso...?
– Eu chamo ela no dia em que você também chamar um amigo seu pra me comer...
– Ih, aí você dançou. Eu não tenho amigo nenhum. E você sabe que de mulher eu não tenho ciúme, mas de homem...
– Porque você quer comer ela também? Você não pode só ficar olhando?
– Pô, e você acha que dá pra controlar?!
– Quando eu agarrei a Fulaninha, bêbada, e a Beltraninha, naquela outra vez, você ficou só olhando.
– É porque eu já tinha comido as duas antes. Se você ficar na minha frente com uma mulher que eu nunca comi...
– Como asim, VOCÊ JÁ TINHA COMIDO A BELTRANINHA?!
– Porra, você vai ficar nervosa?! Eu já te contei que eu e ela tivemos um puta caso antes de eu te conhecer...
– Contou nada!
– Contei, você é que não presta atenção...
Nos agarramos de novo. Agora eu estava brincando com os bicos dos peitos dela, que estavam cada vez mais durinhos. Voltei ao tema.
– Quer dizer que, se eu tivesse um amigo, você ia querer que eu pedisse pra ele te comer é?!
– Só ia... Eu vivo fantasiando isso...
– Ah, é? E com quem?!
– Bom, com o Coisinho... Com o Pripriquinho... Eu imagino que, enquanto eles me comem, você fica beijando minha boca, e me chamando de safada...
Eu estava pensando que até tinha me dado melhor que o Tom Cruise em De Olhos Bem Fechados. A minha Nicole estava contando que, quando fantasiava em dar para outros caras, fantasiava fazer isso beijando minha boca...?!
- Que gozado... – eu disse.
– O que que é gozado?
– Sempre que eu fantasio que estou comendo a Sicraninha, imagino que ela vem por cima de mim, e, enquanto isso, você está sentada do lado, beijando a minha boca...
– É?! Que coincidência...
Saí de baixo das cobertas, e botei o pau entre os peitos dela. Comecei a mexer, cada vez com mais força. Eu nunca tinha feito uma espanhola com ela; achava desrespeitoso a xoxota dela ficar esquecida, nas minhas costas, lá atrás...
Ela agarrou os biquinhos dos próprios peitos, e ficou curtindo, de olhos esgazeados. Mas, de repente, sentiu meu empenho, e ficou preocupada:
– Ei, você não vai...
Sem dar atenção, acelerei.
- AaaaaaaaaaaaAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHH
– Pára, seu filhodaputa, paaaraaapfghhhhhhh. Ieeeeeeeerch! Você gozou na minha caaaaraaaa
Ela pulou da cama, aparentemente brava, e marchou para o banheiro. Ouvi alguns bons metros de papel higiênico serem arrancados e amassados, e depois a água da pia. Ela voltou. Eu estava rindo.
– Você é maluca, né?
– Maluca, eu?! Porque?
– Fica aí no maior papo de putaria, de dar pra vários caras, e depois tem nojo de uma porrinha? Esses caras todos iam esporrar litros em cima de você...
Ela se enfiou na cama, ainda aparentemente amuada. Passei o braço por trás dela, e fiz ela deitar a cabeça no meu ombro.
– Valeu, foi legal – ela disse, baixo, a sério.
– VALEU, FOI LEGAL? – arremedei. – É isso que você tem a dizer?!
Caímos na gargalhada de novo.
– Você me interrompeu. Eu ia dizer, valeu, foi legal, você gozou na minha cara, mas foi bom ver a expressão do teu rosto...
Ela disse isso de um jeito muito, muito doce. Eu acrescentei, brincando:
– Um a um.
– Hã?
– Empate.
– Hã?
– Você inventou que eu sou o Pinguim, mas eu gozei na sua cara.
Dormimos profundamente, tranquilos, abraçadinhos, felizes, depois das... gozadas.
(publicado no blog Elas Por Elas)