agosto 10, 2003

>A VIDA POR UM MIO

Meu primeiro ídolo sexual foi a Jeannie, do seriado Jeannie É Um Gênio. Hoje eu me pergunto se havia alguma programação patriarcal precoce na minha preferência pela gênia paga-pau do Major Nelson.

Isso em detrimento, por exemplo, da relativamente mais independente Samantha de A Feiticeira. Que, pelo menos, não vivia dentro de um quartinho em forma de garrafa, e ainda tinha uma bruxa-mãe que punha as coisas em perspectiva.

Mas talvez fosse apenas o charme marilynesco, a um tempo intensamente sexy e docemente ingênuo, da Barbara Eden/ Jeannie, maior do que o da Elizabeth Montegomery/ Samantha. O fato é que minha segunda faísca sexual televisiva, bom, essa é inquestionável na sua fe(mi)linidade. É a Mulher-Gato, do Batman, que eu conheci na pele de Julie Newmar.

Hoje a Mulher-Gato é assunto de novo – e sem o Batman. É que há um projeto de grande orçamento para o cinema que envolve, pelo menos até o momento, o diretor francês Pitof – na verdade Sasha Pitof, um ex-supervisor de efeitos especiais de filmes como o Alien IV rodado na França. E, principalmente, a atriz negra Halle Berry, que pode ser vista numa boa performance em outra adaptação dos quadrinhos, X-Men.

Do roteiro, pouco se sabe. A não ser que ele zera a história toda. A tradicional personagem de Selina Kyle, a Mulher Gato, foi vivida por Julie Newmar e por uma negra precursora, a atriz e cantora Eartha Kitt, na TV. E por Lee Meriwether (no longa de 1966) e Michelle Pfeiffer (1992) no cinema. No novo filme, Selina será substituída por uma certa Patience Price, novo alterego da Gata.

Há um acerto: o carisma da personagem certamente é suficiente para sustentar um filme próprio; e várias dúvidas. A começar pela própria história – ou histórias – de Selina. Ela surgiu no número 1 da revista Batman, em 1940 (o personagem do Homem Morcego já era publicado desde um ano antes, na Detective Comics), como uma golpista especialista em disfarces.

Dez anos depois, em The Secret Life of Cat Woman (Batman #62, 12/1950), Bob Kane começou a tentar explicar a origem da Gata. Uma história redentora em que a ladra salva o Homem Morcego com risco da própria vida, machuca-se e é cuidada por ele e, afinal, revela-se uma ex-aeromoça amnésica envolvida por acidente com o mundo do crime!

Foi apenas a primeira guinada nas explicações para o caráter da moça, incomodamente dúbio até para seus roteiristas. Essa Selina inesperadamente boazinha, que repudia o crime, é perdoada pelo comissário Gordon, vira informante da polícia (!) e monta um pet shop (!!), terá (felizmente) uma recaída depois.

Fula da vida com uma matéria de jornal que a descreve como uma captura passiva do Batman, ela invade a chefatura de policia e projeta um gato imponente nos céus de Gotham, anunciando sua volta ao submundo, em Crimes of the Catwoman (Detective Comics # 230, 4/1956).

Quem é, afinal, a Mulher Gato? O que se tem certeza até aí: ao contrário dos outros vilões do Batman, ela tem certos limites éticos próprios (não matar é um deles); ela é linda e habilidosa; ela se veste de maneira provocante: vestidos decotados, saias com aberturas, botas de salto alto, sendo que aos poucos a máscara vai ficando mais leve e vão aparecendo acessórios como o chicote e a luva de garras.
Ah, e é claro, o Batman é maluco por ela.

Na Brave and Bold # 197 (1955, reeditada em 4/1983), a Mulher Gato e o Morcego da DC Comics até se casaram num universo paralelo. Batman tinha pedido a ajuda dela para uma captura, e se abre a respeito de seus traumas familiares e de sua solidão. Selina aproveita o momento-sinceridade para confessar que... inventou a história de ter sido aeromoça e amnésica!

Na verdade ela teria sido a esposa de um milionário crápula e galã, que transava com ela à força. E que tira suas jóias e a deixa sem um centavo quando ela pede o divórcio. Quando assalta o cofre do ex-marido para recuperar seus pertences, ela apenas pega o gostinho pela coisa...

Anote o arquétipo da transformação dela em fora-da-lei pela revolta da privação, da incompreensão ou da injustiça. Ele vai reaparecer adiante. Ou talvez esteja lá, lilithianamente, desde o começo.

O Batman pré-pop tinha depurado, até então, elementos da estética noir e da estética gótica – Gotham City é apenas a distopia (im)perfeita da cidade roída pela corrupção. No imaginário noir, a mulher fatal é a catalisadora da desgraça, por seu caráter tortuoso e comodista combinado com sua sexualidade explosiva e irresistível.

Mas a morena Mulher Gato é a antimatéria dessa loira passiva, ou talvez um ponto médio entre ela e o outro franco-atirador (positivo) do universo noir, o investigador particular – que jamais se confunde, por sua ética rigorosamente pessoal, com o “homem da lei” estrito senso.

O morcego ressentido
Por sinal o próprio Bruce Wayne-Batman não é um investigador noir – ele tem um defeito básico para isso, que é o de ser rico. É uma herança do velho mundo, essa do aristocrata infeliz (com um mordomo para lembrá-lo disso o tempo todo) e uma simbologia de sangue sujo, o morcego/ vampiro.

