Entrevista minha, feita pela querida Andera, para o site Moddols
Alex, vamos começar de trás para frente. Como surgiu seu interesse em fazer a matéria sobre as garotas que fazem parte de sites como o Moddolls? E a sua idéia da reação destas garotas nesse momento?
Mais de 20 anos atrás, exatamente quando a primeira banda brasileira só de garotas surgiu no pós-punk, as Mercenárias, eu me perguntei por que elas tinham adotado esse nome, que tem por trás uma idéia tão militar, tão patriarcal, tão masculina... Claro que é uma apropriação irônica, mas pra mim elas teriam obviamente que se chamar algo tipo “as bucetas”, que nem as Slits na Inglaterra. Pra esfregar na cara do patriarcado (ops) exatamente esse poder, uma sexualidade desinibida, entende (risos)... De lá pra cá, nos anos 80 e 90, observei que o movimento das garotas tinha herdado certos princípios tolos do feminismo militante, a tal coisa do anti-sexismo, que é como você ter a bomba H ao seu alcance e não aproveitar pra arrasar o inimigo... Pô, a questão-chave do patriarcado é a questão do poder, do controle, da potência – e é exatamente o sexo, a natureza em expansão, que detona a noção que o homem tem de autocontrole, de limite. Nada como uma xoxota pra tirar um patriarca responsável do sério, provocar um curtocircuíto.
Então, eu sempre achei a sexualidade uma coisa potencialmente subversiva, e as figuras pop mais interessantes foram exatamente as garotas que conseguiram lidar com essa questão, artisticamente e pessoalmente: a Madonna, a Traci Lords, a Karen Finley, a Courtney Love, a Peaches, até a Tati Quebra-Barraco (risos)... Claro que eu vibrei quando descobri que estava surgindo toda uma geração de garotas que finalmente estavam conseguindo lidar mais provocativamente com isso, assumindo a própria liberdade diante do mundo masculino, e aprendendo inclusive a lidar com a beleza da outra e tal...
No seu livro A Estratégia de Lilith todos os personagens femininos tem características peculiares de uma mulher que reflete muito essas garotas em atitude e decisões. Foi algo visionário?
Eu sempre gostei de mulher com personalidade. E sempre me fodi na mão delas (risos)... Sempre fui intrigado com a dubiedade de comportamento das moças, essa mistura tão peculiar de força e de fragilidade... Aí acabei entendendo que, pra lidar com uma garota interessante, um cara tem que se desdobrar, tem que abdicar da linearidade masculina. Quem me chamou a atenção pra isso foi a Baby Consuelo, quando ela disse que o tipo de homem que a atraia era um cara que parecia “ameaçar e proteger” ao mesmo tempo. Formidável isso. Aí notei como os homens são capazes de lidar com os diferentes aspectos das mulheres – desde que eles estejam separados em diferentes mulheres! Aquela coisa da tchutchuca em casa e da cachorra na rua, sabe como é? E isso é profundamente injusto com as moças de personalidade – que gostam de ser princesinhas às vezes, putinhas às vezes, e sei lá mais o quê às vezes, sem que o cara delas fique maluco cada vez que elas trocam de personalidade (risos)... Porque a “vagabunda” é apenas o negativo da mocinha casadoira. Foi a história desse tipo de mulher que-quer-ser-tudo, e de um cara aprendendo a entender isso, à força, claro (risos), que eu tentei botar no livro...
E você tem idéia de como pode ser para essas garotas da nova geração daqui alguns anos diante da sociedade como mundo do trabalho? Talvez mude tudo ou exista uma adaptação para sobrevivência?
Algumas amigas minhas, um pouco mais velhas, me disseram “ah, isso passa”, que depois a garota se adapta. Mas eu sempre tive bode de um certo tipo de mulher de trinta, extremamente inteligente e “poderosa”, mas inteligente e poderosa no sentido formal, masculino, de quem aprendeu a “lidar com o mundo”... com o mundo patriarcal, claro. Então ela incorpora um certo cinismo masculino, sabe como é? Joga o jogo, “compra” o poder na sua versão masculina. Pô, eu não estou interessado em adaptação, estou interessado em destruir o mundo patriarcal! Nisso eu concordo com a mais radical das feministas, a Valerie Solanas, que disse que disse que “o macho é um acidente biológico, o gene Y (macho) é um gene X (fêmea) incompleto; um aborto ambulante, mutilado no estado de gene, deficiente, emocionalmente limitado”. Tipo esses caras que se encontram de manhã e fingem que brigam sobre futebol, reconheceu? (risos) Eu acho que alguma geração de garotas vai levar adiante essa tarefa, de induzir o colapso na percepção masculina de mundo... Fazer os caras se arrasarem de desespero ao ver as garotas bonitas se agarrando, ao invés de ficar nessa coisa de “e aí, corintiano? Se fudeu, palmeirense”... ou pegarem logo um no pinto do outro (risos). E eu espero que isso seja tipo pra já...
