agosto 01, 2004

>AS MOÇAS QUE SE DESNUDAM

Sites e fotologs mostram o surgimento de uma nova e desinibida tribo urbana no Brasil: as sexy grrrls. São adolescentes e moças com estilo e cheias de si, que combinam sensualismo, cultura pop e referências intelectuais para inventar uma forma auto-suficiente de pós-feminismo

"Existe esse machismo opressor porque as mulheres do mundo inteiro são burras. Nós poderíamos ter a maioria dos homens aos nossos pés num estalo de nossos dedos com esmalte, se não tivéssemos medo da nossa própria força. Acho que poderíamos usar pornografia como um veículo para mudar mentes, imagina? Já que podemos levar hordas de homens à masturbação insana, não é possível não podermos levá-los a considerar a equivalência entre os sexos (do blog Dionea)

Não é mais surpresa vê-las nas baladas noturnas. Moças de cabelo pintado com cores fortes ou trajadas em modelitos góticos, com crucifixos e longos vestidos pretos, ou ainda combinando vestidos de brechó com coturnos militares aliados à abundância de tatuagens e piercings. "Meia arrastão e cinta-liga, estampas de onça, apelo sexy e selvagem – e um vídeo do David Lynch na bolsa com acessórios da Hello Kitty ajudam a compor o visual", ensina Andera Ramirez, de 21 anos.

Também não são novidade as tatuagens e os piercings abundantes, as maquiagens fortes e borradas, e outras rupturas com algum padrão bem-comportado ou medianamente aceito do que seriam a “beleza” e a “elegância femininas”. E nem chega a ser surpresa vê-las beijando-se, umas às outras, na boca.

Mas os sites pessoais na Internet – os blogs e os fotologs (ou flogs) – e as comunidades online – especialmente o Orkut, que virou mania no Brasil – revelam mudanças ainda mais radicais na mentalidade e no comportamento das meninas urbanas, ou pelo menos da parte mais vistosa delas.

Essa tribo sem nome, mas de um só gênero, como as amazonas da lenda, se espalha por todo o país. Uma rápida busca no Orkut e entre a comunidade de flogueiras basta. Renalette Freak, de 17 anos, e Gilly Stardust, de 16, de São Paulo, Sonja Selfish, 18, do Rio, Selva Amarga, 20, de Belo Horizonte, Kelly La Decadanse, 19, de João Pessoa, Carine Funérea, 19, de Porto Alegre, Dead Violet, 19, e Chriz B., 22, de Curitiba, e Sooz, 17, de Recife, são algumas delas.

Sob esses pseudônimos – e outros ainda como Anorexia, Georgia Nonsense, Fake Bitch, Mila Freak, Drama Königin, Reizel Perdida, Self Destruct Miss, Cherry Bomb, Sweethell, AlienGirl, Demented Girl, Lilly Heartless, Floor Jansen, Profane Existence, Bleeding Rose e Sweet Adiction – elas exibem conhecimento, desenvoltura e desinibição que deixam para trás muito marmanjo.

Durante toda a década de 90 as chamadas riot grrrls, as garotas punk, já vinham demarcando esse território de autonomia e atitude. Mas nas riot grrrls são claros ainda alguns traços do feminismo militante – o anti-sexismo é o principal deles. Entre as novas mulheres virtuais a maioria se revela despida da bandeira da ideologia sexual.

No site Acid Girls, autodenominado voyeur alternativo, as garotas posam para ensaios sensuais. As roqueiras eróticas aparecem entre notícias de rock, entrevistas de celebridades underground e colunas de prosa poética – eventualmente escritas pelas próprias modelos dos ensaios.