Ou talvez fosse apenas um detalhe biográfico para viabilizar o amor aos gadgets, que vem desde os inícios do personagem (lembro do carro que trocava de cor – de preto pra branco, claro – na primeira série televisiva, nos anos 40), e tomou uma dimensão paroxística nos anos 60.

Então, no momento em que desaparece dos quadrinhos – possivelmente por seu caráter progressivamente mais contraditório e inexplicável –, a Mulher Gato apenas prepara sua sensacional reentrée no Batman repaginado da segunda série da televisão, em 1966.

Foi uma década de sumiço, mas ela voltou com tudo. Na sintonia das transformações que agitaram o mundo, os vilões de Batman, uma coleção de freaks encabeçados por essa mulher sedosa e sedutora – e cada vez mais à vontade – quase eclipsaram o próprio herói.

Que só se garantiu se assumindo como paródia, como bufão – e como gay dominador maldisfarçado, empenhado num flerte de mais de vinte anos.

O herói misógino, esse que escolhe como marca o morcego sério, o anacrônico mamífero que voa com sua ossatura reptiliana, o ser errante da escuridão primal, o sugador ressecado e ressentido dos fluídos alheios, finalmente percebe que sua inimiga é mais bonita, mais viva (em todos os sentidos) e mais legal (em todos os sentidos) do que ele mesmo.

Enquanto a (auto-)imagem masculina se desfoca, a feminina se define: a Mulher Gato da televisão que vem primeiro à mente. Consta que o traje de lycra foi desenhado pela própria Julie Newmar, para mostrar seu corpo de dançarina.

Nos quadrinhos, a Gata também reaparece de colant e com as orelhinhas jocosas e provocantes (um visual que repercutiu no patchwork de látex que Michelle Pfeiffer usaria no longa de 1992; essa fazendo uma espécie de “pantera siamesa”, com seus cabelos loiros).

Aliás não custa lembrar outra vilã do Batman, Poison Ivy, a Hera Venenosa, a botânica que está para a flora como a Mulher Gato está para a fauna... Perigosas criaturas da natureza, na sua saúde, beleza e elegância...

Lindas bruxinhas-bandidas-justiceiras! Só para reforçar as referências: além da correlação Selina-Selene, a Lua, em duas ocasiões as gatas da Mulher Gato se chamam Hécate (Batman #47, 6-7/1948; Batman #266, 8/1875); em uma versão em desenho animado para a TV a gata de estimação é Isis; e ao longo da década de 80 a pantera negra que a acompanhou nas HQs tem o nome de Diablo.

Com seu chicote enquanto rabo e suas unhas enquanto punhais, a Mulher Gato é uma Lilith satisfeita. Mas ainda haveria uma nova guinada, nos anos 80, pilotada por Frank Miller.

De volta às trevas
É curioso que, na sua festejada reforma do universo de Batman, na série HQ O Cavaleiro das Trevas, um dos pontos menos populares seja exatamente a nova definição da Mulher Gato. Prostituta, de cabelos curtíssimos, figurino obviamente dominatrix – Miller certamente pesou a mão na figura que surgiu em Batman # 404 (2/1997).

A atual versão dos quadrinhos (ela ganhou uma revista própria no fim de 2001) cozinha um pouco disso tudo: órfã aos 12, depois da morte do pai alcóolatra, Selina rouba nas ruas. É detida, e desenvolve sua independência e auto-suficiência. Vira prostituta, e colhe informações da clientela para os roubos. Estuda artes marciais. Tem um código moral próprio, porém sólido. Defende os fracos e oprimidos, e é leal a seus amigos.

Na versão do filme de Tim Burton, Batman – O Retorno, de 1992, Selina também é um tiquinho híbrida. Começa tímida e pacata demais, e só revela seus potenciais ao esbarrar com a iniquidade de seu chefe corrupto, que tenta matá-la (ou a mata, num certo sentido).

Mas o imbróglio definitivo aconteceu na continuação da minissérie O Cavaleiro das Trevas, quando “a” Robin, além de se transformar em mulher, vestiu as roupas da Mulher Gato!

Portanto, o que esperar da Patience Price do novo filme? A escalação da atriz parece errática (Ashley Judd e Nicole Kidman – que já fez um personagem num dos Batmans no cinema –, e agora Halle Berry), como aliás já tinha sido a da Mulher Gato no longa Batman: O Retorno.

Daquela vez, Annette Bening foi a escolhida (apesar da pressão da impulsiva Sean Young, a ex-replicante Rachel, que chegou a invadir os estúdios Warner vestida como Catwoman!), e acabou perdendo o papel para Michelle Pfeiffer, porque engravidou.

(Em tempo: em um final de namoro de Sean Young com o ator James Woods, ele a denunciou por... deixar animais mortos em sua caixa de correspondência! Talvez fossem apenas presentes de reaproximação, e não uma ofensa. Creio que essa seria mesmo uma Mulher Gato.)

Na sua eterna queda de braço, que afinal não é com o Homem Morcego, mas... com seus roteiristas, a Mulher Gato prepara-se para a próxima unhada. E, a julgar pelo que o nome do alterego sugere (Patience Price, “o preço da paciência”?!), Lilith continua escrevendo por linhas tortas.
(publicado no site Caverna Da Pantera)

Publicado por allxsexs às 01:35 PM | Comentários (3)