Um fato que você frisou na matéria foi sobre o interesse cultural e o conhecimento pop dessas garotas; isso é uma característica geral ou peculiar de um gênero, algo como: sou inteligente, sou independente e logo existo?
Não, é um fenômeno ainda mais malicioso, capcioso e engraçado. Porque a maior parte daquelas garotas que lista uma porrada de coisas do arco-da-velha no profile do Orkut nem leu nem escutou a fundo todos aqueles livros e bandas e tal... Sabe como é, leu a orelha do Nietzsche e se diz nietzschiana? Pô, isso é o máximo, porque a idéia de que você tem que realmente conhecer algo pra se reinvindicar dessa coisa é uma idéia formal, yang, portanto patriarcal... Exibir assim tão descontraidamente as figurinhas da cultura, só por aproximação – “aí ó, eu descobri que eu sou existencialista” (risos) – revela um desprezo saudável pela ordem formal das coisas, uma opção pela intuição, yin, em detrimento do conhecimento exterior. É uma coisa que só ajuda a botar a percepção masculina de mundo ainda mais em colapso e desespero (risos), tipo “quem elas acham que elas são?”. Pois é exatamente esse o truque – enquanto elas se acharem, elas continuarão sendo. Porque sim. Aliás esse é um puta slogan, “porque sim” – a resposta ao “porque não” patriarcal. Em 1970, os “caretas” tremiam de medo ao ver um cabelo black power, um símbolo dos Panteras Negras. Mas a reação automática do patriarcado é sempre depreciar os símbolos das meninas. Eles ainda irão tremer ao ver uma garota de cabelo vermelho (risos)... A Babalon, a “scarlet woman” transformadora de que falava Aleister Crowley, chegou de all-star...
Os sites com garotas com determinada atitude e visual marcante já existem alguns anos fora do país algo bastante comum visualmente fora daqui, como você acha que foi a transição até aqui?
Cultura é grana, é produto do conforto material. Ou, na outra ponta do espectro, é produto da carência absoluta. A média é que é medíocre. Então você tem Lolita Pille numa ponta, e Tati Quebra-Barraco na outra (risos). Mas pode crer que elas dialogam. No Brasil as coisas funcionam muito com base nessa tensão.
Você acredita que existe uma forma superior, uma mulher indomável dentro de cada dessas garotas que foi guardada durante anos e surgiu aos gritos agora?
Claro, e ela tem nome, inclusive. Lilith, minha senhora. Que veio para cortar o saco de Adão e gritar o nome secreto de deus aos quatro ventos (risos)... Ai do homem que não respeitar, e da mulher que não entender que Lilith já venceu a parada. Vão ficar presos na agonia final da era patriarcal. Em compensação, quem sacar, simplesmente passa ao estado de felicidade. Porque sim.
Alex querido, e quais seus projetos novos? Livro novo? E o Akira & as Garotas que Erraram? Algum projeto sobre as sexygrrrls?
Tenho dois romances em andamento, mas sou um autor meio dispersivo... São boas histórias, e têm muito a ver com esses assuntos do feminino, pelo menos uma delas... Um dia destes vou ter que concluir. O Akira S & as Garotas Que Erraram voltou e deu dois shows, depois de mais de 15 anos inativo – vamos ver se rola mais alguma coisa este ano ainda. Saíram duas coletâneas com faixas nossas lá fora, The Sexual Life of the Savages na Inglaterra e Não Wave na Alemanha. E estão indo superbem, com elogios para o Akira S na Uncut, na Mojo, Wire, Village Voice e tal. Fui até chamado de “Ian Curtis à frente do Duran Duran”, um espanto (risos). Minha outra banda, o Shiva LasVegas, pode voltar também, os músicos estão a fim. E as sexy grrrls, bom, elas não saem do meu pensamento... não tenho como escapar desse tema. Aliás nem quero escapar (risos).
(publicado no site Moddolls)