A gaúcha Carla D., de 28 anos, nos ministrou, por email, uma aula sobre a genealogia dos subgêneros do rock no pós-punk. E depois explicou: "Pelo que entendi, o site divulga imagens sensuais de garotas fãs de darkwave (gótico), emo, indie, hardcore, metal etc – mas não riot grrrls. As riot grrrls são muito radicais nesse ponto. Em resumo, elas vêem a exploração das mulheres até com certo exagero e jamais aprovariam um site com tal proposta. Elas são feministas, não são pós-feministas. E algumas feministas são totalmente contrárias à idéia dos concursos de beleza, de miss, modelos e afins."

Sabe-se que as garotas desses ensaios, todas maiores de idade, foram convidadas por email e já apareciam em poses sensuais nos seus fotologs. O(a)s organizadore(a)s do Acid Girls não se identificam. A idéia parece ter sua origem em similares estrangeiros como o Suicide Girls (http://suicidegirls.com), o Fatal Beauty (http://fatalbeauty.com) e o Nakkidnerd(http://www.nakkidnerds.com), mas esses são sites pagos, ao contrário do nacional.

NÃO HÁ TCHUTCHUCAS ENTRE AS SEXY GRRRLS
Acusado de machista, o funk carioca já tocava numa questão similar ao dividir as aficionadas do gênero entre tchutchucas (as meninas mais comportadas e com namorado fixo) e cachorras (as que "ficam" livremente com diferentes rapazes).

Mas porque não seria um avanço admitir que as mulheres podem, sim, ter uma moral sexual tão descomprometida quanto a da média dos homens, e não serem censuradas por se exporem abertamente – e até de se orgulharem, na rede, de suas conquistas (em todos os sentidos)?

Entre as sexy grrrls fica claro que não há mais a menor preocupação em aparecer aos olhos masculinos como a "mulher-objeto" do jargão feminista. Até porque uma parcela importante dos visitantes desses sites e fotologs é formada por... outras garotas.

No Orkut há um questionário onde se listam preferências artísticas e culturais e um perfil pessoal, com alternativas fixas em inglês. No quesito em que se define a orientação sexual, a ocorrência de bissexual e bi-curious – sem considerar as simplesmente gays – é maioria.

"Antes desse 'boom' eu já era bi. Eu acredito que muito dessa bissexualidade seja uma espécie de modismo. Pois agora a moda é ser liberal, já que novelas, filmes etc. mostram isso", comenta Delirium Grrl, de 24 anos, de Araraquara, São Paulo. "Depois do beijo da Madonna e da Britney Spears um monte de adolescentes começou a beijar as amiguinhas e ser bi virou uma coisa moderna e não realmente uma opção sexual", endossa a paulistana Damaged Rose, de 21, figurinha importante da tribo.

A carioca Danielle Lacerda, de 23, também acha que é modismo, mas ressalta o lado positivo: "Hoje em dia sai até matéria na 'Capricho' sobre uma suposta moda entre as adolescentes de beijarem as amigas na boca na balada. Não sei dizer como nem porquê isso aconteceu, mas é fato que as coisas mudaram. Não importa que muitas meninas se digam bissexuais apenas porque soa cool – o importante é que o aumento da tolerância quanto à sexualidade de cada pessoa é algo bom."

Parece um tema fútil? Acontece que, sempre segundo os perfis do Orkut, as referências culturais dessa tribo vão muito além de Madonna e Britney. Sooz Marletti, que diz não gostar de rótulos estanques, sugere uma mistura de Jean-Paul Sartre, punk e rock gótico. Na receita de Andera Ramirez, de Caieiras, São Paulo, colunista do Acid Girls e espécie de ideóloga ou conselheira das moças, entram Oscar Wilde, Henry Miller, Clarah Averbuck, Sylvia Plath, o Marquês de Sade, Nabokov e Pablo Neruda, junto com o cinema de Cronenberg e Greenaway.

ELAS QUEREM TUDO
Já o coquetel da roqueira carioca Mari Fantomas, de 22 anos, combina Augusto dos Anjos, Aldoux Huxley, Machado de Assis, Pessoa, Ana Miranda, Bandeira e Drummond com o quadrinista Hergé, Miles Davis e, claro, muito rock pesado. A paulistana Andie Lodie, de 18, não vê problemas em listar Dostoievski ao lado de Nabokov e Fernanda Young, Strokes ao lado de Elis e Chico. Chriz B., a Elektrolust de Curitiba, que ao lado de Pat Gniper forma a dupla de DJs Elektro Bitches Attack, acha natural reverenciar Clarice Lispector e sons eletrônicos pesados ao mesmo tempo.

Gilly Stardust, cujo fotolog se chama Esse Obscuro Objeto Do Desejo por inspiração do filme de Buñuel, põe Anthony Burgess, D.J. Salinger e Iggy Pop no mesmo saco... com Marilyn Monroe. Kelly La Decadanse vai de Serge Gainsbourg, Nietszche, Rimbaud e Pi, o intrincado filme cabalista de estréia de Darren Aronofsky. A enigmática Heroin? AU AU, 20, de Maringá (PR), lembra Kafka e Hunter Thompson, Pasolini e o punkabilly dos Cramps, sem esquecer do cineasta satanista e setentista Kenneth Anger. A lista é infinita – e as combinações não são menos que intrigantes. Parece que elas querem tudo.

O universo das cantoras pop, rock e electro internacionais evidentemente aparece nessas listagens. A insolente e X-rated Peaches, a resoluta P.J. Harvey e a controversa Courtney Love aparecem como ícones. Kelly La Decadanse, que também é cantora, anota: "Uma artista que eu amo muito, adoro, é a Peaches. Eu adoraria cantar isso que ela canta. Ela sim é uma mulher que não se importa, não se vê diferente dos homens."

Sooz lembra que até cantoras mais “comerciais” não fogem à polêmica sexual: “Vejo a Pink dizer para o mundo inteiro, numa revista, que recebe massagem nos mamilos antes de entrar para um show – o que significa que a liberdade de expressão está sendo exercida mais intensamente”. E, no caso dessas moças, a expressão da própria sexualidade parece ser a forma mais direta de aferir a liberdade conquistada.

"Até a postura pseudo-rebelde das cantoras pop tem mudado muito o conceito das pessoas e dado um espaço para as meninas agirem conforme a vontade delas", diz a otimista paulistana Bruna Barlach, de 18 anos. "Por mais que para as pessoas com uma visão mais clara isso (a rebeldia) seja obviamente forçado, acredito que essa geração de cantoras será muito importante na formação do caráter de muitas pré-adolescentes que serão, ao seu tempo, mulheres livres de autopreconceito."

Referências cinematográficas também são recorrentes. Sofia Coppola foi ao centro das preocupações das moças em seus dois filmes: Virgens Suicidas e Encontros E Desencontros. Três cineastas homens e polêmicos também parecem acertar em cheio no gosto delas, com as personagens femininas fortes e centrais de seus filmes mais recentes: Tarantino em Kill Bill, Lynch em Cidade Dos Sonhos, Lars Von Trier em Dogville. Mais inusitada é a atualidade de Stanley Kubrick, lembrado entre as moças por filmes provocativos e densos como Laranja Mecânica e De Olhos Bem Fechados.

Bruna observa: “Mesmo entre os filmes ‘comerciais’ já se pode ver uma nova abordagem do ‘ser mulher’, mesmo que mais sutil. Hoje em dia existem muitos filmes em que se fala e sente como mulheres, e nem por isso são filmes melosos ou sem conteúdo, como costumavam ser antigamente. Enfim, acho que todo o mundo da arte esta revendo os conceitos de feminino/ masculino, talvez antes de outras áreas. Ou talvez nele seja só mais claro de se perceber”. Mari Fantomas concorda: “Muitos filmes – mas muitos mesmo – já mostram uma mulher bem mais independente artística, social, profissional e sexualmente”.

SÃO TOMÁS DE AQUINO E A REDENÇÃO DA LINGERIE
Questionadas se diante de tanta influência elas são parte de alguma tendência ou movimento, as sexy grrrls estabelecem outros dois importantes fundamentos da geração: o individualismo e a indistinção entre os sexos. No máximo, aceitam o privilégio de partilhar essa época de transformação.

"Eu posso ter a ousadia de dizer que estou numa cultura distante de valores patriarcais, uma cultura que eu mesma criei de acordo com o que eu senti, porque eu penso que cada pessoa é dona de si, tanto o homem quanto a mulher", afirma a gaúcha Carine Funérea. "Não estamos mais nos tempos dos valores religiosos inúteis e burros como os de São Tomás de Aquino, que disse que 'a mulher está submetida ao homem pela fraqueza de seu espírito e de seu corpo'."

Danielle Lacerda, como Mari uma rara straight (hetero) convicta no meio da turma, acrescenta: "Não existe intenção de criar uma revolução. Eu não quero ser tachada de feminista ou riot grrrl. Por mais que simpatize com alguns ideais desses movimentos não é nada que chegue a ponto de queimar sutiã ou odiar os homens. Não precisamos atacar os homens. Não queremos provar nada a ninguém, queremos apenas ser... nós mesmas. Não queremos conquistar esse direito. Já o temos."

"Não sou feminista, nem machista. O feminismo que já saiu na rua e queimou sutiã foi ótimo, lindo, mas já passou. Agora o negócio não é mais nem homem/ mulher. É individual mesmo", diz Heroin? AU AU. A simbologia negativa das lingeries e roupas sensuais parece estar superada – acessórios íntimos tem até várias comunidades de admiradora(es) no Orkut.

A poeta e cantora Selva Amarga, ironicamente assumida natural born poser, aproveita para retocar o natural marketing pessoal: "Não gosto de pertencer a nenhuma geração, ser definida como algo. Sou segura o suficiente para saber quem sou: Selva Amarga e não uma geração ou parte dela", avisa.

A quase indiferença de Chriz ao se referir ao tema das conquistas femininas é sintomática: “Pra falar a verdade, nunca parei pra pensar nisso... mas parece que sim, as mulheres jovens estão se sentindo mais livres, mais ‘donas’ de si mesmas. Devo me enquadrar sim... pois não sinto muita culpa nem tenho medo de tentar coisas... sei lá. Não tenho medo de deixar minha família envergonhada com coisas simples, como fazer piercings... Mas é como eu disse... nunca pensei muito no assunto”...

SHE-NERD E AS FOTÓGRAFAS SUPER SEXIES
Outro site que tem a ver com esse contexto da sensualidade, mas usa a imagem com uma intenção mais crítica, é o Movimento das Fotógrafas Super Sexies (http://supersexies.org), das gaúchas Sabrina Fonseca, de 22 anos, e Letícia Tatsch, de 27, radicada em São Paulo. Nele, as duas e outros fotógrafos convidados publicam ensaios em que exploram a fantasia feminina. Eventualmente Sabrina e Letícia atuam como modelos também.

"Acho que as mulheres estão experimentando essa liberdade e ainda não sabem muito bem o que fazer com ela. Fazem pouco da presença masculina através do lesbianismo e de outras preferências tidas como masculinas, impondo ‘atitude’ – uma palavra que até se desgastou. Mas não as vejo como pessoas tranqüilas e satisfeitas", diz Sabrina.

E acescrenta: "A guerra entre os sexos está completamente diferente, mas ainda existe. As novas moças devem reconhecer que é um embate interessante e não tentar acabar com ele. Fotografar pessoas, para mim, é um embate (entre o fotógrafo e o modelo) – e por isso o embate sexual pode aparecer bastante no meu trabalho, porque é semelhante a uma questão da própria fotografia. É por isso que eu mesma poso: estou aproveitando e explorando a minha liberdade também. E, cada vez mais, percebo que o embate é divertidíssimo, e que ele precisa existir sempre, que ele nunca vai ser tranqüilo, e que ele nunca vai acabar”.

Letícia pensa parecido: “Sinto que algumas mulheres têm adotado atitudes sexuais masculinas não por necessidade, mas para chocar e por uma certa insegurança característica da adolescência. Não vejo problema, desde que se faça sem dores de consciência, e que todos se divirtam. Acredito que a fotografia pornográfica mantém o caráter de exploração feminina. O que está acontecendo é que algumas mulheres estão entrando nessa área de fotografia sensual (antes eram os homens que mandavam) e trazendo consigo uma visão diferente, fora daquele mainstream pornô”.

Sobre as Fotógrafas Super Sexies, Letícia explica: "Nosso diferencial é que trabalhamos mais na linha da fotografia de glamour, com relativamente pouca pele exposta e nada de imagens ginecológicas, por uma questão de preferência pessoal. O público feminino é mesmo boa parte dos nossos visitantes e vários blogs de meninas nos linkam", diz. É muito interessante o retorno desse público: as meninas parecem entender bem a proposta do site, e algumas das visitantes têm se disposto a posar para ensaios. Eu acredito que as meninas se identifiquem com a questão de vestir-se para uma ocasião. A maioria das mulheres gosta de brincar com roupas, maquiagens e poses, mas não tem muito espaço na vida cotidiana para isso”.

Sobre a importância e as possibilidades da internet, Letícia e Sabrina também têm opiniões comedidas. “A informática hoje em dia é ‘o meio’ de circulação de idéias, sejam elas as que forem, desde o mercado de relíquias nazistas às ideologias mais naturalistas. Não dá mais para definir se foi na internet que isto ou aquilo surgiu”, diz Letícia. “Acredito que a internet é um meio e facilita essas manifestações todas, como o Orkut e blogs e fotologs. Se a rede não existisse, elas apareceriam de outra maneira”, imagina Sabrina.

"Não acredito que seja um movimento que acontece somente no mundo da informática, mas assim podemos vê-lo com mais clareza", diz a geek (maníaca por tecnologia) Bruna. A mulher não tinha muito campo, e, a partir do momento em que surgiram ferramentas nas quais qualquer um pode ser um pouco jornalista, um pouco colunista, um pouco poeta, um pouco de tudo, como é o caso dos blogs, as mulheres começam a ganhar projeção. Há escritoras de blogs que ficaram muito famosas, aparecendo em publicações da mídia comum. Com o Orkut, a presença das mulheres é visível mesmo naqueles espaços que antes eram tipicamente masculinos. É o caso das comunidades que falam de informática, e mais especificamente sobre Linux, assunto que até pouco tempo era considerado interessante somente para homens. A relevância disso é tanta que existem até projetos específicos para mulheres na área de softwares livres, como é o caso das Linux Chix”.

"O que houve foi uma sinergia", argumenta Andrea. "Essas garotas se encontraram por meio da Internet e da arte e... boom. A tecnologia ajuda muito, acho que com o IRC (a rede Internet Relay Chat), blogs, fotologs e Orkut tudo ficou muito intenso. Aconteceu algo um tanto mágico que não aconteceria sem essa tecnologia, amada e odiada. Pessoas como eu, que moram em lugares mais distantes, criaram um mundo próprio e encontraram uma comunidade, amigas, amigos, amantes, gostos parecidos."

A MULHER DO FUTURO JÁ VIVE NA INTERNET
"A Internet pode ajudar, mas também é bem traiçoeira às vezes. É muito difícil uma pessoa de cabeça fechada simplesmente mudar o modo de pensar porque viu e leu isso ou aquilo. Se uma menina resolve fazer um blog para falar abertamente de sexo, muita gente vai olhar e dizer 'piranha'. Ponto final", afirma Mary.

Carine fala da diversidade de leituras: “Muita gente já acha que fotos mais ousadas de uma mulher são um convite. Ora, podem ser, mas podem não ser. Estar à vontade com o próprio corpo, estar livre de pudores, simplesmente significa estar à vontade consigo mesmo e se valorizar. E 'valor' não tem o significado de fechar as pernas, como na cultura cristã. Valor tem o significado de se gostar e fazer o que quiser pra se sentir bem. Então o papel desses meios nessa divulgação só irá adiante se tiver um público aberto, senão morre”.

"Eu me considero uma pessoa que não se prende a conceitos específicos e isso inclui tanto o conservadorismo como a 'liberdade exagerada' atual. Acho que a linha entre a atitude forte e de personalidade e a atitude exagerada e até medíocre é bastante tênue", observa Gilly Stardust. Perguntada sobre o comportamento de sua geração, Sooz soa involuntariamente engraçada pela precocidade da declaração – considerados os seus 17 anos: “Pra ser sincera, eu era parte dela (da geração), mas, por causa da idade e do bom senso, abdiquei de certos comportamentos julgados ‘errados’ pela sociedade (uso aspas porque não cabe a mim julgar o que é certo e errado), para não chocar e entristecer a minha família”. Mas avisa: “Pretendo voltar a ser o que era antes assim que possível, quando me libertar desse meio”.

Heroin? AU AU é mais cínica: "O papel da Internet é que você pode mentir quando quiser. Pode ser melhor o quanto quiser. Na verdade, tudo é bem mais fácil na Internet, tanto alguém gostar de você quanto odiar." Kelly sabe como é. "Até concurso para meu escravo branco eu promovi, baseada no texto 'A Escrava Branca' de Daniel Galera. Recebi emails e foi interessante. Mas o cara se apaixonou, eu dei um fora o mais sádico possível e ele hoje me odeia." Carla D. resume: “Internet é fundamental. E o que eu observo é que, querendo ser diferentes, nos tornamos iguais”...

A paulista Regina Alves de Oliveira, a Ginger Lipstick, de 30 anos, mantém há quatro um blog de conteúdo sexy e cultural – com textos pessoais ilustrados por fotos capturadas na rede. Começou como um diário íntimo e anônimo, mas chegou um momento em que a quantidade de admiradores levou-a a se revelar. "Mudei meu jeito de escrever, conheci algumas pessoas interessantes, mas também recebi emails me ofendendo por causa de comentários bissexuais", diz Regina, pouco entusiasmada com a onda dos fotologs. "Em geral é muita imagem para pouco conteúdo."

"Eu ainda percebo uma espécie de ‘guerrinha dos sexos’. Às vezes atribuímos nossos problemas aos outros (os homens, as mulheres ou quem quer que seja), e talvez o problema esteja em nós mesmos. Ainda vejo mulheres procurando revanche de forma quase neurótica. Em resumo: a mulher já conquistou seu espaço, e ainda terá muitas conquistas. Alguns homens se sentem ‘perdidos’ quando se deparam com esta nova mulher, desconfortáveis, sem saber como agir. Com o tempo, muitas mulheres perceberão que a dominação masculina não representa mais uma ameaça”.

“A característica inédita desta geração é saber dosar sensualidade, inteligência e informação”, conclui Carla. Para Andera, essas manifestações têm que derivar de “uma clara escolha do que quer – mesmo que seja o que se quer naquele instante. De ter um amor por si mesma, e nunca se trair. O que eu que acho essencial é o respeito por si própria – mesmo que ele apareça de um modo não respeitoso”.“A mulher do futuro, com as suas qualidades e defeitos, já pode ser encontrada na internet”, brinca Sonja Selfish.

Para Renalette Freak, do alto dos seus "bem-vividos" 17 anos, a marca da nova geração de mulheres é o desejo de independência. "Acho que as mulheres querem provar que podem se virar sozinhas. Talvez seja a minha grande vontade também... saber como me virar sozinha, sem ninguém ao meu lado. Nem para ajudar nem para atrapalhar".
(publicado no site Nomínimo)

Publicado por allxsexs às 04:13 PM | Comentários (33)